Manguezais de Búzios – Rio Una

( 12 de Novembro de 2012)

Quem chega ou sai de Armação de Búzios pela rodovia RJ-106 vindo de ou indo para Barra de São João, cruza necessariamente o Rio Una, mas nem sempre o nota. A partir do Rio Itabapoana em direção ao sul, o Rio Una é o último em expressão no Estado do Rio de Janeiro. Dele, em direção o sul, só existem rios de pequena extensão e volume d’água, pois, entre a Serra do Mar e a orla do oceano, as distâncias são estreitas para permitir a existência de grandes rios.

Em 1934, o engenheiro Hildebrando de Araujo Góes (Saneamento da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense) escreveu que o Rio Una tem um curso aproximado de 30 km, cortando os brejos de Itaí, Pau Rachado, Trimurunum, Angelim e Campos Novos e lançando-se no mar. É um rio raso que permite a entrada de canoas só com a maré alta até Campos Novos. Mesmo os atentos naturalistas Maximiliano de Wied-Neuwied, alemão que passou por ele em sua viagem do Rio de Janeiro a Salvador, entre 1815 e 1817, e Auguste de Saint-Hilaire, francês que também o cruzou em 1818, registraram a sua existência. O que mais chamou a atenção dos dois foi a floresta de restinga que se estendia do Rio Una ao Rio das Ostras. Compreende-se a omissão. Os naturalistas europeus vinham ao Brasil para conhecer as luxuriantes florestas Amazônica e Atlântica. Sua visão do manguezal era negativa por se assemelharem estes ambientes aos pântanos da Europa.

A partir de 1935, com a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, e depois de 1940, com o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), a Bacia do Una sofreu transformações radicais. O trecho entre a nascente e a atual estrada RJ-106 foi retilinizado para drenar os extensos brejos formados por ela. Bem perto da foz, uma grande vala central foi aberta pelo órgão com o fim de favorecer a implantação de uma rede de drenagem em forma de espinha de peixe. Um pequeno afluente de sua margem esquerda também passou por idêntico processo até a mata de restinga, como mostra o mapa abaixo.

Trechos canalizados; 2- Curso não canalizado do Rio Una; 3- Curso não canalizado do afluente; 4- Mata de restinga; 5- Estuário do Rio Una. Fonte: Google Earth, junho de 2011.

Como era de se esperar num rio que desemboca no mar, no Una desenvolveu-se um manguezal com três espécies exclusivas deste ecossistema na costa do Oceano Atlântico: o mangue vermelho (Rhizophora mangle), o mangue branco (Laguncularia racemosa) e o mangue preto ou siribeira (Avicennia schaueriana). Cabe salientar que existe outra espécie de mangue preto – a Avicennia germinans –, cuja distribuição geográfica se estende do Trópico de Câncer, no hemisfério norte, até o Rio Macaé. Abaixo deste, só ocorre a Avicennia schaueriana.

Aspecto do manguezal do Rio Una entre a foz e a estrada de acesso a Búzios. Foto do autor.

O Rio Una desemboca na Praia Rasa, que forma uma enseada entre a foz do Rio São João e a Ponta do Pai Vitório. Aí, a diferença entre as marés alta e baixa é pequena e as correntes marinhas são suaves. Mesmo assim, a foz do Rio Una, voltada para o sul, indica que a corrente predominante apresenta a direção norte-sul. A baixa energia oceânica, nesta enseada, permite a formação de manguezais de franja, tipo que se desenvolve em praias ou em ilhas onde as águas marinhas são calmas, sem, necessariamente, a presença de água doce em sua retaguarda para formar água salobra. De fato, na margem direita da foz do Rio Una, o manguezal tende a formar uma franja ao longo da praia.

Pequena população de mangue branco que avança pela Praia Rasa a partir da foz do Una, formando franja. Notar os resíduos de plástico transportados pelas marés que ficam agarrados às plantas. Foto do autor.

Quanto à fauna típica de manguezal, existem, no rio, os caranguejos uçá (Ucides cordatus), aratu (Goniopsis cruentata), guaiamum (Cardisoma guanhumi) e chama-maré (Uca sp.). Tocas de guaiamum são facilmente avistadas porque este caranguejo vive fora dos manguezais, em suas margens, demarcando os limites do ecossistema. Há outros invertebrados habitando o ambiente. A presença de peixes e aves também foi registrada.

Tocas de guaiamum às margens do Rio Una, em terreno não atingido superficialmente pelas marés. Foto do autor.

Problemas
O maior impacto sofrido pela Bacia do Una foi, sem dúvida, a grande obra de dragagem, canalização e drenagem empreendida pelo DNOS. Ela eliminou os brejos atravessados pelo rio e reduziu drasticamente o regime hídrico da bacia. Com a diminuição da vazão, a foz do rio deslocou-se para o sul por ter o mar vencido a força do jato da água doce lançado no oceano. Por outro lado, a canalização permitiu que as marés alcançassem pontos mais distantes no rio e no seu afluente, transportando sementes de espécies exclusivas de manguezal.

Expansão por um canal de drenagem de brejo na margem direita do Rio Una. Foto do autor.

O segundo problema decorre de o manguezal estar situado numa área de prova de tiro da Marinha. No substrato do manguezal, há processos erosivos que não podem ser explicados pela intensidade do fluxo hídrico nem por ação das marés, pois o rio tem reduzida e fraca vazão, enquanto que a energia oceânica é fraca. A erosão, que deixa raízes de mangue expostas, poderia ser explicada pelos bombardeios que o manguezal sofre.

Remoção do substrato do manguezal, possivelmente por bombardeio, deixando raízes de mangue branco expostas. Fotos do autor.

Há ainda o risco da urbanização, que ronda a Bacia do Una. Devemos considerar que a mata de restinga envolvendo seu curso final era muito maior. Aos poucos, a Marinha vendeu partes imensas para a especulação imobiliária. A vegetação nativa foi suprimida e os terrenos loteados. Hoje, em seu lugar, a urbanização cresceu em extensão e densidade. Da grande floresta, que tanto impressionou o Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied e Saint-Hilaire, restou apenas um fragmento, como mostra o mapa que abre este artigo. Também ele pode ser entregue a especuladores.

Propostas
Já foi apresentada a proposta para que a mata de restinga existente no trecho final do Rio Una seja integrada ao Parque Estadual da Costa do Sol, uma Unidade de Conservação constituída por fragmentos. Este seria o fragmento mais setentrional do Parque e protegeria a vegetação nativa de restinga bem como o manguezal do Rio Una. Ao mesmo tempo, estancaria a expansão urbana. Não há como reparar os danos causados pela canalização da bacia feita pelo DNOS, mas é possível proteger o manguezal que se alastrou nos trechos por onde as marés avançam, em decorrência das obras de dragagem. Por outro lado, não tem mais cabimento, nos dias atuais, manter a área como campo para prova de tiro.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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