Lagoa de Iriri

Lagoa de Iriri

Entre os Rios Itapemirim, no sul do Espírito Santo, e Una, na Região dos Lagos, existe uma profusão de lagoas costeiras. Elas podem ser agrupadas em dois conjuntos gerais que se dividem em mais quando examinadas em suas minúcias. O primeiro conjunto é formado por lagoas perpendiculares ou semiperpendiculares à costa, como as lagoas Funda, Encantada, D’Anta, do Siri, Lagoinha, das Pitas, dos Cações, do Mangue, Caculucage, dos Quarteis, Tiririca, Boa Vista, Espiador e Marobá, no sul do Espírito Santo. Salgada, Doce, Guriri, Tatagiba-Açu, Tatagiba Mirim, Barrinha, Manguinhos, Gruçaí, Iquipari, Açu, Preta, Paulista, Carapebus, Comprida, Jurubatiba e Imboacica. Tudo leva a crer que elas foram antigos córregos que mantinham suas barras permanente ou temporariamente abertas. Em muitas delas, existem manguezais enclausurados, sugerindo que, no passado, elas eram cursos d’água ligadas ao mar. Pelo menos, essa ligação deveria ser periódica.

O segundo conjunto é constituído por lagoas paralelas à costa, como as do Campelo, do Comércio, do Meio, da Praia, do Taí, Salgada, da Ribeira, da Chica, Carvão, Campelo, Canema, Carrilho, Ubatuba, Casa Velha, Barrinha, Pires, Visgueiro, Robalo, Maria Menina, Piri-Piri, Garça, Bezerra. Essas lagoas têm formação geológica relativamente recente, bem mais novas que as lagoas perpendiculares. Elas se formaram por correntes marinhas e por ondas.

As Lagoas de Itapebussus e Iriri se enquadram na primeira categoria: lagoas perpendiculares à costa. Observando bem, notaremos sua feição fisiográfica de curso d’água com foz barrada por cordões arenosos.

Lagoa de IririTraçado do antigo Córrego de Iriri. Imagem Google Earth, trabalhada pelo autor Lagoa de ItapebussusPerímetro aproximado do que restou do Córrego (hoje lagoa) de Itapebussus. Imagem Google Earth, trabalhada pelo autor

Pela imagem de satélite acima, pode-se perceber que a Lagoa de Iriri, assinalada em azul, foi cercada e invadida pela cidade de Rio das Ostras, muito adensada depois das instalações da Petrobras em Macaé no fim dos anos de 1970. Sua nascente não pode mais ser identificada com clareza do alto. Seu leito foi impiedosamente secionado pela RJ-106 (Rodovia Amaral Peixoto), por ruas, bairros e até casas. Junto à foz, quando o curso d’água se fechou natural ou artificialmente, permanente ou periodicamente, um braço se formou à esquerda. Uma hipótese é que a extensão à esquerda seja um antigo afluente do curso principal. A ausência de qualquer vestígio de manguezal indica que a barra se fechou há bastante tempo, eliminando o estuário (segmento do curso em que a água doce mistura-se à água salina e gera água salobra, adequada para as plantes exclusivas de manguezal).

A Lagoa de Itapebussus apresenta claros indícios de também ter sido um córrego com foz permanente ou periodicamente aberta para o mar. Ela teve menos azar que a de Iriri, pois a cidade de Rio das Ostras deteve-se, por enquanto na sua margem direita. Mesmo assim, sua nascente e um afluente na margem direita foram engolidas pela cidade.

Ao norte da Lagoa de Itapebussus, existe outro sistema hídrico menos degradado que as duas lagoas abaixo. Não sei o seu nome nem mesmo sei se ele existe. Uma estrada de terra corta a sua parte superior, enquanto remanescentes de antigas florestas protegem parte de suas margens, mais na margem esquerda que direita.

Lagoa em ROLagoa sem nome ao norte da Lagoa de Itapebussus. Imagem Google Earth trabalhada pelo autor Mar do NorteEmpreendimento imobiliário entre Mar do Norte e Macaé. Imagem Google Earth

Tardiamente, a prefeitura de Rio das Ostras criou uma Área de Proteção Ambiental para a Lagoa de Iriri, e uma Área de Relevante Interesse Ecológico para a Lagoa de Itapebussus. Poucas pessoas sabem que duas unidades de conservação foram instituídas para proteger essas lagoas e seu entorno. Ambas têm se mostrado insuficientes para assegurar a proteção de fragmentos de lagoas e de matas. Cumpre agora proteger a área que se estende entre Itapebussus e Mar do Norte. Logo acima desta localidade, um grande empreendimento imobiliário já inviabilizou a área para qualquer tipo de proteção. Restou um fragmento de mata, mas hoje os empreendimentos imobiliários privatizam a natureza para seus moradores. Ela valoriza o condomínio.

Os antigos córregos, hoje transformados em lagoas, perderam a competência de abrir a barra permanente ou periodicamente. Só com as chuvas extraordinárias ou com ação mecânica do homem, elas se rompem. Foi o que aconteceu com a Lagoa de Iriri recentemente. As águas se avolumaram com as chuvas e rasgaram a barra, fluindo para o mar. Grande volume de água escura verteu para o oceano. A cor se deve à matéria orgânica vegetal decomposta ou ao esgoto. Esperemos que seja produto da matéria vegetal. Essa cor e que levou ao terrível nome de Lagoa Coca-Cola.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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