Manguezais entre os Rios Macaé e Una (III) – Manguezal de Mar do Norte

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Para escrever minha tese de doutorado sobre os manguezais da Ecorregião de São Tomé, percorri a pé o trecho costeiro que se estende do Rio Itapemirim (ES) ao Rio São João (RJ). Claro que esse percurso foi feito por etapas, com intervalos consideráveis entre uma e outra. Solitário, apenas como uma câmara fotográfica e um gravador. Neste segundo aparelho, eu registrava minhas impressões e entrevistava informantes. Ao voltar à minha base de trabalho, eu escrevia relatórios e transcrevia as entrevistas. Só pulei o trecho entre Barra do Furado e o Rio Macaé por já conhecê-lo desde a década de 1980, quando repeti o roteiro dos Sete Capitães, inauguradores de uma colonização européia contínua no norte-noroeste fluminense.

Entendi que este procedimento era fundamental, pois a memória das pessoas sobre a presença de manguezais em rios, riachos e lagoas costeiras vem se perdendo. As informações orais não eram muito confiáveis e precisavam ser confirmadas ou infirmadas no terreno. A penúltima excursão que empreendi estendeu-se do Rio Macaé ao Rio das Ostras. Neste trecho costeiro, registrei o minúsculo e monoespecífico manguezal da Praia de Imbetiba, já analisado no artigo anterior (Manguezais entre os Rios Macaé e Una (II) – Manguezal da Praia de Imbetiba ), e mais três.

Defendo o princípio segundo o qual o cientista não deve descartar a subjetividade e o acaso como meios de alicerçar suas conclusões. Darwin dispunha de todos os elementos para formular a teoria da evolução das espécies por seleção natural, mas ela não foi construída como resultado de um pensar sistemático e sim de uma conexão aleatória de informações provocada pela leitura de “Ensaio sobre a População”, de Thomas Malthus. Caso semelhante ocorreu com Pasteur, na descoberta de micro-organismos. Não tive receio em apostar no meu inconsciente, que fez aflorar a localização de um córrego durante um sonho nem nos sentidos plebeus do olfato, do paladar e do tato para deduzir a expansão do manguezal do delta do Paraíba do Sul em direção à Lagoa da Praia, na Vila de Gargaú. Não hesitei em mergulhar no tempo e vasculhar minha memória para encontrar nela recordações de uma experiência vivida aos 12 anos de idade.

Eu passava as férias escolares de 1959 com meus pais em Barra de São João, situada na foz do rio de mesmo nome. Havia uma exuberante vegetação de restinga que se alastrava em ambas as margens do rio. Ao norte, o Rio das Ostras abrigava um luxuriante manguezal e, por uma estrada de terra, era possível fazer o trajeto Barra de São João-Macaé em uma hora. Lembro-me de uma parada feita na Lagoa de Imboacica, completamente agreste e muito mais ampla que atualmente.

Lembro-me de um vago manguezal. Mas, acima de tudo, minha memória olfativa registrou indelevelmente um cheiro de lagoa saudável. Retornei à Lagoa de Imboacica várias vezes a partir de 1982 e não encontrei mais qualquer resquício de manguezal. Por informação pessoal de Francisco de Assis Esteves, que vem estudando há anos a lagoa, cientifico-me de que nenhum manguezal foi encontrado em seu interior até o momento.

Então, retorno ao passado que documentos e livros me relatam. Maximiliano de Wied-Neuwied surpreendeu as margens da lagoa, em 1815, cultivadas com mandioca, arroz, café e laranja, registrando em suas águas abundância de peixes (Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1989). Dois anos depois, Aires de Casal informou: “A Lagoa de Boacica, que fica duas léguas ao sul do rio Macaé, e mui próxima ao Oceano, tem duas mil e quatrocentas braças de comprimento, seiscentas na maior largura, e pouco fundo. É salgada, e abundante de peixe, que sobe do mar, depois que se lhe abre um esgotadouro; e recolhe as águas do córrego, que lhe dá nome, do Serraria, do Mutum, do Riacho da Alagoa, e do Riachinho.” (Corografia Brasílica ou Relação Histórico-Geográfica do Reino do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976).

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Repetindo as informações de Casal, Saint-Hilaire apenas diverge dele quanto à largura da lagoa, a que atribui 60 braças. Acrescenta, por observação sua, que ela era
margeada de grandes florestas (Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Edusp, 1974). Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde endossa as medidas de Casal e seus afluentes, talvez copiando-o (Relatório da 4ª Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I. P. da Costa, 1837).

Um dos mais importantes levantamentos cartográficos do século XIX grafa a Lagoa de Imboacica como um rio cujo curso flui na direção oeste-leste até incidir perpendicularmente sobre a costa atlântica, onde desembocaria (Niemeyer, Conrado Jacob de et al. Carta Corográfica da Província do Rio de Janeiro coordenada e desenhada pelo engenheiro Pedro Taulois encarregado do Arquivo da Diretoria, sendo presidente da mesma o Brigadeiro João Paulo dos Santos Barreto. Rio de Janeiro: seção de iconografia da Biblioteca Nacional, 1839, cód. ARC 13-4-18). Na representação cartográfica de Pedro de Alcantara Bellegarde e Conrado Jacob Niemeyer (Nova Carta Corográfica da Província do Rio de Janeiro, publicada a expensas de Eduardo Bensburg. Rio de Janeiro: Litografia Imperial, 1865), tem-se a nítida impressão de que o Córrego de Imboacica, com nascente na serra de Iriri, engorda em sua foz pelo barramento natural dela por arte do mar, transformando-a numa lagoa com comunicação intermitente com o oceano. Intervenções antrópicas posteriores teriam consolidado cada vez mais a barra, por perda de força das águas que alimentavam a lagoa.

A partir dos anos de 1970, a Lagoa de Imboacica passou por um acelerado processo de urbanização decorrente da instalação da Petrobras em Macaé para a exploração de petróleo e gás natural na plataforma continental. Em consequência, os setores norte e oeste da lagoa sofreram aterros para a construção de casas residenciais e comerciais. A produção de esgoto saturou progressivamente suas águas, que foram eutrofizadas. A comunicação com o mar foi sendo perdida e a lagoa, de salgada que era no século XIX, transformou-se em salobra, junto à barra, e em doce, nas cercanias do Rio Imboacica, no século XX. Aberturas antrópicas da barra em períodos de cheia provocam impactos fortes sobre o ecossistema, com a formação de fluxos em direção à antiga embocadura que disseminam material poluente retido nas margens. Deve-se levar em conta igualmente a brusca redução do volume d’água, o choque salino e térmico (Francisco de Assis Esteves. Lagoa de Imboassica: impactos antrópicos, propostas mitigadoras e sua importância para a pesquisa ecológica. In: — (Edit.). Ecologia das Lagoas Costeiras do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba e do Município de Macaé. Rio de Janeiro: UFRJ/NUPEM, 1998). Tais transformações acabaram por suprimir progressivamente as condições para a existência de bosques de manguezal na lagoa.

manguezalMardoNorte1Rio Imboacica foto de 1957, hoje transformado numa simples vala. Acervo do DNOS manguezalMardoNorte2Localização do córrego sem nome, imediatamente ao sul de Mar do Norte. Fonte: Google Earth.

Deixando para trás a Lagoa de Imboacica e trilhando o caminho da praia até Rio das Ostras, encontram-se hoje, emergindo da vegetação de restinga, ainda cerrada e agreste por alguns quilômetros neste trecho, quatro pequenas portas de saída para o mar.

O olhar educado do estudioso conclui logo tratar-se de desembocaduras de pequenos rios, atualmente secos em tempos de estiagem. A marcha pelo seu leito revela o curso sinuoso e a umidade remanescente. Nos dois primeiros, a crista da praia eleva-se ligeiramente acima da desembocadura e nenhum vestígio de manguezal pode ser avistado. Ipoméias e gramíneas se alastram pelo solo arenoso do fundo exposto. Nas margens, dominam aroeiras, pitas, palmas, aráceas e outras plantas de restinga. Apenas o rabo-de-galo (Dalbergia ecastaphyllum) evoca o manguezal, embora ela também seja uma planta de terra seca com tolerância à água e a baixos teores de salinidade.
Passado o Condomínio de Mar do Norte, único aglomerado de casas de veraneio nessas praias extraordinariamente ermas para um país em que se opera uma corrida desenfreada em direção à costa, topa-se com um riacho correndo em direção ao mar. Ele se apresenta seco durante a estiagem. Somente algumas poças de água aqui e acolá falam dos tempos de cheia.

As espécies dominantes no córrego são o rabo-de-galo (Dalbergia ecastaphyllum) e a guaxuma (Talipariti pernambucense), desenvolvendo-se tanto no leito lamacento quanto nas margens elevadas. A surpresa para o pesquisador que decide penetrá-lo é encontrar um solitário pé de mangue-vermelho (Rhizophora mangle) adulto florescendo e carregado de sementes (propágulos). No chão, algumas plantas e tocas de caranguejo-uçá (Ucides cordatus) alimentando-se de folhas caídas dos exemplares de rabo-de-galo e de guaxuma.

manguezalMardoNorte3Foz seca do córrego de Mar do Norte. Foto do autor. manguezalMardoNorte4Solitário exemplar de mangue-vermelho, carregado de sementes, no córrego de Mar do Norte. Foto do autor

Em conversa com três pescadores residentes em Mar do Norte, perguntei sobre os cursos d’água anteriormente registrados. Disseram conhecê-los e informaram que enchem em tempos de chuva. No entanto, sustentaram que esgotam em lagoas, e não no mar. Seus nomes não são conhecidos ou talvez mesmo não tenham sido batizados pela nossa civilização. Pode ser que outrora merecessem algum nome, hoje esquecido. Mais uma vez a figura de Gilberto Freyre irrompe: as casas, antes com a frente virada para os rios, de onde tiravam alimentos, voltam agora para eles as nádegas e lhes atiram os excrementos ácidos da digestão, como se seus moradores se esquecessem dos caminhos d’água. Eles vão saindo da memória e da cultura (Nordeste: Aspectos da Influência da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1961).

Os mesmos três pescadores afirmaram em uníssono não existirem rios e manguezais entre os Rios Macaé e das Ostras, ao lado de uma pequena bacia em que ao menos uma planta exclusiva deste ecossistema remanesceu. Na foz seca, um pescador de mar disse que estávamos diante de um manguezal, não de um rio, mas que, no tempo das chuvas, esse manguezal enche e suas águas fluem para o mar assim como as deste avançam pelo brejo quando sobem as marés ou por ocasião de ressacas.

Eis por que um ecohistoriador deve sempre desconfiar de informantes humanos embebidos pela civilização culturalista do mundo ocidental.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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