Marcelo O. quer levar uma traulitada

Quer parecer que Marcelo Odebrecht ainda não entendeu porque razão se encontra na posição em que está. Não percebe que não se trata, apenas, de uma verificação feita pelo Poder Público das práticas que a holding que preside utilizou na condução de seus negócios mas também, e talvez até mais importante, de uma prestação de contas aos investidores da holding que, necessariamente, desejam tomar conhecimento de porque está sendo acusado de ter permitido que alegadas práticas ilegais fossem aprovadas.

Insistindo em qualificar como absurdas e injustas as acusações que o Poder Público lhe faz, admite que não tinha controle da empresa que preside, desconhecendo, dessa maneira, que subordinados seus agiam, alegadamente, ilegalmente. Se tais atos tivessem sido examinados por um conselho ou outro órgão de controle interno, tanto ele como subordinados seriam questionados e, quiçá, destituídos dos cargos que ocupam. Quanto a ele, talvez se propusesse sua substituição, embora se trate de uma empresa dita “familiar”. Certamente os investidores questionariam sua competência para permanecer como presidente da holding.

É válido supor que numa reunião para prestação de contas aos investidores estes questionassem algumas práticas aprovadas por Marcelo Odebrecht. Por exemplo, como explicar a decisão de pagar ao ex-presidente Lula para realizar palestras no Brasil e no exterior? Que benefício a holding auferiu? Questionariam, também, o conteúdo das palestras. Sobre o quê o ex-presidente falou e que de que maneira as empresas onde realizou palestras se beneficiaram. Inspecionando a lista de 70 empresas divulgadas pelo Instituto Lula, os investidores iriam querer ser informados que benefícios tiveram as empresas listadas em ouvirem o que o ex-presidente tinha a dizer. Geralmente, empresas como as listadas, convidam especialistas, em determinadas áreas, para realizarem palestras para seus funcionários ou para um seleto grupo de funcionários, cabendo a elas arcar com o custo do evento. Que justificativa tem Marcelo Odebrecht para inverter a ordem de ocorrência de tais eventos? Será o ex-presidente um especialista em todos os assuntos de interesse de toda e qualquer empresa? E de que maneira Marcelo O. chegou à conclusão de que empresas deveriam ouvir o que o ex-presidente tinha ou tem a dizer? Das 70 listadas, quantas pagaram pela palestra e quantas foram pagas pelo Odebretecht? Invertendo-se a questão: quantas empresas convidariam o ex-presidente para fazer uma palestra?

Outro ponto que os investidores, provavelmente, questionariam é a decisão da Odebrecht em contratar duas empresas de um sobrinho do ex-presidente Lula para trabalhar na obra de ampliação e modernização da hidrelétrica de Cambambe, em Angola. Como presidente da holding Marcelo Odebrecht, certamente, teve um papel importante na decisão. Como foi tomada? Que critérios foram usados?

Essas são questões que fazem parte da ação penal contra Marcelo O. Insistindo em qualificar as acusações como injustas e absurdas Marcelo O., indiretamente, admite que não tinha controle sobre a empresa que preside. De fato, é surpreendente um comentário que repetiu, duas vezes, no final de seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, em relação a um pedido do Ministério Público para que autorizasse o pedido de informações ao Ministério Público na Suíça para enviar informações sobre duas contas em nome da Odebrecht e que Marcelo O. afirma não reconhecer. Reagiu ele, duas vezes, afirmando “Não tenho competência”. Ora, como assim? Se uma conta em banco na Suíça, em nome de sua empresa foi localizada, não seria de seu interesse descobrir o que aconteceu?

Dessas atitudes de Marcelo O. seria válido inferir que seus protestos talvez sejam pertinentes porque, na verdade, seria, apenas, uma figura decorativa na holding. As alegadas ilegalidades teriam ocorrido porque ele, de fato, não teria participado de importantes decisões que conduziram sua empresa à atual situação.

Quer parecer que Marcelo O. quer ver o Sol nascer quadrado. Também é pra lá de bodoso, cheio de gueri-gueri. Fala muito e não diz nada, como no depoimento para a CPI da Petrobrás, um contorcionismo verbal no meio do qual incluiu a história de punir a filha que delatou a irmã de ter feito algo errado. Fez com que nos lembrássemos de Hitler que mandava fuzilar quem o procurava para denunciar o que acontecia nos campos de concentração. Por outro lado permite que se infira que puniu um ou mais funcionários da empresa que dirige por terem a ele denunciado que outros funcionários estavam pagando propina a diretores e gerentes da Petrobrás e, ainda, a agentes públicos, para que a empresa vencesse concorrências na construção de obras no Brasil e no exterior. Esse tipo de inferência, certamente, será usada por acionistas da Petrobrás, no exterior, que alegam terem sido enganados por propaganda que reputam enganosa, da Petrobrás, nos seus anúncios quanto à real condição financeira da empresa.

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Semana passada Marcelo O. inovou. Intimado para depor entregou ao juiz Sérgio Moro um documento contendo perguntas e respostas e logo na primeira pergunta feita pelo juiz, retrucou: a resposta está nas respostas que entreguei a Vossa Excelência. Ou seja, o juiz teria que garimpar as respostas que Marcelo apresentou para delas extrair a resposta à pergunta feita.

Em 18/08/2015 o Instituto Lula divulgou a informação de que de 2011 até hoje, o ex-presidente Lula fez 70 palestras contratadas por 41 empresas e instituições, e foi remunerado de acordo com sua projeção internacional e recolhendo os devidos impostos. Entre elas está a Odebrecht e não se sabe se entre as respostas entregues por Marcelo O. consta quantas delas foram feitas para a empresa e quanto pagou. (O fôlego de Lula é invejável. Num período de aproximadamente 220 semanas fez uma palestra a cada três semanas, mesmo com a visível dificuldade que tem para falar, considerado o câncer na laringe que o afligiu em outubro de 2010).

Tanto Marcelo O. quanto Lula surpreendem o País a cada dia, apresentando notícias novas sobre como a empresa do primeiro usou dinheiro recebido da Petrobrás.
Dois figurões da Odebrecht também foram intimados a depor perante o juiz Sérgio Moro e, preferindo permanecer em silêncio, entregaram seus destinos ao juiz. Irá estabelecer suas sentenças baseado nas informações que recebeu da PGR e nas defesas apresentadas por seus advogados.

Da maneira como Marcelo O. optou se comportar está parecendo que está querendo levar uma traulitada.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
01/11/2015

 

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