Manguezais de Búzios – Praia Gorda

Manguezais de Búzios - Praia Gorda
Manguezais de Búzios - Praia Gorda

Manguezais de Búzios - Praia GordaPor do sol na Praia Gorda em Búzios (Foto de Mauro Acerola)

Entre a foz do Rio Una e o núcleo urbano de Búzios, dois locais permitiram a formação de manguezais: a Praia Gorda e o Rio do Trapiche. Na primeira, formou-se um manguezal de franja bastante singular. No segundo, a construção da Marina de Búzios erradicou o manguezal em cujo estuário existia.

A Praia Gorda é excepcional sob vários aspectos. Do ponto de vista geológico, existe ali uma falha tectônica de importância geológica impar. Trata-se da Falha do Pai Vitório. Como salienta a geóloga Kátia Mansur, este ambiente é importante por vários motivos, dentre eles: 1- trata-se de uma das falhas mais didáticas que se conhece, havendo, inclusive, uma proposta de metodologia para a descrição de rochas formadas em ambiente de falha, pois ela é um modelo para a ciência e o ensino; 2- sua singular feição geomorfológica é conferida por uma linha perfeita que se estende até a escarpa da Ilha Feia; 3- esta falha mostra quatro movimentos, talvez resultado de quatro terremotos, que colocam rochas com dois bilhões de anos ao lado da Formação Barreiras, com idade entre 20 e 2 milhões de anos, ou seja, uma impressionante lacuna de tempo; 4- a falha produziu leques aluviais revelando que o nível do mar esteve bem mais baixo na época de sua formação e que deviam existir rios encachoeirados em suas imediações; 5- a permeabilidade e a porosidade da elevação atrás da praia, permitindo grande infiltração e transmissão de água, descarregada na base da colina, uma falésia antiga (informação pessoal da geóloga ao autor).

Sobre a areia da Praia Gorda, a natureza amontoou fragmentos de pedra e cascalho, o que levou a população local a denominar a vegetação que a recobre de mangue de pedra. À primeira vista, o manguezal que ali se formou pode ser classificado como do tipo franja. De acordo com Gilberto Cintrón e Yara Schaeffer-Novelli, dois especialistas em manguezal, o tipo franja se desenvolve em costas protegidas de fortes movimentos marinhos ou sobre escolhos, sem uma fonte de água doce em sua retaguarda. Pelo menos uma vez diariamente, ele é lavado pela maré alta, que tanto lança na praia sementes de mangue como transporta para o mar o alimento produzido pela fragmentação das folhas de plantas. Os manguezais de franja costumam ser formados por uma só espécie de mangue na borda, de preferência o mangue vermelho (Rhizophora). Esta espécie adapta-se melhor a tal ambiente porque sua semente grande e pesada facilita o enraizamento. Além do mais, as ramificações do caule favorecem o assentamento da planta sobre sedimentos instáveis e ajudam-na a enfrentar melhor o impacto das marés. Na parte interna do bosque, o mangue preto (Avicennia) substitui o mangue vermelho (Introducción a la ecología del manglar. Montevideo: Oficina Regional de Ciencia y Tecnología de la Unesco para América Latina y el Caribe, 1983).

A grande singularidade do Mangue de Pedra se deve a dois traços. Primeiramente, a água de chuva que cai no topo da elevação é concentrada pela mata nativa que o recobre, infiltra-se no solo, acumula-se em seu interior e verte em sua base. Assim, esta colina funciona como um reservatório de água doce que, ao ser liberada no sopé, mistura-se com a água salgada do mar e produz água salobra, a ideal para um manguezal. Em outras palavras, a água doce vertida na falda da falésia se assemelha a um rio difuso. Estudos mais acurados devem ser feitos para medir o volume de água doce acumulada, o regime hídrico e a vazão.

Figura 1: Manguezal da Praia Gorda. 1- Vertedouro de água acumulada no tabuleiro entre dois exemplares de Avicennia schaueriana; 2- Topo do tabuleiro; 3- manguezal de franja. Fonte: Google Earth.
O segundo traço consiste na ausência do mangue vermelho (Rhizophora mangle) neste manguezal, como era de se esperar, levando-se em conta trabalhos de especialistas. Bem perto dele, existe fonte produtora de sementes (propágalos) desta espécie. Trata-se do manguezal do Rio Una. A explicação mais plausível para não se encontrar o mangue vermelho é justamente o tamanho de suas sementes. Como a praia é recoberta por pedras, a semente desta espécie é transportada pelas marés, não encontra frincha larga entre os recifes para se fixar e é arrastada novamente pelas marés. Assim, só os propágalos de mangue branco (Laguncularia racemosa) e de mangue preto (Avicennia schaueriana) se desenvolvem no substrato da praia, pois são pequenos.

Este peculiar manguezal merece estudos quanto ao porte de suas árvores, em geral alto, e à produção primária.

Aspecto do bosque do Mangue de Pedra, formado por mangue branco e preto. Foto do autor.

Apesar de sua raridade, este manguezal está ameaçado pela expansão urbana. O topo da colina que lhe fornece água doce é cobiçado para a construção de empreendimentos imobiliários de luxo. Diante dessa pressão, a Prefeitura de Búzios pretende preservar o manguezal, a área à sua retaguarda e a zona marinha, à sua frente, por um Monumento Natural, Unidade de Conservação de Proteção Integral. A geóloga Kátia Leite Mansur e o autor deste artigo redigiram pareceres sobre a importância do Mangue de Pedra a fim de subsidiar a argumentação em prol da criação de um Monumento Natural.

Aspecto do substrato areno-pedregoso da Praia Gorda, podendo-se notar as raízes respiratórias (pneumatóforos) do mangue branco e preto. Foto do autor.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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