Manoel Vieira fala do patrimônio histórico de Cabo Frio

manoelvieira

manoelvieira

Em entrevista exclusiva publicada no ano de 2009, na edição nº 32 da Revista CIDADE, o arquiteto Manoel Vieira, ex-chefe do escritório regional do Iphan,  acusou o governo municipal de fazer pouco caso do patrimônio histórico do município, e aponta para o risco de que a cidade perca, em pouco tempo, boa parte dos monumentos que contam uma história de mais de 500 anos. Acompanhe.

TB – Em que estado se encontra o patrimônio histórico de Cabo Frio?
MV – Cabo Frio está num limite bem perigoso de perder parte da sua memória. Na verdade, já vem perdendo nos últimos 30 anos de uma forma muito pesada. E o pior é que as ações no sentido de preservar e dar um valor turístico ao patrimônio não vão pra frente. O Iphan, por exemplo, chegou a esboçar a criação de um roteiro de visitação dos monumentos, mas o projeto não foi para frente. Era um trabalho que a gente pretendia desenvolver com a secretaria de Turismo, mas a prefeitura nem respondeu ao Iphan.

TB – Como seria esse roteiro?
MV – Incluiria a igreja da Matriz, a igreja de São Benedito (Passagem), o Convento Nossa Senhora dos Anjos, entre outros monumentos. A igreja da Matriz, por exemplo, foi a primeira a ser construída, por isso leva o nome de Matriz, mas já foi tão modificada que a aparência que ela tem hoje já não é mais a original. Ela foi construída no século XVII, mas sofreu uma intervenção muito forte em meados do século XIX. A feição dela, portanto, é bem mais moderna. Já não é possível vê-la como uma igreja colonial. É uma igreja neoclássica, tem uma mistura de estilos arquitetônicos. A de São Benedito, não. Essa ainda tem a feição colonial do século XVIII. O Convento também mantém as características originais, apesar de ter sofrido uma intervenção muito forte no século XX.

TB – Que tipo de intervenção esses monumentos sofreram?
MV – O Convento se encontrava em estado de ruína na década de 50, assim como o Forte São Mateus, quando ambos foram tombados pelo Iphan. As fotos do Wolney (Teixeira, fotógrafo que registrou o crescimento de Cabo Frio na primeira metade do século 20) revelam isso de forma clara e evidente. O Forte, por exemplo, estava só em meia parede. O bacana no caso do Convento, ao contrário de outros monumentos de Cabo Frio, é que a restauração foi feita pelo próprio Iphan, que teve maior cuidado, capricho, restaurou de acordo com padrões internacionais. O Forte foi restaurado pelo governo do Estado, que até teve alguns critérios, mas a pesquisa não foi tão aprofundada. A sorte é que o Forte é muito simples em termos artísticos, então os acabamentos, por serem muito simplórios, também facilitaram a intervenção e o que se perdeu do prédio original foi muito pouco. Aquela guarita de sentinela, por exemplo, ninguém sabe se tinha mesmo esse formato que tem hoje. As fotos do Forte naquela época, já em estado de arruinamento, já se apresentam sem aquela guarita.

TB – Como podemos definir, dentre os monumentos existentes na cidade, aqueles que são mais importantes para contar a história local?
MV – Bom, existem três níveis de proteção: municipal, estadual e federal. Podemos dizer, portanto, que os mais significativos são aqueles de importância nacional. Ou seja, são monumentos que devem ser preservados para contar a história do país, e não apenas da cidade. Acredito que o Forte São Mateus seja, de fato, o mais significativo, especialmente pela sua localização. Ele anuncia que a importância histórica de Cabo Frio está singularmente relacionada com a relação geográfica do município para o continente e para a história do Descobrimento do Brasil. Pois esse era um ponto de referência na navegação. Era um local que precisava ser protegido, que garantia a defesa das terras descobertas. O Convento, por sua vez, registra a relação artística que a cidade tinha. Em geral, o trato com as igrejas é um reflexo da importância econômica do município. O Convento é uma igreja simples, e isso reflete que a economia de Cabo Frio era menos grandiosa do que já teve Paraty, Angra dos Reis, por exemplo. Cabo Frio nunca teve uma importância econômica muito grande, mas tinha, como disse, uma importância geográfica e militar muito forte. E o Convento também conta a passagem dos franciscanos pela região, presença muito importante principalmente no quesito educativo. E também que serviu para puxar o núcleo de povoação para onde hoje se entende como centro da cidade. Ate a criação do Convento e a construção da Igreja da Matriz, o centro estava se desenvolvendo todo pela Passagem. Depois, houve essa migração para o que hoje a gente chama de centro, e um dos grandes responsáveis é o Convento. Mas na época em que foi construído, ele quase que finalizava a cidade. Outro monumento importante é a Capela de Nossa Senhora da Guia, que infelizmente não tem mais o altar original. O que existe ali é um falso histórico, não se deteve em nenhum estudo para resgatar o que tenha sido um dia o altar da capela. Mas a capela marca uma relação de controle, porque de lá de cima se avista a cidade inteira. Se é assim hoje, imagina há 200 anos atrás. Outro prédio muito importante é o Charitas (Casa de Cultura José de Dome), que tem tombamento estadual.

TB – Apesar de toda essa riqueza histórica, Cabo Frio ainda não desenvolveu um turismo voltado para a visitação desses monumentos. Por que isso acontece?

MV – Todo mundo cita isso pra falar de Cabo Frio e vou citar também. É como a história da galinha dos ovos de ouro, sabe? Se a galinha está dando um ovo de ouro por dia e você está satisfeito, você vai viver com um só ovo de ouro por dia. Eu acho que é isso que acontece com a Praia do Forte. Parece que as pessoas estão satisfeitas com o que a Praia do Forte tem feito pela economia do município. A praia é a grande alavanca econômica da cidade, mas as pessoas não se dão conta que a própria praia tem uma capacidade de suporte, e que ela já esgotou isso há muito tempo. Para sustentar uma cidade inteira, estão esgotando a capacidade de suporte da praia. Não é nem só a questão do público (que frequenta), é como se usa a praia, todo mundo almoça, faz tudo na praia. E o município não está criando alternativas para o turismo, só o turismo especulativo de praia. Acho que isso nem foi uma coisa pensada, foi acontecendo naturalmente. O uso da praia é uma coisa de meados do século XX em diante. Antes não existia essa história de tomar banho de praia. Mas houve esse frenesi nas décadas de 50 e 60, e em Cabo Frio teve o seu grande pico na década de 90. Agora, isso traz problemas sérios com esgoto. O Canal Itajuru sofre com o esgoto in na cidade de Cabo Frio funciona, em grande parte, no sistema de “tempo seco”, e não suporta o regime de chuvas. E o esgoto vai pro Canal e depois para a praia, porque o Canal deságua na praia.

TB – Existe mais algum monumento em Cabo Frio que precisa de tombamento?
MV – Um exemplo é a antiga residência do fotógrafo Wolney, um espaço que eu acho que deveria ser tombado pelo município. Quando a gente fala que “cabe ao município tombar” é porque a importância do fotógrafo é uma importância local. Se o Iphan for proteger tudo que tem importância local, vai absorver uma competência que é do município. As dunas, apesar de já serem tombadas e da existência do Parque das Dunas, ainda não receberam a importância devida do município. Elas são subvalorizadas e correm o risco de acabar.

TB – Qual a sua opinião sobre a postura do município em relação à preservação do patrimônio?
MV – Para ser bastante ameno, eu acho que ainda não acordaram. A prefeitura tem desenvolvido políticas em diversas áreas, que são importantes para a cidade. Mas eles ainda não despertaram para a importância da preservação do patrimônio. E talvez quando despertem não já não tenha mais nada. De fato! O que vai sobrar em Cabo Frio é o que está protegido pelo Iphan e alguns prédios protegidos pelo Inepac. Porque nem o que foi tombado pela prefeitura eles estão zelando. O Marco de Sesmarias já foi levado embora, a Fonte do Itajuru está completamente abandonada, as pessoas passam por ali e já nem conseguem ver aquilo como um parque municipal, como é o Parque do Itajuru. A importância turística desses locais não está sendo explorada.

TB – A continuar nesse caminho, o que poderá acontecer com o patrimônio da cidade?
MV – Acho que, agora, estamos no limite de, ou mudar essa relação, fazer uma revolução nesse pensamento, ou de fato abandonar a memória e viver como uma cidade que não tem uma história de mais de 100 anos. E Cabo Frio tem uma história de mais de 500 anos. Ou se luta por isso e se faz, de fato, políticas públicas preservacionistas, ou se perde todo esse patrimônio que não é só cultural, é ambiental também, porque essas coisas se fundem.

Entrevista concedida ao jornalista Tomas Baggio

{loadposition facebook}

COMPARTILHAR