Manguezais entre os Rios Macaé e Una (II) – Manguezal da Praia de Imbetiba

Manguezais entre os Rios Macaé e Una (II) - Manguezal da Praia de Imbetiba
Manguezais entre os Rios Macaé e Una (II) - Manguezal da Praia de Imbetiba

Já entrevistei vários leigos sobre o assunto “manguezais”. Minha pergunta básica é: “o que, no seu entendimento, caracteriza um manguezal?”. Entre as respostas, destaco lama, caranguejo, mau cheiro e uma árvore cujas raízes se parecem com as pernas de uma aranha. Para todos os entrevistados, não pode haver manguezal sem lama, que desprende odores fétidos. Nela, cresce uma árvore que emite raízes do tronco e vive caranguejo. A árvore é o popular mangue-vermelho, do gênero Rhizophora, e o caranguejo é o conhecido uçá (Ucides cordatus), que o leigo não sabe reconhecer se colocado ao lado de indivíduos de outras espécies, como o aratu (Goniopsis cruentata), o guaiamum (Cardisoma guanhumi) ou outro qualquer.

A lama é o elemento fundamental dentre todos. Havendo lama sem manguezal, as plantas que se desenvolvem nela formam um manguezal, na opinião do leigo. Se, por outro lado, o manguezal cresce na areia branca, ele não é reconhecido como representante deste ecossistema.

Em torno de 1995, encontrei um exemplar de mangue-branco (Laguncularia racemosa), no estágio de plântula (recém-germinada), na Praia de Imbetiba, ao lado das instalações da Petrobras, em Macaé. Ele se fixou na areia da praia. Eu ainda não havia estudado a etologia dos manguezais para compreender o fenômeno. Ainda bastante leigo, concluí que não podia se tratar de um pé de mangue-branco ou de qualquer outro por falta de lama. Cinco anos depois, retornando ao local, eu já havia lido bastante sobre manguezais. O propágulo (semente) de mangue branco já havia passado pela fase de plântula e de jovem (quando nasce o primeiro galho), tendo alcançado a fase adulta, quando se reproduz.

Manguezais entre os Rios Macaé e Una (II) - Manguezal da Praia de ImbetibaManguezal da Praia de Imbetiba: 1- Vala nas dependências da Petrobras (antigo Córrego dos Jesuítas?), 2- pequeno manguezal, 3- língua negra desembocando no mar. Imagem Google. manguezais Imbetiba2Pequeno manguezal monoespecífico na Praia de Imbetiba. Exemplares adultos de mangue branco. Foto do autor.

Em vez de só um exemplar, a plântula pioneira havia crescido e formado uma colônia de uma só espécie. Perguntei-me como aquele pequeno manguezal monoespecífico havia se desenvolvido ali. Sabe-se que as sementes (propágulos) de mangue vêm do mar, e não da terra, a menos que alguém as plante ali. Comecei a descartar logo a hipótese de alguém ter levado um propágulo de mangue-branco para aquele cantinho de praia. A origem mais provável dele seria o manguezal do Rio Macaé. Os propágulos caem da árvore-mãe pré-germinados. Se a maré estiver baixa, eles ficam sobre a lama do manguezal e podem se enraizar antes que chegue a próxima maré alta. 

Esta, por sua vez, pode arrastar os propágulos para o mar, deixando-os a navegar até que encontrem onde fincar pé ou percam seu poder germinativo.

Supus que as sementes tivessem se desprendido da árvore-mãe com a maré alta ou que não tiveram tempo de se enraizar quando a maré subiu, transportando-as para outro lugar. Mas por que apenas um propágulo teria aportado na Praia de Imbetiba e não um grupo? Por que apenas propágulos de uma espécie, e não também de mangue-vermelho (Rhizophora mangle) e de mangue-preto (Avicennia germinans), as outras duas espécies de mangue encontradas no Rio Macaé? Bom, uma leva de sementes das três espécies poderia ter ancorado na Praia de Imbetiba, mas apenas uma de mangue-branco se fixou e germinou.

As perguntas ainda continuavam. Por que sementes de outras espécies não germinaram? De todas as três, a de mangue-branco é a mais oportunista. Pequena, ela se aloja e germina em lugares inauditos, como veremos num artigo posterior. O propágulo do mangue-vermelho é grande. Parece um lápis. Para germinar, ele precisa ficar em posição vertical, o que é difícil, mas não impossível, em substrato arenoso. O propágulo de mangue-preto é também exigente, tanto para se fixar quanto para crescer. Supus que as sementes das três espécies de mangue poderiam ter chegado à praia e logo depois carregadas para o mar por outra maré cheia, restando apenas uma de mangue-branco que vingou e deu prole.

Primeira conclusão, portanto: uma leva de sementes das três espécies de mangue ou de duas ou de uma apenas, ou ainda uma única semente de mangue-branco, foi arrastada do manguezal do Rio Macaé pela maré cheia, navegou nas correntes marinhas e foi atirada pelas ondas num canto da Praia de Imbetiba. Elas não tiveram tempo para germinar porque a maré as levou novamente para o mar, deixando apenas uma semente de mangue-branco, que montou casa e constituiu família ali. Outra possibilidade é que as sementes de mangue-vermelho e mangue-preto tenham morrido. Se a leva depositou na praia apenas sementes de mangue- branco, só uma vingou porque as outras podem ter voltado para o mar ou morrido.

manguezais Imbetiba3Manguezal da Praia de Imbetiba florescendo e frutificando, indício de que está ativo e se reproduzindo. Foto do autor. manguezais Imbetiba4Despejo de esgoto na Praia de Imbetiba, fornecendo nutrientes orgânicos para o manguezal. Foto do autor.

Vamos à segunda questão. Quem estuda manguezal sabe que o ambiente ideal para ele são os estuários, ecossistema formado pelo encontro da água doce de um rio com a água salgada do mar, resultando num ambiente de água salobra. As plantas exclusivas de manguezal fixam-se na área entre a maré baixa e a maré alta, pois desenvolveram resistência a certo teor de sal por processo de seleção natural. Nesse ambiente, outras plantas são eliminadas e não concorrem com as de manguezal. O curioso é que as angiospermas (plantas completas) se desenvolveram a partir de vegetais que saíram do mar. As cerca de 60 espécies de mangue são angiospermas que voltam a molhar os pés na água salgada, mas não totalmente.

Uma nova dúvida me assaltou. Na praia de Imbetiba, não há um rio que possa fornecer água doce para se misturar com a água salgada do mar e formar um estuário, com água salobra. Este não seria um problema com resposta difícil, pois há três espécies de manguezal. O ribeirinho ocorre em estuários. O de bacia pode se desenvolver nas partes mais fundas do estuário ou em lagoas costeiras. Finalmente, o de borda ou franja é aquele que cresce na praia ou em ilhas, sem a contribuição de água doce.

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O pequeno manguezal da Praia de Imbetiba seria então um manguezal de franja? Logo percebi que não. A semente de mangue branco que germinou foi a que aportou na saída de uma descarga de esgoto. Bastante tempo depois, ministrei uma disciplina num curso de ambiente em Macaé e um aluno conhecedor da realidade do município, em aula de campo, identificou quatro bacias independentes: a do Rio Macaé, a da Lagoa de Imboacica (que considero um antigo rio), a da Lagoa de Cabiúnas (também com formato de rio antigo) e a de um córrego desaparecido denominado Rio dos Jesuítas. Por sua descrição, seu trecho final corria em área hoje da Petrobras. Visitando as dependências desta, verifiquei que o esgoto lançado na Praia de Imbetiba provém de uma vala totalmente revestida de concreto com seu curso final situado dentro da sede da empresa em Macaé, parecendo descer de morro próximo.

Essa vala seria o Rio dos Jesuítas, transformado num conduto de esgoto que desemboca exatamente no ponto da Praia de Imbetiba, onde cresceu o pequeno manguezal? Temos pela frente um campo de pesquisa, pois muitos córregos foram transformados em valas de esgoto no Brasil. Outra questão que se pode levantar refere-se à qualidade da água. O esgoto não inibiria o crescimento do manguezal? Em princípio, não, pois se trata de um ecossistema que aprecia matéria orgânica. Num manguezal íntegro, a matéria orgânica vem da decomposição de galhos, folhas e de animais mortos do próprio ambiente. O problema do esgoto é sanitário.

Para concluir, mais um detalhe. O manguezal pode crescer em substrato arenoso ou pedregoso, mas a produção de matéria orgânica e sua decomposição podem mudá-lo para lamoso. É o que está se verificando com o pequenino manguezal da Praia de Imbetiba, encerrado dentro de área da Marinha. Por um lado, protegido por ela. Por outro, sem merecer a devida atenção.

(*) Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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