Lula nos enganou e nos dividiu

O Lula de hoje é o Lula de sempre que se destacou como habilidoso negociador de conflitos, que nunca deixou de expressar seu menosprezo pelas “elites dominantes”, guiado pelo entendimento simplista e até mesmo simplório do confronto entre capital e trabalho que, neste País, criou a dicotomia artificial de uma “esquerda” e uma “direita” no contexto de um Estado cuja economia sempre foi a de ser 75% por este controlada. Isso mesmo depois do que parece ser um vigoroso esforço de privatização levado a cabo nos governos de FHC.

O medo de que as mudanças e conquistas alcançadas após o Plano Real fossem dizimadas vis-à-vis o discurso agressivo de Lula em favor “dos pobres e oprimidos” foi habilmente contornada pelos encontros diretos entre Lula e representantes da “desprezível elite dominante” ao longo da campanha para a presidência em 2002.

E assim o País elegeu para a presidência um “simples operário”, fato que seria louvado mundo afora como exemplo de sucesso do sistema democrático. Estávamos em janeiro de 2003.

Seis anos depois, em maio de 2009, na reunião do G20 em Londres, Barack Obama, eleito presidente dos Estados Unidos meses antes, fez questão de registrar para o mundo, em vídeo da BBC, o que Lula representaria para o mundo, “Esse é o cara”, “Esse é o político mais popular da Terra”, disse numa roda de líderes mundiais minutos antes do início do encontro. Lula estava no terceiro ano de seu segundo mandato e 2009 fecharia com uma inflação de 4,31%.

Mal sabíamos de que, passados quatro anos desde o escândalo do Mensalão – denunciado em maio de 2005 – o PT de Lula apoiado pelo PMDB e pelo PP, os principais partidos de “esquerda”, havia montado o mais ousado plano de delapidação na Nação, um mecanismo autossustentado no qual um fictício setor privado subsistia às custas do obrigatório pagamento de propina aos três partidos para conseguir os recursos do Estado na execução de projetos de todos os tipos: não poderia ser de outra forma. Afinal 75% da riqueza nacional continuava nas mãos do Estado e o setor que se apelidava de “privado” nada mais era, e é, uma extensão daquele Estado.

Fomos enganados. Na verdade, o mundo foi enganado. Como se descobriu, poder-se-ia dizer, acidentalmente, ao assumir em janeiro de 2003, Lula, diretamente, ou através seus pouquíssimos auxiliares mais próximos, como José Dirceu, impôs a condição: a existência de um setor privado passou a ser condicionada ao pagamento de pesadíssima contribuição ao Estado. Esquematicamente, 1) a Nação sustenta o Estado através o pagamento de impostos; 2) o Estado usa os impostos para sustentar um setor privado que, 3) paga ao Estado pelo privilégio, desembolsando até duas, três vezes o valor recebido para a execução de obras encomendadas pelo próprio Estado. Muito pouco do que o verdadeiro setor privado produziu contribuía para a riqueza nacional.

Nesse esquema pouquíssimo sobrou para a Nação. O “setor privado” é, na verdade, uma extensão do Estado, que se agigantou e se faz presente em todos os setores de atividade econômica.

É um esquema que “puniu” a “elite”, seguidamente repudiada por Lula: ela existiu por sua permissão e para assegurar a continuidade no Poder do partido que criou em 1985.

Mas, é um sistema insustentável por ser autofágico. A voracidade e a velocidade com que recobrou o que cedeu exauriram a Nação. Por consequência exauriu-se o Estado. Exaurido o Estado exauriu-se o “setor privado”: o pouco restante, no contexto da Nação, não consegue gerar receita suficiente para sustentar um Estado perdulário. Aumentaram-se os impostos sufocando, ainda mais, o moribundo, mas legítimo setor privado.

Num curtíssimo prazo, 2003-2016, atingimos o fundo do poço e continuamos cavando. E nos dividimos, artificialmente: de um lado os que supõem que a remoção do PT como dominante no controle do Estado, representará a oportunidade para recobrarmos a força que a Nação outrora tinha ou imaginava ter; do outro os que resistem a essa proposta.

Os próximos dias, semanas, meses, nos trarão a verdade nua e crua a ser enfrentada. Como Nação começamos a perceber que independemos do Estado: não só aumenta a sonegação de impostos como, também, a redução do poder de arrecadação do Estado. Sem recursos o “setor privado fictício” – neles estando, como exemplos, as empreiteiras envolvidas na Operação Lava-Jato e escândalos como o Petrolão e outros tantos “ãos” que hão de aflorar, e todas as pequenas e médias empresas a elas associadas -, está tendo e terá enormes dificuldades para retornar ao estágio que atingiu há pouquíssimos anos.

Com o Estado enfraquecido a Nação está só, o que seria a melhor notícia a se extrair da tragédia que a atingiu. Por isso, talvez caiba endereçar a ela advertência de Dom João VI ao seu filho Pedro: “ponha na cabeça essa coroa antes que algum aventureiro o faça”. Só há, para ela, um caminho: para cima e para frente.

Um Lula nunca mais.

Para os Lula da Silva talvez seja uma solução o que a revista Veja divulgou na sua última edição número 2471 de 30/03/2016: o exílio político na Itália. Ali teria Lula a oportunidade de confirmar o que, arrogantemente anunciou após seu depoimento na PF, para onde foi conduzido coercitivamente em 06/04/2016: depois de Bill Clinton seria o mais bem pago conferencista do mundo. Enquanto Clinton cobra alegados US$250 mil por palestra, Lula informou que recebe US$200 mil, a diferença sendo a de que enquanto Clinton recebe tal valor de universidades e grupos de empresários mundo afora, Lula era pago, exclusivamente pelas empreiteiras envolvidas no escândalo do Petrolão, a maioria das palestras realizadas no Brasil, mas não se sabendo onde e quando foram proferidas.

Que se vá Lula, mais perdido do que cego em tiroteio.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
27/03/2016

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