Mais um membro da grande família

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Até aqui, nossa jornada começou há sete milhões de anos, na África, e chegou aos dias de hoje. Enfatizo o “até aqui” porque os cientistas descobrem com frequência novas espécies de hominídeos, nome com o qual nós mesmos batizamos nossa grande família, assim como invalidam certos achados. O mais antigo membro dela e, até o momento, seu fundador foi o “Sahelantropus tchadensis”, que viveu na África há sete milhões de anos. O mais jovem somos nós, humanos, a quem nós mesmos denominamos com orgulho de “Homo sapiens”.

Os vinte e poucos componentes da família organizam-se em quatro grupos, em virtude de suas semelhanças anatômicas: 1- “Ardipithecus”, composta por “Sahelanthropus tchadensis”, “Orrorin tugenensis”, “Ardipithecus kadabba” e “Ardipithecus ramidus”; 2- “Australopithecus”: “Australopithecus anamensis”, “Australopithecus afarensis” (cujo esqueleto pertence a uma fêmea batizada de Lucy), “Australopithecus africanus”, “Australopithecus garhi” e “Australopithecus sediba”. Esse ramo da família parece ter dado origem ao chimpanzé e ao bonobo, nossos parentes próximos.O primeiro agressivo e o segundo erótico. 3- “Paranthropus”: “Paranthropus aethiopicus”, “Paranthropus boisei” e “Paranthropus robustus”; 4- “Homo”: “Homo habilis”, “Homo rudolfensis”, “Homo erectus”, “Homo heidelbergensis”, “Homo neandhertalensis”, “Homo floresiensis” e “Homo sapiens”. Recentemente, ossos encontrados levantaram a hipótese de subespécies do “Homo”, o “Homo sapiens idaltu” e o “Homo denisovensis”. Ainda se discute o estatuto de ambos na família.

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 Árvore genealógica dos hominídeos

Parece não haver dúvidas quanto ao “Homo naledi”, o mais recente membro. Todas as espécies de hominídeos originaram-se na África. A primeira a botar o pé fora do continente e ganhar o mundo foi o “Homo erectus”. O “H. neanderthalensis” e o “H. Sapiens” também saíram da África para a Ásia e Europa, depois para a América. Até pouco tempo, a ciência proclamava em uníssono que só o “H. sapiens” chegou ao grande continente americano. Descobertas recentes levam alguns cientistas a sustentar que a América foi alcançada por uma espécie hominídea não “sapiens”. A hipótese não conta com elementos convincentes e concludentes. Por enquanto, admite-se que o “H. floresiensis” e o “H. denisovaniano” desenvolveram-se a partir do “H. sapiens” fora da África.

Já o “Homo naledi” nasceu, viveu e morreu na África. Ele não se arriscou em territórios extra-africanos. Discutiu-se bastante quanto a sua antiguidade, mas parece que ele viveu até 200 mil anos passados, extinguindo-se juntamente com o “H. neanderthalensis”. Algo é certo até o momento: o “H. sapiens” teve contato com outras espécies. Provavelmente cruzou com elas e gerou descendência fértil. Mas supõe-se também que as outras espécies do gênero “Homo” foram extintas pela nossa, que herdou os traços agressivos dos chimpanzés. Exatamente por ter saído da África e por ter mantido relações sexuais com outras espécies, o genoma humano tem um componente de outras espécies do gênero e um componente negro. A ciência me ensina que sou mestiço. Por esta razão, não sou racista. Se existe espécie pura, ela deve ser procurada na África e não no norte da Europa.

Restos ósseos muito bem conservados de cerca de quinze indivíduos do “H. naledi” foram encontrados na África do Sul, em cavernas aparentemente inacessíveis a grandes animais. Sua estatura média era de 1,50 m., com massa corpórea em torno de 45 kg. A massa encefálica era de 560 cm3. O contraste conosco é visível. O “H. sapiens” tem uma estatura média entre 1,5 e 1,8 m., com massa média 50 a 80 Kg. Com 1, 8 m de altura e 80 kg de peso, estou na média. Só não sei se alcanço a média de massa encefálica da nossa espécie: de 1000 a 1850 cm3. A caixa craniana do “H. naledi” era pequena e comportava um cérebro com 560 cm3.
A mão é muito parecida com a nossa. O polegar, o pulso e os ossos da palma da mão são muito semelhantes aos nossos, mas os dedos são longos e curvados como garras. Parecem adaptados à escalda, como os do “Australopithecus”. O pé é como o nosso. Menor, mas como o nosso.

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 Anatomia comparada do pé humano e naledi

O popular livro “Da cabeça aos pés: história do corpo humano”, de Gavin Francis (Rio de Janeiro: Zahar, 2017) mostra que o pé dos hominídeos a partir do grupo “Australopithecus” é o elemento anatômico mais diferencial em relação aos outros animais. Entre cérebro, mão é pé, comumente optamos pelo cérebro como sendo nosso distintivo. O cérebro humano tem o mesmo aspecto do cérebro do gorila, embora mais volumoso e mais complexo. Entre a mão e o pé, costumamos ficar com a mão e o polegar opositor como exclusivo da nossa espécie. O polegar opositor da mão humana é uma adaptação não muito difícil a partir da mão de um chimpanzé, por exemplo. Mas o pé, para se tornar humano, teve de passar por uma mudança estrutural: deixar de ter um polegar quase opositor que lhe dava o aspecto e a função de mão para que todos os dedos se alinhassem, juntamente com a curvatura da planta, e se adaptassem à marcha. Gavin sublinha “que a estrutura anatômica do pé nos revela algo essencial sobre a humanidade, sobre como nossos ancestrais saíram das florestas como símios e andaram rumo ao que somos modernamente.”

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Anatomia comparada do pé do bonobo e do homem

O pé do “H. naledi” é moderno e destinado à marcha. No entanto, outros traços anatômicos dele parecem primitivos e distantes do sapiens. Supõe-se que enterravam seus mortos em câmaras mortuárias e dominavam o fogo. Se confirmadas a arte de produzir fogo e práticas de sepultamento, ele já vivia em ambiente de cultura.
Mas minha admiração pelo “Homo naledi” se deve ao fato de ele ter se recusado inconscientemente a ser violento, individualista e corrutível. Não sou dos que consideram o homem como intrinsecamente violento, corrupto e individualista. Entendo que ele tem aptidões para se tornar isso tudo se a sociedade em que vive o estimular. Mas uma sociedade também pode estimular virtudes. Outro motivo da admiração que nutro pelo “H. naledi”: não ter saído da África. Quero crer que ele se recusou a ganhar outros continentes e desenvolver a inteligência, como nós, para não causar os estragos que causamos em nós mesmos, nos outros e no ambiente. Bem vindo à família, naledi.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador

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