Jogando água fora

Por Arthur Soffiati (*)

O calor do Sol evapora as águas dos rios, lagos e mares, além do suor das plantas e dos bichos, nós entre eles. A transformação da água líquida em vapor origina as nuvens, que se condensam com o resfriamento e se precipitam na forma de chuva sobre os continentes e sobre os oceanos. As que caem nos continentes ficam retidas nas folhas das plantas, escorrem pela superfície terrestre até encontrarem depressões, como rios e lagos, ou se infiltram no solo, depositando-se nos lençóis subterrâneos. Temos, assim, o ciclo da água.

Sucede que os sistemas econômicos implantados com a revolução industrial, em fins do século XVIII, estão alterando drasticamente este ciclo, de forma a tornar a água um elemento comprometido na natureza e um recurso ameaçado. A drenagem de lagos e brejos, a retilinização de cursos d’água, as barragens interrompendo a comunicação de ecossistemas aquáticos continentais com suas áreas de cheia e a supressão das formações vegetais nativas eliminam dispositivos apropriados para reter água doce nos continentes. Com o desaparecimento deles, as águas das chuvas não encontram protetores de solo e produzem erosão, carreando sedimentos para os pontos mais baixos do terreno. Ali, uma parte deles fica suspensa na água, causando turbidez, e a outra assenta no leito, provocando sua elevação ou assoreamento. Com os rios retilinizados e com a destruição de várzeas e lagoas, a água corre rapidamente para o mar, onde é salinizada e se torna imprestável para o consumo da maioria dos seres vivos terrestres. Nenhum processo de dessalinização é mais eficiente e mais barato que a evaporação promovida pelo sol.

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Mesmo assim, uma parte da água caída nos continentes permanece neles. Estas, porém, estão sendo implacavelmente contaminadas pelos resíduos lançados por residências, empresas agropecuárias, industriais e comerciais e unidades geradoras de energia. Não que a água esteja acabando no Planeta. O que está acabando é a água potável, adequada para irrigar plantas e para atender a necessidades de animais e dos seres humanos.

A reversão deste processo apresenta altos custos. Dessalinizar e despoluir água implicam em recursos vultosos. Não basta também limpar a água para transformá-la em mercadoria. Cumpre, antes de tudo, restaurar os ecossistemas aquáticos continentais para restabelecer o equilíbrio ecológico do Planeta.

Escrevi as palavras acima em 2003 como reserva de artigo na Folha da Manhã, 11 anos, portanto, antes da crise hídrica que vem afetando a Região Sudeste do Brasil em 2014-2015. Elas simplesmente descrevem o ciclo da água. Não é preciso ser cientista para percebê-lo. Mas a civilização ocidental, após a revolução industrial do século XVIII, produziu uma cultura de tal forma individualista e imediatista que nos levou a esquecer ou a menosprezar conhecimentos simples valorizado por todos os povos considerados primitivos e atrasados. 

Agora, com o lançamento progressivo de gases causadores do aquecimento global, com a destruição governamental e particular da Amazônia e de outros biomas vegetais, com o desmatamento das bacias da Região Sudeste, estamos colhendo frutos amargos que afetam a própria economia que provocou a crise hídrica. E posso garantir que todo Comitê de Bacia que representa uma área atingida pela crise está buscando para ela soluções individualistas em termo de bacia e imediatistas, como nos ensina a Pátria Educadora que ambiciona formar pessoas para o mercado de trabalho e não cidadãos comprometidos com o social e com o ambiental.

(*) Arthur Sofiatti é pesquisador e historiador ambiental 

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