Manguezais de Macau

paraibadosulII1

Descobri Macau. Não a cidade de Macau no Rio Grande do Norte. Esta já vive em mim por eu ser brasileiro. Falo da Macau chinesa, que foi ocupada pelos portugueses no século XVI, depois da famosa viagem de Vasco da Gama no fim do século XV. Ao lado do chinês, passou-se também a falar o português em Macau. Mais ainda, desenvolveu-se, lá, um dialeto local em que o português predomina. Descobri a literatura de Macau em língua portuguesa e no dialeto local.

Macau voltou a ser chinesa em 1999, com o estatuto de região administrativa especial, como Hong Kong, colonizada pela Inglaterra. As duas regiões administrativas especiais localizam-se no delta do Rio das Pérolas. As condições climáticas e geográficas permitem o desenvolvimento de manguezais no estuário do rio. Existem muitas ilhas em ambas as margens. Como se sabe, manguezal é um ecossistema cuja principal característica é a presença de plantas completas adaptadas a ambiente em que predomina água salobra. Melhor dizendo, nos lugares em que a água doce encontra a água salgada do mar. Os terrenos em que se desenvolvem os manguezais são baixos e banhados pelas marés.

paraibadosulII1 Mapa mostrando a foz do Rio das Pérolas. À direita a RAE de Hong Kong; à esquerda a RAE de Macau, com destaque para a península e as ilhas de Taipa e Coloane

As condições climáticas ideais para os manguezais encontram-se na zona intertropical, podendo eles passar um pouco acima e um pouco abaixo dos dois trópicos. Estima-se que a origem do manguezal situe-se no Sudeste Asiático, há 60 milhões de anos. Ali, plantas terrestres retornaram ao mar não totalmente, adaptando-se à água salobra e desenvolvendo sistemas de adaptação à salinidade e às marés. Um deles são as lenticelas, glândulas que se desenvolvem nas raízes e nos caules para a absorção de oxigênio em ambiente pobre desse gás. Outro são os pneumatóforos, raízes com geotropismo negativo. Trata-se de raízes buscam a superfície do substrato em vez de mergulhar na terra, embora as plantas exclusivas de manguezal também contem com raízes alimentadoras, que se dirigem para o interior da terra.

O excesso de sal do ambiente ou é barrado pelo organismo das plantas ou é diluído no seu interior ou é expelido pelas folhas. Se a água doce começa a predominar no ambiente, plantas invasoras competem com as espécies exclusivas de manguezal. Se a água salgada começa a prevalecer, as plantas de mangue podem morrer ou assumir comportamento anômalo. Cabe sempre lembrar que as espécies de mangue desenvolveram excelente capacidade de adaptação e de resiliência.

Espécies mais frequentes em Macau

Acompanhando os estudiosos Karem et alii (2013), no delta do Rio das Pérolas, as espécies típicas de mangue mais comuns são:
1- “Acrostichum aureum”. Comumente conhecida no Brasil como samambaia do brejo, não é uma espécie exclusiva de manguezal. Cresce também em água doce de áreas úmidas rasas. Tem considerável tolerância a taxas de salinidade, desenvolvendo-se com facilidade em áreas de manguezal. Se o bosque é cortado, a samambaia cresce com rapidez. É uma espécie oportunista que inibe o crescimento de plantas exclusivas de manguezal.

manguazalMacau2Figura 2- População de “Acrostichum aureum” manguazalMacau3Figura 3- População de “Acanthus ilicifolius”, em Macau

2- “Acanthus ilicifolius” – popularmente conhecida como holly mar e santo mangrove, é um arbusto ou erva da família Acanthaceae. Bastante comum na Austrália, Bangladesh, Camboja, China, Hong Kong, Macau, Índia, Indonésia, Malásia, Paquistão, Singapura, Sri Lanka, Taiwan, Timor Leste, Vietnam e ilhas do Pacífico, tem propriedades medicinais, sendo usada para tratamento de asma e reumatismo. Parece ser uma planta associadas ao manguezal, e não exclusiva deste ecossistema.

3- “Aegiceras corniculatum”. Espécie da família Myrsinaceae, cresce na lama dos estuários e riachos de maré, muitas vezes no limite marítimo da zona de manguezal. Sua distribuição se estende da Austrália à Índia. Tem propriedades medicinais.

manguazalMacau4Figura 4- “Aegiceras corniculatum” em Macau manguazalMacau5Figura 5- “Kandelia obovata”. A imagem é bastante familiar a manguezais do Brasil, embora esta espécie não ocorra na costa brasileira.

 

4- “Kandelia obovata” – É uma espécie exclusiva de manguezal muito comum no sul da China. Inclui-se na família Rhizophoraceae, de ampla distribuição na zona intertropical do planeta.

5- “Avicennia marina”. Da família Verbenaceae, esta é uma das mais resistentes espécies exclusivas de manguezal. Na Guerra do Golfo, travada em 1991 pelos aliados dos Estados Unidos contra o Iraque, uma das armas usadas por este país foi lançar petróleo no mar e atear fogo. Vários exemplares da espécie resistiram a este tensor, desenvolvendo raízes anômalas, conforme Böer (1993).

manguazalMacau6Figura 6- Bosque de “Avicennia marina” em Macau manguazalMacau7Figura 7- “Sonneratia apetala”, com seus pneumatóforos. Macau

6- “Sonneratia apetala”. Da família Sonneratiaceae, é uma espécie muito comum no delta do Rio das Pérolas em Macau, na sua margem direita. A espécie é típica de manguezal, desenvolvendo raízes respiratórias (pneumatóforos).

As relações das sociedades humanas com os manguezais

A história das antropossociedades (sociedades humanas) com os manguezais em todo o mundo parece ter o mesmo curso. Aliás, as relações das sociedades humanas com a natureza em todo o mundo, a partir do século XIV, caminham para o empobrecimento da biodiversidade. A razão desta destruição é o processo de globalização de uma economia capitalista nascida no mundo ocidental no século XI. O capitalismo dessacralizou a natureza e a transformou num objeto (coisificação) a ser explorado e a receber rejeitos.

As sociedades nômades do Paleolítico e as sociedades agropastoris do Neolítico podiam extrair combustível (lenha), matéria prima (madeira) e alimentos (invertebrados, peixes, répteis, aves e mamíferos) dos manguezais, mas em escala reduzida, somente para atender às suas necessidades, pois suas economias eram de subsistência e não de mercado. Em várias sociedades desse tipo, os grupos assentavam-se nas imediações dos manguezais para obter recursos com mais facilidade e rapidez.

Mesmo com a formação das civilizações, parece que as relações com os manguezais ainda eram sustentáveis ecologicamente. A natureza não havia sido totalmente dessacralizada e a demanda sobre os recursos naturais era menor que a capacidade de resiliência dos manguezais. Nessas civilizações, havia já uma atividade comercial que explorava os excedentes de produção para comercializá-los. No entanto, as formas de produção visavam primeiramente à subsistência, deixando muito pouco para o comércio. Seguindo Furtado (1976), havia já capitalismo, mas não modo de produção capitalista. A diferença que o economista e pensador brasileiro faz consiste em considerar o capitalismo como a comercialização do excedente gerado por modos de produção não capitalista. Já o modo de produção capitalista tem por objetivo gerar produtos para a comercialização e para a acumulação de lucro.

Num sistema cujo objetivo é o lucro, tudo se torna mercadoria real e potencial. Se a natureza está protegida por concepções sacralizadoras, a tendência é diluir tais concepções para que a natureza fique desprotegida e se transforme em estoque ou área para descarte de rejeitos. De tal forma o sistema capitalista avançou que seu vocabulário invadiu as ciências da natureza. Não é estranha aos biólogos a expressão estoque de animais, como se não existissem mais laços orgânicos entre eles. Mas, de certa forma, as ciências da natureza oferecem resistência ao sistema capitalista quando entendem a natureza de forma complexa, ao reunir elementos abióticos a bióticos, mostrando que eles formam ecossistemas, ao organizar os indivíduos em populações e comunidades, ao denunciar os impactos de atividades ao ambiente.

Os manguezais do estuário do Rio das Pérolas

Quando portugueses e ingleses se estabeleceram em Macau e Hong Kong, respectivamente, os bosques de mangue, com certeza, ocupavam áreas bem maiores que as atuais. Em todo lugar do mundo é assim: caminha-se de uma natureza pródiga para uma natureza transformada ou antropicizada.

Embora nem todas as áreas de terra no delta do Rio das Pérolas sejam propícias aos manguezais por serem altas, portanto fora do alcance das marés, havia muitas áreas baixas e várias outras condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento de manguezais. Hoje, os bosques de manguezais de ambas as margens do rio reduzem-se a amostras vestigiais. Por que se passou de um estado de abundância a um estado de escassez? Procuramos elencar alguns fatores.

1- As sociedades humanas paleolíticas e neolíticas extraíam dos manguezais plantas e animais para transformá-los em lenha, matéria prima e alimento. Com a captura de Macau pelo ocidente, o processo de extração aumenta e ultrapassa a capacidade de regeneração do ecossistema. Trata-se de uma história que ocorreu em todo o mundo, como mostra Soffiati (2006). Então, os manguezais tornam-se áreas de conflito entre ordens religiosas e população civil, como aconteceu no Rio de Janeiro no final do século XVII. Os conflitos entre donos de curtumes e pescadores é muito comum nos manguezais da Bahia, no século XVIII. Em Macau, que se saiba, esta história precisa ser escrita, pois, é quase certo que pessoas pobres dependiam dos manguezais, que deveriam ser vistos com olhos cobiçosos por atividades lucrativas. Com relação à margem esquerda do delta do Rio das Pérolas, já existem estudos mais aprofundados, mas não ainda de história (FAN, 2007). A própria atividade coletora e pescadora exercida de forma tradicional para subsistência acabou por ser capturada pelas franjas do mercado (SOFFIATI, 2016).

2- Expansão urbana. O núcleo urbano de Macau era muito reduzido no século XVI, quando os portugueses o transformaram num entreposto comercial entre Oriente e Ocidente. Mas, como em todos os núcleos urbanos ocupados ou instalados pelos europeus, os núcleos urbanos de matriz europeia vinham sempre acompanhados de fatores potenciais de expansão e de destruição.

Ambos os fatores atuaram em Hong Kong e Macau, para só mencionar núcleos urbanos de tipo europeu instalados na foz do Rio das Pérolas. A bela Macau retratada por Henrique de Senna Fernandes em seus contos e romances não mais existe. Depois que a cidade voltou ao controle da China, a urbanização foi incrementada. A península em que está localizada a cidade tornou-se, pouco a pouco, insuficiente para a expansão urbana. Mesmo no tempo em que era domínio português, ela já avançava para as ilhas, interligando-as com pontes. A falta de espaço territorial, e o grande fluxo de capitais e de pessoas exigiu um aeroporto moderno, que foi instalado dentro do mar. O continente e as ilhas vêm sendo aterradas para permitir a construção de edifícios modernos. Macau é a capital dos jogos de azar e da destruição dos manguezais, hoje reduzidos a fragmentos vestigiais nas bordas das estradas e impossibilitados de exercer seu funcionamento normal. O que sobrou dos manguezais em Macau tem comportamento anômalo. São resquícios de um ecossistema outrora pujante.

manguezalMacau11Exemplares de mangue isolados pela cidade macauExpansão urbana versus manguezais. Manchas de manguezais em Macau

3- Esgoto e lixo. Além de alterar a circulação normal das águas doce e salgada, que cria condições básicas para o desenvolvimento de bosques de manguezal, a cidade de Macau também abre valas para a circulação do grande volume de esgoto produzido, além da grande quantidade de lixo sólido, principalmente à base de plástico. Não raro, os especialistas em manguezais entendem que o esgoto doméstico, saturado de matéria orgânica, não afeta o manguezal em demasia. Causa mais aspecto negativo por gerar imagens e odores indesejáveis. Isto porque o substrato em que cresce o manguezal é formado por lama fino-particulada da qual emanam odores fétidos pela anoxia (carência de oxigênio). Contudo, ultrapassado certo limite, o despejo de esgoto aumenta a carência de oxigênio do ambiente e o saturam de fósforo, nitrogênio e micro-organismos patogênicos. O lixo sólido, por sua vez, além de impactar a visão, pode entupir a rede de circulação hídrica.

A história das relações das sociedades humanas com os manguezais no mundo está por ser feita. Adianta-se desde já, todavia, que, se por um lado, pesquisadores valorizam dia a dia a importância ecológica dos manguezais, por outro lado, este ecossistema é destruído. Não somente em Macau, mas no delta do Rio das Pérolas e no mundo todo.

manguezalMacau10 Lançamento de esgoto em Macau em área de manguezal.Figura 10. Lançamento de esgoto em Macau em área de manguezal. manguezalMacau12Resíduos de plástico nos manguezais de Macau.

 

Obs. Todas as figuras que ilustram este artigo foram obtidas e Tagulao et alli.

Referências
BÖER, Benno Böer. Anomalous pneumatophores and adventitious roots of Avicennia marina (Forssk.) Vierh. Mangroves two years after the 1991 Gulf War oil spill. Marine Pollution Bulletin nº. 27. Saudi Arabia. 1993.
FAN, Hangqing. National report on mangroves in south China – South China Sea – China. Guangxi Zhuang Autonomous Region, China Guangxi Mangrove Research Centre, 2007.
FURTADO, Celso. Prefácio à nova economia política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
SOFFIATI, Arthur. O manguezal na história e na cultura do Brasil. Campos dos Goytacazes: Faculdade de Direito de Campos, 2006.
SOFFIATI, Arthur. Tempo de espaço nos manguezais: um historiador fora do lugar. Rio de Janeiro: Autografia, 2016.
TAGULAO, Karem Araño; KIU, Chan Shek; PUT, Susana Wong; ANG, O e KAREM, Kan Macao’s mangroves. Macao: University of St. Joseph, 2013.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

{loadposition facebook}

COMPARTILHAR