Manguezais de Búzios – Rio Trapiche

Transformação do curso final do Rio Trapiche na Marina de Búzios. Observar a geometrização do sistema hídrico e, à montante da estrada, remanescentes do rio (←). Fonte: Google Earth, junho de 2011.

Quando se pergunta a um morador de Búzios onde fica o Rio Trapiche, obtém-se como resposta que é desconhecido ou ele desemboca perto do Canal de Itajuru ou em outro lugar qualquer. Não fossem os registros escritos em anos pretéritos, ninguém mais saberia que, nas costas de Búzios, desembocava um pequeno rio com este nome.

No imprescindível relatório “Saneamento da Baixada Fluminense” (Rio de Janeiro, Ministério da Viação e Obras Públicas, 1934), seu autor, Hildebrando de Araujo Góes, engenheiro chefe da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, escreve que “Após o rio S. João, a costa é baixa, alagadiça e arenosa. Nesse trecho, notam-se, ao sul, apenas, as embocaduras dos rios Una e Trapiche.” (p. 64). À página 149, o autor é lacônico: “Rio Trapiche. – Nasce em Campos Novos, correndo a SE do Estado. Depois de curso aproximado de 20 Km., lança suas águas no Oceano, cerca de 4 quilômetros ao sul da foz do Una.”

Nas minhas pesquisas, andei cerca de quatro quilômetros ao sul da foz do Rio Una e encontrei a… Marina de Búzios. Ninguém sabe ou quer informar, mas tudo indica que o estuário do Rio Trapiche foi alargado, aprofundado e retilinizado para a entrada e a saída de embarcações de médio calado e para a construção de mansões em suas margens. O desenho geográfico da marina mudou completamente a geografia do rio entre a desembocadura e a estrada de acesso a Búzios, como se pode verificar nas imagens abaixo.

Visão geral da Marina de Búzios, antigo estuário do Rio Trapiche, no sentido foz-estrada. Foto do autor.

Acima da estrada (à montante), ainda é possível encontrar vestígios do Rio Trapiche, já muito estropiado e com água aparente apenas durante o período de chuva. Tais vestígios ficaram como prova de sua existência para um investigador em Ecohistória.

O que restou do Rio Trapiche, acima da estrada de acesso a Búzios. Foto do autor.

Se a foz do Trapiche situava-se na costa, com suas águas entrando diretamente no mar, havia a mistura de água doce com água salgada, originando água salobra, ambiente ideal para o desenvolvimento de um manguezal. Ao se percorrer o trecho entre o mar e a estrada, ele não é mais encontrado. As margens são muito íngremes para a recolonização do estuário por plantas exclusivas de manguezal. Contudo, procurando bem, é possível deparar com indícios da tentativa de reação do manguezal nos lugares mais baixos. Junto à estrada, algumas sementes de mangue tentam se enraizar. Foi avistado, inclusive, um pé de mangue branco (Laguncularia racemosa) neste ponto.

As marés altas chegam ao talude da estrada, mas não conseguem alcançar os remanescentes do Rio Trapiche porque o desnível entre o canal da marina e o leito do rio é muito grande. A água doce passa por baixo da estrada por meio de um tubulão, mas a água do mar não consegue o mesmo em sentido contrário. Não havendo água salobra atrás da estrada, impossível a colonização do que sobrou do rio por sementes de mangue.

Outro indício de que o manguezal tenta se regenerar é a presença dos caranguejos chama-maré (Uca sp.) e guaiamum (Cardisoma guanhumi). Não há mais ambiente para o caranguejo uçá (Ucides cordatus), que vive na lama inundada pelas marés.

 Tocas do pequeno caranguejo chama maré no canal da Marina de Búzios. Foto do autor.

Em síntese, de todos os manguezais encontrados na Região dos Lagos, o do Rio Trapiche foi o mais agredido pela ação humana coletiva. A transformação que ele sofreu beneficiou alguns poucos endinheirados.

 

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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