Manguezais de Búzios: Ponta da Sapata

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Examinando um mapa de Búzios, temos logo nossa atenção voltada para um promontório todo recortado que dá origem a muitas, pequenas e belas praias. Desde os primórdios da colonização portuguesa do Brasil, a beleza de Búzios encantou os europeus. Ainda olhando o mapa, vemos que a mais longa praia de Búzios fica ao norte do promontório. Trata-se da Praia de Manguinhos, que, entre as Pontas do Pai Vitório e da Sapata, descreve uma grande e suave curva, formando uma enseada.

manguezal pontadasapataManguezal da Ponta da Sapata. Foto do autor. googlemanguinhosPraia de Manguinhos, limitada pelas Pontas do Pai Vitório e da Sapata. Fonte: Google Earth, agosto de 2012.

Esta praia é protegida da forte energia oceânica (ondas, correntes e marés), que ocorrem no setor sul do promontório, com suas pequenas e agrestes praias. Este ambiente relativamente calmo é uma das condições para o desenvolvimento de manguezais de franja ou de borda, aquele tipo fisiográfico de manguezal que ocorre em praias e ilhas sem a necessidade de um aporte de água doce na sua retaguarda. Não sem razão, o manguezal do Rio Una tende a seguir pela costa depois de sua foz, em direção ao sul, conquanto a influência da água doce ainda se faça sentir dentro do mar. Não sem motivo, encontramos dois majestosos pés de mangue preto (Avicennia schaueriana), embora recebam água doce acumulada numa falésia às suas costas por meio de um vertedouro. Assim também com o famoso Mangue de Pedra, que cresceu na Praia Gorda, na qual a areia é coberta por pedregulhos e onde também a água doce provém da falésia junto à praia, um verdadeiro reservatório de água de chuva que escoa lentamente na base da colina.

Ultrapassando a marina de Búzios, construída na foz do Rio Trapiche, e o manguezal da Barrinha, que se desenvolveu num córrego transformado em vala negra, e caminhando em direção a leste, alcançamos a Ponta da Sapata. Ela separa as praias calmas das praias violentas de Búzios. Antes da ponta, alastra-se o maior manguezal de franja de Búzios, também ele constituído por mangue preto (Avicennia schaueriana) e branco (Laguncularia racemosa). A ausência do mangue vermelho (Rhizophora mangle) na Praia Gorda e abaixo da Ponta da Sapata pode ser explicada, a título de hipótese, pela cobertura da praia por escolhos, que não abrem espaço para a semente grande desta espécie de mangue. Em consonância com observações do autor, as marés lançam na praia sementes (propágulos) de mangue vermelho, que não encontram condições de se fixar. Nas marés seguintes, elas são novamente transportadas para o mar. A praia é quase privatizada por um hotel, que delimita seu espaço com uma mureta de pedra. Apesar desta presença humana, o bosque apresenta qualidade para merecer proteção especial por meio de uma Unidade de Conservação.

pes de mangue adultosDois exemplares de mangue preto entre o Rio Una e o Manguezal de Pedra. Foto do autor. muretanasapataMureta separando a área do hotel da Praia da Ponta da Sapata. Foto do autor.

A geóloga Katia Leite Mansur esclarece que, “Na ponta da Sapata, há rochas formadas no fundo do oceano que existiu antes do Atlântico […] Em Manguinhos, há a mesma associação [do manguezal] com o Barreiras [sem a falha]”, como acontece na Ponta do Pai Vitório.” (Comunicação pessoal ao autor, 2010). Assim, mais uma vez, a salinidade da água do mar é atenuada pela água doce da chuva acumulada na colina à sua retaguarda, que funciona como uma cisterna.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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