Fenômenos climáticos extremos: do local ao global passando pelo intermediário

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Válido por seis meses, a “Folha de São Paulo” fez um levantamento junto ao Ministério da Integração Nacional e concluiu que 23% das cidades (eu diria municípios) do Brasil declararam estado de emergência. Aumentou o número de municípios assolados por enchentes (antigamente, eram cheias) e o de municípios atingidos por secas (no passado, eram estiagens).

Além desses dois fenômenos climáticos, há ainda municípios atingidos por erosão costeira e fluvial, corridas de massa (até pouco tempo atrás, era deslizamento, logo substituído por escorregamento), tornados, vendavais ou granizo. Existem ainda município que enfrentam outros problemas não especificados. Pelo mapa anexo, pode-se aquilatar a dimensão de cada fenômeno.

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Como era de se esperar, as enchentes mais intensas ocorrem na Amazônia, alcançando Mato Grosso. Outro polo com ocorrência de muitas chuvas é a Região Sul, com concentração no Rio Grande do Sul. Já as secas concentram-se no Nordeste, avançando pelo norte de Minas Gerais.

Até aqui, parece que não se passou da invenção da roda, pois a floresta amazônica atrai água evaporada do mar e a precipita em chuvas. Estas evaporam novamente e descem por corredores – os rios aéreos – para o Sudeste e Sul, contemplando com chuvas as porções territoriais aquém dos Andes de países do Cone Sul. Por outro lado, o Nordeste, desde que é Nordeste, é uma região árida e semiárida do Brasil.

No entanto, a roda inventada nas sociedades neolíticas, nos últimos dez mil anos (leia-se Holoceno, em termos geológicos), foi sendo aprimorada aos poucos. Da roda do carro de boi, que as pessoas estão conhecendo apenas pela televisão e pelo cinema, chegamos à roda revestida por pneu. Este, por sua vez, era fabricado com borracha vegetal. Agora, é feito com borracha a partir do petróleo.

Aplicando tal princípio ao Brasil e ao mundo, verificaremos que a humanidade se acercados oito bilhões de habitantes. As desigualdades sociais são excruciantes e nunca antes vistas. Pobres, remediados e ricos agem segundo as regras desregradas do capitalismo, que tende a transformar tudo em mercadoria. Ecossistemas vegetais nativos e plantas cultivadas são mercadorias. Animais domésticos e silvestres são mercadorias. Rios, lagos e mares não apenas fornecem mercadorias como servem de lata de lixo para as embalagens de tais mercadorias. A tão preciosa atmosfera para a vida na Terra também virou um vazadouro de gasesnocivos.

O desmatamento na Amazônia vem aumentando. Ele deverá crescer agora com o novo Código Florestal, de Aldo Rabelo, e com a desproteção da Floresta Nacional de Jimanxim e com a alteração da RENCA. O governo Temer está vendendo o Brasil e estas duas reservas estão no pacote. As chuvas torrenciais, antes absorvidas por uma floresta mais extensa e complexa, estão correndo com mais liberdade pelo solo, causando erosão, assoreamento e inundações de aglomerados humanos. Muitos deles, ergueram-se em lugares inadequados. Os que estavam protegidos no passado destruíram a mata protetora no seu entorno.

No entanto, a Amazônia luta para continuar a cumprir seu papel ecológico. A água que ele acumula é evaporada e transportada para o sul do Brasil onde colide com frentes frias vindas do Antártico e se transforma em chuva. Também no Sul, as florestas e os campos sulinos foram destruídos e ocupados por lavouras e pastagens do agronegócio e urbanizados.

Quanto ao Nordeste, sua semiaridez está se alastrando. Sua vegetação enfezada é uma das mais ricas do mundo. Ela se adaptou a condições secas, ao mesmo tempo armazenando a baixa umidade. Mesmo apresentando condições adversas, a economia de mercado se interessou por ela. Hoje, a água no Nordeste é quase monopolizada pelo agronegócio, enquanto a população pobre padece com as secas cada vez mais ingentes. A tentativa de solucionar o problema agravado pela própria economia lucrativa com a transposição das águas do rio São Francisco não deve surtir o efeito desejado e surtir o efeito indesejado, que é abater mais ainda a bacia já tão vilipendiada.

Senti falta, no levantamento, de mais detalhamento quanto à erosão costeira e fluvial. Ela aparece assinalada entre Amazonas e Acre e no sul da Bahia. Sabe-se que existem graves problemas de erosão costeira no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, na Bahia, em Pernambuco e no Ceará. Escrevo estas linhas no norte fluminense. Praias como as de Rio das Ostras, Açu, Atafona, Guaxindiba e Manguinhos padecem de erosão costeira. Tanto o mar avança sobre núcleos urbanos quanto estes avançam sobre o mar. Já os rios, quase todos os de média e grande dimensões apresentam processos erosivos decorrentes do desmatamento, principalmente.

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Erosão costeira em Rio das Ostras

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Erosão costeira em Atafona, São João da Barra

O Brasil não conhece grandes tempestades de vento, mas parece caminhar em direção a elas. A região mais afetada é o Sul. Recentemente, o Tufão Hato varreu o sul do extremo oriente e o furacão Harvey arrasa Huston. Parece que as tempestades de vento se tornam cada vez mais extremas. No caminho, encontram prédios, cimento, asfalto, lixo e impermeabilização do solo. Em Macau, antiga colônia portuguesa na China, o Hato, além de ser considerada mais violenta tempestade dos últimos cinquenta anos, levantou quase duas mil toneladas de lixo. Por sua vez, o furacão Harvey inundou Houston, que se transformou num grande rio pelo solo impermeabilizado.

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Lixo acumulado pelo Tufão Hato em Macau

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Enchente em Houston causada pelo Furacão Harvey

Para terminar, eu gostaria que se elaborasse um mapa como esse para o mundo. Creio que nos espantaríamos. Hoje, não é mais possível pensar em países isoladamente. Gostaria também de levantar uma questão repudiada por cientistas provincianos, não necessariamente aqueles que trabalham na província, mas que assumem posturas contrárias à maioria de climatologistas no mundo todo e que não têm pesquisa a respeito. Creio que a comunidade científica admite que está ocorrendo extinção de espécies vegetais e animais em todos os ecossistemas. Que os próprios ecossistemas estão sendo impiedosamente desmontados. Que rios, lagos e mares estão recebendo mais nitrogênio, fósforo e rejeitos sólidos que no passado. Que o uso do solo substitui ambientes nativos por terras cultivadas e meios urbanos.

Se o ocidente capitalista na sua fase de globalização foi capaz de desenvolver tão grande capacidade de destruição, por que não admitir, ao menos por cautela, que as condições atmosféricas estão sendo alteradas pela quantidade de gases lançada nela por nossas atividades econômicas? Por que não admitir, ao menos por hipótese, que os fenômenos climáticos extremos que estão afetando o Brasil, outros países e o planeta não decorrem de tais mudanças?

Arthur Soffiati é pesquisador e historiador ambiental

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