Manguezais de Búzios – Córrego de Barrinha

Manguezais de Búzios – Córrego de Barrinha
Manguezais de Búzios – Córrego de Barrinha

Manguezais de Búzios – Córrego de BarrinhaCórrego da BarrinhaA sede do município de Búzios foi construída num promontório que se lança ao mar em paisagem de rara beleza, segundo os padrões estéticos vigentes. O cabo tem altos e baixos e recortes bastante acentuados. Sua geofisionomia se caracteriza por topos, depressões e uma infinidade de praias. Nas depressões, ainda restaram lagoas, cada vez mais acossadas pelo crescimento urbano. Como o promontório é estreito, não há espaço para grandes cursos d’água. Os poucos córregos que desciam das partes mais altas em direção ao mar, se é que existiam, foram cobertos pela cidade.

Na Praia de Manguinhos, há um córrego que desemboca no mar. Ninguém sabe seu nome. Nem se sabe ao certo se é o que restou de um riacho ou uma vala negra a céu aberto. Sabe-se que, no seu curso final, o diminuto curso d’água não foi manilhado e soterrado pela cidade. No primeiro contato que tive com ele, a língua negra resultante do lançamento de esgoto era flagrante. Aliás, na condição de ecologista masoquista, circundei Búzios pelas praias, ou seja, por baixo, e encontrei bueiros lançando esgoto in natura nas originalmente belas e límpidas águas que banham o cabo. Quem caminha pelas charmosas ruas da cidade tem impressão diversa da que eu tive, diante de esgoto e lixo.

lançamento de esgotoLançamento de esgoto na Praia de Manguinhos – Foto do autor

Examinei a vala que desemboca na Praia de Manguinhos, denominada pelos locais de Barrinha, encontrei um manguezal formado por altaneiras árvores de mangue branco (“Laguncularia racemosa”) e preto (“Avicennia schaueriana”). Sinal de que o encontro da água doce, mesmo altamente poluída por esgoto, com a água salgada formava um estuário, ambiente ideal para a formação de um manguezal na zona intertropical. Apesar do esgoto e do lixo, havia evidências de que o manguezal estava ativo, com flores, sementes e filhotes, com tocas de caranguejo chama-maré (“Uca sp”.) e guaiamum (“Cardisoma guanhumi”). Havia, inclusive, redes para a captura de caranguejos junto a algumas tocas. Mas havia também uma placa prometendo obra impactante para o manguezal. As árvores estavam marcadas para morrer e várias manilhas de concreto no local levavam à conclusão de que o pequeno estirão aberto da vala seria canalizado. De fato foi. Atualmente, as manilhas de concreto desviam o curso do córrego, lançando suas águas poluídas no mar. O trecho final dele foi mantido, não contando mais com o mesmo aporte de água doce, poluída ou não.

mangue branco com florMangue branco com flor (Autor) toca de guaiamum barrinhaToca de guaiamum no córrego da Barrinha (Autor) rede de pesca barrinhaRede sobre mudas de mangue branco (Autor)

Meu lado ativista levou-me a pedir a pessoas amigas que denunciassem a ameaça ao Ministério Público, já que não resido em Búzios e nas suas vizinhanças. Parece que houve a denúncia e que providências foram tomadas em defesa do pequeno manguezal, pois, ao retornar a ele para subsidiar um artigo sobre os manguezais de Búzios (“Os manguezais de Búzios”. Boletim do Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego v. 5 n. 1, p. 11-33. Campos dos Goytacazes/RJ: Instituto Federal Fluminense, jan/jun de 2011), encontrei uma paisagem distinta da prevista.

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O manguezal havia sido poupado por um restaurante instalado em sua margem esquerda. Pelo visto, o projetista do empreendimento aproveitou a paisagem do manguezal, construindo uma passarela sobre as águas do córrego que cercam as árvores com furos nas tábuas.

Contudo, outro problema foi criado: uma pequena barreira na foz do córrego impedia a entrada de água salgada no sistema pelas marés. Ao mesmo tempo, a água doce estava represada para favorecer a pesca de turistas frequentadores ou não do restaurante. Sabe-se que a lavagem diária das marés limpa e oxigena o ambiente, mantendo as condições favoráveis para a existência do manguezal enquanto ecossistema. Além do mais, a água salgada elimina vegetais que competem com as espécies exclusivas de manguezal. A informação obtida dava conta de que a água do mar era bombeada para o interior do sistema quando se notava a falta de oxigênio dissolvido nas águas represadas.

mangue manguinhos passarelaRestaurante construiu passarela sobre o manguezal sada de esgoto manguinhosBarrgem impede circulação da água e funciona como saída de esgoto para a praia 

Tolera-se o restaurante. Tolera-se a domesticação do manguezal para fins turísticos. No entanto, não se pode tolerar a barragem que impede a circulação normal das águas do córrego e do mar. Espero voltar ao local e encontrar as condições do manguezal normalizadas.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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