Ficou chato falar de Cabo Frio

Ficou porque só se pode falar de propostas, ideias e ações imbecis, mesquinharias, adminstrações desastrosas, incongruências ou que são consequências de atos praticados por pessoas que agem de modo incongruente. Das demais coisas é-se forçado a confessar que estão mortas, coisas que vimos morrer e, portanto, a lembrança que delas temos e falamos não podemos incluir na categoria do sentimento que se chamaria de saudosismo. Saudosismo se refere às coisas das quais sentimos falta, ou saudade, mas sem angústia, raiva e desprezo pelos e dos que as tiraram de nós. Saudosismo se refere às coisas que eram boas e foram substituídas por outras, melhores, o que, portanto, torna muito agradável lembrá-las e aceitar as que as substituíram.

No caso de Cabo Frio, para amigos, conhecidos, os ocasionais visitantes e, principalmente para nossos filhos e netos, das coisas que sentimos falta falamos angustiados. E das coisas presentes, também. É isso que fez com que se tornasse chato falar de Cabo Frio.

A angústia e a raiva têm origem na percepção de que a Cabo Frio de hoje resultou da efetivação de um plano de governo proposto pelo atual prefeito, Sr. Alair Correa, quando declarou na sua campanha de 1996 que pretendia, junto com seu grupo de colaboradores, permanecer no poder pelos próximos vinte anos. O período 2005-2012, quando Marcos Mendes foi prefeito, dilui-se e se adere ao período 1997-2016 onde prevaleceu a hegemonia do grupo de Alair Corrêa. Teria sido, aquele período de oito anos, um “acidente de percurso”.

É impossível assimilar a realidade de que as incongruências que vieram a se impor tenham sido planejadas. Mas foram. As ações foram deliberadamente executadas.

No início deste ano de 2016 começa-se a perceber a fracasso do Sr. Alair Corrêa como administrador. A verdade é que a execução de seu projeto de vinte anos dependia da possibilidade de pagar despesas permanentes usando uma renda variável, que é o caso de qualquer Poder Executivo, em qualquer lugar. Essa lógica tem, em si, um componente que a invalida: o número de contribuintes que sonegam impostos pode aumentar, a renda oriunda de tributos é, apenas, estimada.

No caso de Cabo Frio todas as rendas que financiam as ações da prefeitura decresceram, uma realidade que já havia sido prevista no mundo inteiro quando eclodiu a crise imobiliária em 2008 nos Estados Unidos. Em se tratando do caso específico dos royalties do petróleo, crítico para Cabo Frio, naquele ano já havia a previsão de que o preço do barril do petróleo poderia cair para um valor abaixo de US$30 em decorrência de uma provável desagregação da OPEP com um resultante aumento de produção em países-membros, apesar de haver uma oferta excessiva no mercado internacional. De fato, aquela previsão está sendo confirmada: alguns países estão aumentando a produção e reduzindo o valor do barril que poderia atingir US20 a US$25 até o final do corrente ano.

O prefeito Alair Corrêa teria tido sucesso e mantido sua popularidade enquanto pode pretender ignorar a realidade fora do mundinho que idealizou. Essa postura, que seria na verdade uma impostura, tornou-se insustentável no início do ano. Mas, incapaz de admitir seu fracasso como administrador, transferiu a responsabilidade pelo atual debacle para todos os seus subordinados. Sua declaração numa entrevista é de pasmar. Disse ele, resumidamente: os secretários municipais estavam desmotivados, daí a razão para substituí-los. Essa conclusão é mesma do professor que expulsa os alunos de sua classe por ter verificado que não estão motivados. É incapaz de admitir que cabe a ele motivá-los.

O futuro de Cabo Frio será de um somatório de incongruências. Entre elas a anunciada economia que a prefeitura fará na sua folha de pagamento. Afirmou Alair Corrêa que será de entre R$500 mil e R$700 mil a redução com a exoneração de todos os secretários municipais, e seus auxiliares, que serão substituídos por uma equipe reduzida. Portanto, aparentando orgulho e determinação, o prefeito não percebe que nos últimos onze meses de sua administração economizará, aproximadamente, R$6 milhões, uma quantia ridícula vis-à-vis a totalidade dos recursos financeiros que o município necessitará nos próximos onze meses. Com R$6 milhões adquirem-se dois apartamentos de frente para o mar na Praia do Forte! Essa é a extensão da percepção que o prefeito Alair Corrêa tem do município de administra. É uma percepção distorcida, mas que retrata, com fidelidade, a verdadeira personalidade de quem por tanto tempo teria ludibriado a população de Cabo Frio.

Ficou chato falar de Cabo Frio. Chato porque retrocedeu. Implodiu.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
13/01/2016

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