Luiz Fernando Veríssimo fala com exclusividade à Revista Cidade

Escritor fala com exclusividade à revista Cidade
Luiz Fernando Veríssimo (Tatiana Grynberg)

Escritor fala com exclusividade à revista CidadeLuiz Fernando Veríssimo (Tatiana Grynberg)Luis Fernando Veríssimo tem fama de ser lacônico nas entrevistas que concede, mas à Cidade ele falou com generosidade. De passagem por Cabo Frio, Veríssimo concedeu entrevista exclusiva ao jornalista Octávio Perelló. O escritor pediu para dispensar o tratamento de senhor e discorreu sobre literatura, política, a obra de seu pai, o escritor Erico Veríssimo, e também sobre a idéia de se promover uma festa literária na cidade. Doublé de jornalista e escritor – além de ser saxofonista nas horas vagas –, ele considera Moacyr Scliar e Rubem Fonseca os maiores escritores brasileiros da atualidade e ressuscita o seu Analista de Bagé em depoimento inusitado sobre o presidente Lula.

O senhor criou fama de homem de pouca conversa durante entrevistas. No fundo é o escritor que prefere que os livros falem por ele?

Não me chame de senhor… (risos). Eu acho que não. Acho que é uma questão de personalidade. Eu nunca fui de falar muito, nunca gostei de falar, sempre tive certa timidez. Eu comecei a escrever bastante tarde, não procurei as letras para me expressar, para falar o que eu não falava mesmo.

Sua atividade profissional o levou desde sempre a atuar em jornais e revistas. Você escolheu o jornalismo ou a imprensa foi o espaço que encontrou para prosar e ilustrar?
Comecei a escrever com mais de trinta anos, e foi justamente quando comecei a trabalhar em jornal que descobri que sabia escrever. Eu sempre fui um grande leitor, sempre gostei muito de ler, mas nunca tinha escrito nada. Fora umas traduções que eu fiz do inglês para o português, eu nunca tinha escrito nada. Mas quando comecei a trabalhar em jornal, depois de tentar várias coisas que não deram certo, eu descobri minha vocação, um pouco tarde (risos), mas descobri. Então, na verdade não foi uma escolha minha, quer dizer, não escolhi o jornalismo para escrever, quando eu comecei no jornalismo é que descobri que sabia escrever. Como a minha carreira, vamos dizer assim, de escritor, começou com o jornal, com o jornalismo, então eu sou jornalista. Comecei trabalhando na cozinha do jornal, fi z de tudo, fui editor de vários setores do jornal. E até hoje quando me registro num hotel eu ponho profissão jornalista.

O seu primeiro livro, O popular, reunindo textos publicados na imprensa, foi lançado em 1973, em plena ditadura militar. Como foi lidar com a censura?
Eu comecei a ter um espaço assinado no jornal em 1969, que era o auge da ditadura, a fase brava da ditadura, governo Médici, e a gente não podia escrever tudo o que queria, tinha assuntos que eram proibidos, não podia, obviamente, criticar o governo, não podia falar de militar. Então, a gente tentava de alguma maneira, nas entrelinhas, fazer algum comentário sobre o que estava acontecendo na época, mas era uma coisa bastante limitada. Em Porto Alegre não tinha tanta censura, ostensiva, de censores dentro da redação, como tinha em São Paulo, por exemplo, e aqui no Rio também. Mas os jornais faziam uma espécie de auto-censura, porque a gente sabia mais ou menos os limites, até certos nomes não podiam ser citados. Brizola, por exemplo, ninguém podia falar. D. Elder Câmara, por incrível que pareça, era proibido de ser citado também (risos).

Marighela nem pensar? (Carlos Marighela, líder da Ação Libertadora Nacional, morto durante emboscada em 1969).
Não, esse aí! Na verdade, Marighela, na época, pelo menos eu nem sabia da existência do Marighela. Porque era uma coisa que não era noticiada, a guerrilha. Era tudo clandestino e a gente acabava não sabendo muita coisa. Sabia dos amigos que acabavam sendo presos, ou tinham que se exilar e tal, mas fora isso a gente tinha pouca informação do que estava acontecendo. Mas tinha essa realidade da censura. A gente tinha que se ver com a censura.

Em 1981 o seu livro O Analista de Bagé teve edição esgotada em dois dias, iniciando a consagração do personagem. Qual foi a sensação de conquistar o grande público, de alcançar um lastro maior de leitores?
É, até foi surpreendente isso. Eu tinha já publicado uns quatro livros de crônicas, e de repente O Analista de Bagé foi o que estourou; que teve repercussão nacional, vendeu muito bem. Apesar de ser um livro marcadamente gaúcho, não é? A figura do analista, o linguajar do analista é uma coisa que eu imaginava que nem seria compreendida fora do Rio Grande do Sul. E, no entanto, foi um livro que teve repercussão bastante grande, e a partir daí então os meus livros passaram a vender em média bastante bem. Claro que nem todos tiveram a carreira que teve O Analista, mas sempre tiveram êxito. Então foi um livro importante na minha vida, justamente por isso, porque foi o primeiro que teve mais repercussão.

Em paralelo às suas atividades literárias, o seu envolvimento com a música o acompanha desde a época em que a dificuldade de alugar um trompete nos EUA o fez estudar saxofone. Você se apaixonou pelo jazz e integra uma banda especializada neste gênero musical. Em alguma ocasião você pensou em ser músico profissional?
Na verdade, não. Eu aprendi a tocar o sax quanto eu tinha dezesseis anos, dezesseis para dezessete anos, nos Estados Unidos. Eu sempre gostei muito de jazz, desde garoto. Então, quando nós fomos com meu pai para os Estados Unidos, em 1953, eu decidi que estava indo para a terra do jazz para aprender a tocar um instrumento. Mas a minha intenção sempre foi só poder brincar de jazzista, nunca me aprofundei muito na música, nem cheguei a dominar um instrumento. O que queria fazer era brincar, brincar de jazzista, não tinha idéia de ser profi ssional da música. De certa maneira é o que eu faço até hoje, eu brinco de jazzista. Eu toco numa banda chamada Jazz 6. Aliás, já tocamos aqui em Cabo Frio mais de uma vez. Eu sempre faço questão de dizer que a banda não é minha, em primeiro lugar porque não é mesmo, é de todos, e em segundo lugar é para que as pessoas não tenham a idéia de que é uma coisa assim diletante, de músico amador. Os músicos são profissionais. Fora eu, são todos excelentes profi ssionais. E foi justamente isso que você falou, eu queria tocar trompete. Eu era grande fã do Louis Armstrong, mas quando eu procurei um curso de música lá em Washington, nos Estados Unidos, eles não tinham trompete para emprestar, então tinha o sax, foi o sax mesmo.

A liberdade de Escrever – Entrevistas sobre literatura e política é um dos livros mais importantes editados em 1999. Reunindo entrevistas de Erico Veríssimo concedidas a interlocutores como a escritora Clarisse Lispector, o livro contribui para o resgate das reais dimensões de sua vida e obra. O seu pai afirmava não ser profundo. Como você analisa esse criador de marca maior que, como poucos, vendeu livros no Brasil?
Ele e o Jorge Amado eram sempre apontados como as duas exceções. Ninguém vivia do livro no Brasil, menos esses dois, que era Jorge Amado, que tinha um público enorme, inclusive no exterior, e meu pai, que a partir de um livro que se chama Olhai os Lírios no Campo, o primeiro livro dele que teve uma venda maior, pôde viver dos livros, da literatura. Não ficou rico com a literatura, mas viveu bem, confortavelmente. O pai sempre se descrevia como um contador de histórias, justamente ele dizia que não era um escritor profundo, de grandes mergulhos psicológicos, mas era um bom contador de histórias. Mas eu acho que ele até se diminuía um pouco, porque ele era, em minha opinião, dos poucos escritores brasileiros que tinha assim uma idéia da técnica do romance. Geralmente o escritor não tem, é uma coisa mais instintiva. Meu pai não. Ele lia muito a respeito da teoria do romance, da técnica do romance, e até os primeiros livros dele, que muita gente considera uma fase mais ingênua, eles têm em matéria de narrativa, de técnica narrativa, uma coisa bastante avançada. E a grande obra dele, em minha opinião e acho que na opinião geral, é O tempo e o Vento, que é uma trilogia sobre a história do Rio Grande do Sul, um romance histórico em três partes, que continua sendo uma coisa admirável a ambição do meu pai de fazer aquele livro, ele tinha na época 40 anos, e, no entanto se lançou naquela empreitada de fazer uma trilogia sobre a história do Rio Grande do Sul, um romance histórico com uma técnica narrativa bastante avançada. Então, eu acho admirável. Quer dizer, eu não concordo com ele que dizia que era apenas um contador de histórias. Eu acho que era um escritor importante e que com o tempo me parece que a importância dele foi reconhecida, apesar da crítica achar a primeira fase da obra dele ingênua e tal, um pouco romântica demais. Com essa obra ele ter conquistado um grande público, eu acho ele bastante mais que isso, um escritor importante.

Uma das características de Erico Veríssimo revelada neste livro é desenhar personagens durante o processo de escrita. Você e sua irmã Clarissa também foram retratados durante o período em que ele escrevia O resto é silêncio. A confluência do processo literário com a convivência familiar não parecia nada conflitante para Erico Veríssimo.
É verdade. Não tinha conflito nenhum. Meu pai sempre foi um homem de família, dava muita importância à casa, ao convívio familiar e tal. E é isso, ele gostava muito de desenhar, antes de começar a escrever ele desenhava os personagens. No caso de O tempo e o vento ele fez a planta da cidade, de Santa Fé. Ele começou fazendo a planta da cidade, desenhando os personagens, e é curioso que ele trabalhava na parte de baixo da nossa casa, que ele chamava de a toca dele, onde ele se isolava para trabalhar. Mas depois, no fi m do dia ele levava o que tinha escrito para a parte de cima da casa, onde tinha uma poltrona que ele botava assim para fazer as correções e tal, e desenhava na própria tábua, com lápis de cor, e o resultado é que a gente tem várias tábuas que são verdadeiros quadros. Daquela preparação que ele fazia para escrever, as tábuas acabaram sendo obras de arte. Ele gostava de pintar, gostava de pintura.

A defesa das liberdades era motor do posicionamento político de Erico Veríssimo. Como isto te influenciou?
O pai sempre se declarou um socialista democrático. Quer dizer que ele não seguia a linha de alguns escritores daquela época, gente como Graciliano Ramos e outros que seguiam a linha comunista. Meu pai sempre disse que era socialista, mas não aceitava nenhum tipo de totalitarismo, fosse de esquerda ou de direita ele não aceitava, porque ele acreditava no socialismo, mas na liberdade, nas pessoas serem livres. E apesar de ele e Jorge Amado serem muito amigos, eles discordavam nesse ponto. Jorge Amado tentou convencê-lo a seguir o comunismo e meu pai sempre resistiu. O resultado foi que ele foi bastante incompreendido, a direita o chamava de comunista e os comunistas o chamavam de vendido ao imperialismo americano, aquelas bobagens que se diziam na época.

Qual análise O Analista de Bagé faria de Lula presidente do Brasil?
(risos) O Analista de Bagé apesar de ser um grosso, ele queria ajudar os pacientes, mesmo que fosse atirando os pacientes contra a parede, ele queria curar, não é? Então, talvez ele até compreendesse o Lula, porque o Lula também é meio grosso, não é? Talvez ele ficasse bem impressionado. (risos)

Jornalista Octávio Perelló entrevista Luiz Fernando Verísismo (Tatiana Grynberg)Nos últimos anos você tem visitado Cabo Frio com certa freqüência. Além do cumprimento de agenda profi ssional você parece ter criado laços afetivos com a cidade?
Sim, principalmente através do Gallioto (Veríssimo esteve na cidade desta vez para prestigiar o lançamento do livro do empresário e ambientalista Ernesto Gallioto, que prefaciou). Nós nos conhecemos na Copa do Mundo da Itália em 1990. É uma figura admirável o Gallioto, então nossa ligação aqui com a cidade é principalmente através dele. E temos vindo aqui, acho que essa é a quarta ou quinta vez que a gente vem. Eu vim com a banda tocar aqui duas vezes, então essa já é uma ligação afetiva com a cidade.

A Prefeitura vem tentando implantar a Festa Portuguesa, no intuito de estreitar laços quinhentistas entre Brasil e Portugal com atrações musicais, culinária e um tímido cunho literário. Você acha viável uma cidade como Cabo Frio desenvolver a sua FLIC (versão da Festa Literária Internacional de Paraty)?
Eu acho que sim. Eu acho que é uma grande idéia. Inclusive, havendo a vontade de fazer essa aproximação com Portugal, tem vários festivais em Portugal, em cidades mais ou menos parecidas com Cabo Frio, como Póvoa de Varzim, por exemplo, que tem encontros literários todos os anos, e é uma cidade do tamanho ou talvez menor até do que Cabo Frio. Só aí já podia haver uma ligação, não é? Acho uma ótima idéia, uma grande idéia haver uma festa literária aqui!

O que lê o músico Luis Fernando Veríssimo e o que ouve o escritor Luiz Fernando Veríssimo?
Olha (risos), infelizmente o músico tem lido muito pouco por prazer. A gente acaba lendo muito jornal, revista e livros para se informar sobre história e tudo mais, mas acaba lendo pouco por prazer. Eu infelizmente tenho lido muito pouco. Ficção, por exemplo, a nova fi cção brasileira eu conheço muito pouco. E o escritor sempre gostou muito de ouvir jazz, mas gosto de tudo, música popular brasileira também, música erudita. Eu já estou um pouco desatualizado, antigamente eu sabia tudo sobre jazz, eu conhecia todos os músicos e tal. Hoje eu estou meio desatualizado, eu sempre digo que eu só confi o em músico de jazz que está morto há pelo menos cinco anos (risos). Mas é isso, infelizmente eu tenho lido pouco. Por prazer eu tenho lido pouco.

Gosta da obra de Moacyr Scliar e de Rubem Fonseca?
Em minha opinião, atualmente são os maiores escritores brasileiros. E o Moacyr é um grande amigo. Ele criou o Movimento dos Sem Netos, mas eu tive que me fazer dissidente ao me tornar avô.

A literatura sempre esteve no cinema, assim como no teatro. A televisão tem na adaptação de obras literárias o tutano do osso. Mas os livros? Após resistir à gula das traças, à ação do tempo e à reação de seus próprios agentes químicos, você acha que os livros sobreviverão como as baratas?
Eu espero que sim! (risos). Porque a gente tem uma ligação com o livro, a gente que se criou gostando de ler, tem quase que uma ligação sensual com o livro, não é? De segurar um volume, o cheiro do livro, do papel, isso eu acho que vai desaparecer, infelizmente vai desaparecer. Mas o texto em si vai continuar existindo, pois o texto é o começo de tudo, como você falou. O cinema, a televisão e o teatro começam com o texto, seja no papel ou eventualmente na tela do computador. Então, eu acho que enquanto não inventarem um computador que escreva também, que ele seja o autor, vai continuar existindo a literatura, a criação literária, mesmo que não seja mais o mesmo veículo. É claro que a gente vai lamentar, eu certamente vou lamentar se o livro desaparecer, perdendo o sentido frente a uma invenção eletrônica, mas eu acho inevitável que isso aconteça. De preferência, não na minha vida! (risos). Não para a nossa geração, certamente para as gerações que virão acho que vai ser outra coisa, outro veículo, mas o texto vai continuar existindo.

(Entrevista concedida ao jornalista Octavio Perelló publicada na edição nº 27 da Revista CIDADE. Fotos de Tatyana Grynberg)

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