“Não é contra a religião e sim contra os pastores pilantras”, diz o censurado ‘Bispo Arnaldo’

O ator Arnaldo Taveira interpreta o personagem "Bispo Arnaldo" | Foto: Renato Fulgoni
Mateus Marinho
O ator Arnaldo Taveira, de 38 anos, se vê em meio a uma polêmica gerada com seu trabalho atual. Ele dá corpo e voz ao personagem “Bispo Arnaldo”, autor de forte crítica a igrejas e pastores evangélicos no show de humor “Culto do Bispo Arnaldo”. O espetáculo vem sofrendo uma onda de censura, geralmente associada a lideranças religiosas que se sentem ofendidas com o tema e fazem pressão para que a exibição da peça seja proibida.
“É um tiro que sai pela culatra. Eles me proíbem, aí que eu ganho mais fiéis”, brinca.
Em São Pedro da Aldeia, onde recebeu a reportagem de CIDADE para esta entrevista antes de seu show na última sexta-feira (27), realizado no Teatro Municipal Dr. Atila Costa, um abaixo assinado chegou a ser feito, com assinaturas inclusive de vereadores da cidade, pedindo o cancelamento, mas o pleito foi sem sucesso.
O mesmo não se pode dizer de Araruama, onde o espetáculo que estava marcado para este sábado (28), no Teatro Municipal, foi cancelado (o ator chegou a postar um vídeo nas redes sociais criticando diretamente a prefeita Livia de Chiquinho), e também de Macaé, onde a peça chegou a ser encenada na quinta-feira (26), mas só depois de sair do Teatro Municipal e passar para um hotel.
No show de Macaé foram arrecadados R$ 545 para o abrigo de animais Casa dos Anjos. No show de São Pedro foram arrecadados R$ 525 para a instituição Patinhas D’Aldeia. A reportagem de CIDADE procurou as prefeituras de Araruama e Macaé para entender o motivo do cancelamento, mas não teve resposta.
“As pessoas ultimamente têm se tornado muito extremistas e tomado atitudes precipitadas”, opina ele.
Arnaldo é casado e pai de dois filhos, um menino de 4 anos e uma menina de 14. Morador de Petrópolis, na Região Serrana do Rio, ele criou, para compor o personagem do Bispo Arnaldo, a “Igreja Evangélica Pica das Galáxias”. Começou a interpretar o personagem em 2011, ainda como “Pastor”. Criou um canal no Youtube e, quando atingiu 100 mil inscritos, deixou de ser “Pastor” e passou a ser “Bispo”. Está com 470 mil inscritos no canal, e o próximo passo é se tornar “Apóstolo”, quando atingir 500 mil. Quando chegar a 1 milhão de inscritos, vai virar “Vice Deus”.
“O título de Vice Deus é uma crítica às pessoas que se acham maior do que Deus. Eu não tenho essa ambição. John Lennon disse que os Beatles eram maiores do que Deus. O que aconteceu com ele? Morreu. Não quero isso pra mim”.

Veja a entrevista completa:

Espetáculo é uma sátira a pastores evangélicos | Foto: Renato Fulgoni
Revista Cidade: Como você encara essa situação, de censura aos seus shows?
Bispo Arnaldo: Foi uma decisão equivocada. A menos que a pessoa esteja cometendo um crime, e eu não estou cometendo crime algum, não se tem o direito de proibir alguém de fazer algo. Tanto é que eu falo para todo o Brasil através do meu canal no Youtube. Infelizmente algumas pessoas não entenderam que se trata de uma crítica, que é um personagem, e não é nada contra a religião e sim contra os pastores pilantras, como existem em todas as religiões, não só na igreja evangélica.
E os problemas gerados pelos cancelamentos? Como lidar?
O prejuízo financeiro é grande, mas na questão de público foi bom, sempre é bom. Em Angra, há um tempo atrás, foi a mesma coisa. Impediram o meu show no Teatro Municipal e fizemos numa boate. Tivemos que fazer duas sessões porque não coube tanta gente. Aqui na Região dos Lagos eu estou muito mais falado por causa da censura. Eu costumo dizer que quem censura não pensa que é uma atitude que só promove o meu espetáculo.
A que você atribui essa recepção negativa de alguns segmentos da sociedade, em especial, dos pastores?
Eu creio que teve algo orquestrado por uma facção, um grupo dentro da igreja, que realizou um movimento coordenado nas três cidades, Araruama, São Pedro e Macaé, e influenciou o poder público. O Bispo Arnaldo é só mais um personagem, como já tivemos muitos aí. O Chico Anísio fazia o Tim Tones também e não tinha essa repercussão. As pessoas ultimamente têm se tornado muito extremistas, e tomado atitudes precipitadas.
Como analisa essa relação entre política e religião, um dos temas que você aborda?
O show de humor vem despertando a censura em alguns lugares por onde passa | Foto: Renato Fulgoni
Eu acho um absurdo um pastor ceder o palco para o político pedir voto, e isso acontece muito. Existem muitos pastores que eu critico diretamente nos meus vídeos que possuem um poder político muito grande, com capacidade de movimentar outras sessões da igreja evangélica. E quando política e religião caminham juntas é um caminho perigoso. A religião quando chega ao poder acaba ficando autoritária. Existem exemplos disso nos países islâmicos, na inquisição católica, na inquisição protestante. O Estado tem que ser laico, isso está na Constituição. Ser laico não significa ser ateu, significa respeitar todas as religiões para que as elas convivam em harmonia e não se intrometam nas decisões do Estado.
Você acredita que o “politicamente correto” está deixando o mundo chato?
Com certeza. O politicamente correto está deixando o mundo chato. Como o Danilo Gentili disse uma vez, pra você ser radical hoje você tem que fazer um humor dos anos 80. Mamonas, Trapalhões e Chaves não teriam condições de existir.
Como começou esse interesse em falar sobre religião, em fazer essas críticas a determinadas condutas de alguns pastores?
Eu sempre fui criado dentro da igreja e eu percebi que não existia uma força dentro da igreja evangélica contra esses pastores pilantras. É até engraçado porque eles que são os humoristas. O cara chegar no palco pra vender toalhinha ungida, cimentinho ungido… isso é criatividade de humorista. Enquanto isso os pastores compram fazendas, mansões e tudo mais. A população perdeu a capacidade de se chocar com o absurdo. Por isso eu quis que meu personagem chocasse. A pessoa que não entende o personagem muito bem pode ficar com raiva de mim no início, mas depois ela vai ver que ela não está com raiva de mim, ela está com raiva de uma realidade que acontece, de uma coisa que ela já pode ter presenciado. Quando um pastor pilantra vê que o fiel dele vem na minha igreja, esse fiel vai reconhecer em mim uma caricatura desse pastor pilantra. Esse é o medo deles. Daí que vem a censura, eles não querem que eu fale. Isso é terrível.
Existe limite para o humor?
Peça foi encenada no Teatro Municipal de São Pedro da Aldeia, apesar da resistência | Foto: Renato Fulgoni
Eu creio que piada é piada, personagem é personagem. Quando um país começa a levar os humoristas a sério é porque tem algo errado. Eu costumo dizer nos meus vídeos que vão acabar crucificando os humoristas em praça pública. Em vez de prenderem político corrupto, pastor pilantra e bandido, vão querer prender humoristas por causa de piada.
Você teme que o personagem do bispo possa te prejudicar de alguma forma?
Eu recebo ameaças de alguns fanáticos religiosos. E é ameaça de todo o tipo, de pessoas comuns e até de pastores. O fanatismo religioso é muito complicado. Tem aí o Estado Islâmico né, e eu brinco nos meus shows que vai surgir o Estado Evangélico (risos). Infelizmente tudo caminha pra isso. E essa intolerância eu busco combater no meu canal.
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