Manguezais à beira de um ataque de nervos

(25 de Outubro de 2012) 

No artigo “A origem dos manguezais” , publicado no dia 8 de outubro passado, passamos em revista a origem, distribuição e características gerais dos manguezais. Trata-se agora de examinar as relações das sociedades humanas com este ecossistema. Naturalmente, o manguezal é um ambiente estressado que desenvolveu mecanismos de adaptação de modo a reduzir as tensões. Para lidar com o excesso de umidade e a escassez de oxigênio, as espécies de mangue criaram os pneumatóforos e as lenticelas, ou seja, raízes que, em vez de se dirigirem para baixo, saem do substrato lamoso como se fossem tubos de respiração de um mergulhador. O pneumatóforo corresponde ao tubo e a lenticela ao furo por onde entra o ar. Por sua vez, o mangue vermelho tem um caule ramificado, assemelhando-se a uma aranha. As lenticelas ficam nas ramificações.

Para reduzir o estresse causado pelo sal, as espécies de mangue ou barram a entrada dele ou promovem sua diluição ou o expelem por glândulas existentes em suas folhas. Estas espécies estão adaptadas a um ambiente singular formado pelo encontro da água doce de rios e lagoas com a água salgada do mar, dando origem à água salobra.

Manguezal dentro da norma (em estado normal). Foto do autor)

O manguezal é um ecossistema de considerável resiliência, isto é, com capacidade de autorregeneração. Esta capacidade, contudo, tem limites. Se o impacto sofrido ultrapassa as normas (limites) da resiliência, o ecossistema pode apresentar anomalias e mesmo morrer. Assim, tomemos o manguezal vivendo dentro das normas para as quais se adaptou e o manguezal em que estas normas mudaram parcial ou totalmente. O resultado vai desde pequenas ou grandes anomalias, no esforço de se adaptar às novas condições ambientais, até a morte. As normas podem mudar por alterações naturais do ambiente e por ação antrópica (humana). Como o autor dedica-se à história das relações das antropossociedades (sociedades humanas) com os ecossistemas, a ênfase desta pequena análise recai sobre as relações das antropossociedades com o manguezal.

1- Morte. Existem condições ideais para a existência saudável de um manguezal. G. E. Walsh aponta cinco pré-requisitos para a ocorrência de manguezais salutares: 1- temperaturas tropicais, com a média do mês mais frio acima de 20º C e uma gama de temperatura em cada estação que não exceda 5º C; 2- costas livres da ação de vagas e marés violentas; 3- presença de água salgada, espraiada pelo avanço e recuo das marés, de um lado, e de uma fonte de água doce, de outro; 4- aluvião finoparticulado, criando um substrato frouxo constituído por silte e argila fina, rico em matéria orgânica fornecida principalmente pelas plantas do manguezal; 5- larga amplitude de marés.

Entretanto, este ecossistema pode se desenvolver em ambientes sem a presença de marés, muito embora os que contam com a lavagem delas aparentem mais saúde que os manguezais situados em ecossistemas aquáticos fechados ou semifechados. É que as marés, salinizando o solo, inibem o crescimento de plantas concorrentes das espécies vegetais exclusivas de manguezal. A ausência delas costuma submeter as espécies de mangue a situações estressantes. Nem sempre, também, o substrato fino-particulado de silte e argila representa uma condição indispensável ao crescimento de plantas de mangue. Em certos lugares, elas medram em substrato arenoso e até rochoso. Deste modo, parece que apenas duas condições são imprescindíveis para a ocorrência de manguezais: as temperaturas intertropicais e a baixa energia marinha. Saliente-se, contudo, que a ausência de uma das condições já é fator de estresse para o manguezal.

Naturalmente, se o mar avança sobre o continente (transgressão) por longo tempo, o manguezal deixa de existir onde a água se torna salina, deslocando-se para os pontos em que o mar forma novos estuários com os rios, ou seja, no ponto de encontro de água doce e salgada. Se o mar recua (regressão), também por tempo prolongado, deslocando o estuário para outro ponto, o manguezal também se desloca.

Nas relações entre antropossociedades e manguezais, estes podem desaparecer caso sejam cortados para dar lugar a pastagens e a núcleos urbanos. Para tanto, é preciso ocupar o solo de forma permanente, pois a tendência do manguezal é recompor-se quando o espaço em que vivia for simplesmente abandonado após a supressão das plantas.

Manguezal morto por soterramento das raízes. Foto do autor.

2- Estresse hídrico. A maré cheia afoga as lenticelas (poros respiradores) das plantas de manguezal temporariamente. Contudo, se o afogamento se torna prolongado por algum fator natural ou por ação humana, seja por água salgada ou doce, as plantas se esforçam para sobreviver. Se não conseguem, podem morrer. Se conseguem, é necessário o deslocamento das lenticelas para ponto acima do nível d’água. Nos mangues branco e preto, a planta emite raízes acima do nível d’água. Delas, brotam raízes respiratórias. No mangue vermelho, as lenticelas sobem nas ramificações do caule para ficar fora d’água e respirar. Tudo se passa como se o nível d’água subisse demoradamente e impedisse o mergulhador de respirar. A fim de não morrer, ele deve subir também em busca do ar.

Manguezal estressado por afogamento das raízes respiratórias, emitindo raízes anômalas acima do nível d’água. Foto do autor.

3- Estresse por dulcificação da água. Caso as marés sejam total ou parcialmente impedidas de alcançar o manguezal, quer por ação da natureza ou do ser humano, a água doce pode dominar o ambiente e favorecer a penetração de espécies vegetais tolerantes a ambientes muito úmidos. Então, elas passam a competir com as plantas de mangue e, rotineiramente, ganham a competição. O manguezal pode sucumbir ou se empobrecer com a pressão das plantas aquidulcícolas (que suportam o afogamento por água doce).

4- Estresse por aumento da salinidade. O manguezal não apenas tolera o sal como precisa dele a fim de eliminar as plantas concorrentes. Mas tudo tem limite. Se, por ação da natureza ou humana, a salinidade se eleva em demasia, principalmente associada à estabilização do nível d’água, as plantas de manguezal sofrem estresse. As plantas não crescem normalmente e aparentam raquitismo porque a energia gasta em lidar com o sal é roubada da planta.

5- Estresse térmico. Se o manguezal já está sujeito a afogamento demorado e se a lâmina d’água que o afoga for delgada, o calor do sol pode elevar a temperatura além do suportável. Então, algas se proliferam no ambiente aquático as folhas das plantas ficam amareladas.

6- Estresse por óleo. É um dos piores para o manguezal. Comumente, é causado por vazamento de petróleo. O óleo despejado de barcos a motor também pode causá-lo. O óleo tapa as lenticelas, impedindo a planta de respirar. O manguezal pode morrer ou lançar raízes anômalas acima no nível atingido. No mangue vermelho, as lenticelas deslocam-se para ponto livre do óleo.

7- Estresse por ressecamento ou soterramento. Caso ocorram mudanças naturais ou humanas que provoquem o ressecamento ou o soterramento do substrato do manguezal, as plantas podem se ressentir. O resultado mais radical é a morte, mas a planta pode sobreviver em condições de estresse, não se desenvolvendo normalmente e emitindo raízes anômalas.

Como se pode concluir, o manguezal ilustra, com rapidez maior que outros ecossistemas vegetais, a inteligência não consciente das plantas, como falou Edgar Morin.

Por Arthur Soffiati
Historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

 

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