Éthos & Pathos

“…estudamos não para saber o que é Virtude, mas para sermos bons, já que de outra maneira não tiraríamos nenhum proveito dela.” (Aristóleles, 350 A.C).

ÉTICA (do grego éthos, “bons costumes”), segundo entendia Aristóteles, representava reflexão positiva sobre a totalidade de uma história de vida dentro de um mundo finito e ordenado, conforme os gregos entendiam o Cosmo; a VIRTUDE, a atualização das próprias potências íntimas, o pleno desabrochar dos talentos (Ética das Virtudes). A busca dessa excelência levava à felicidade. Contrapondo o conceito éthos, páthos dá origem à PAIXÃO que destrói a moralidade; a paixão cega que se opõe à razão (logos), também ligada às noções de catástrofes e sofrimento.

Aristóleles entendia a interdependência dos dois conceitos (éthos & páthos) dizendo que “as paixões são matéria para a virtude; o uso moderado das paixões torna o homem virtuoso” e conclui que a virtude confirmada nos atos vai a outros atos cada vez mais numerosos e assegurados. Para os gregos da antiguidade, atingir a ética era uma opção e não uma obrigação. Era uma meta para alcançar a felicidade evitando a paixão que traz o sofrimento. Também tinha o significado de liberdade posto ser uma escolha e por isto, a ética foi concebida como virtude que não poderia ser ensinada, mas adquirida através da prática. Entretanto para se compreender algo há o pressuposto de um saber mínimo, “nada se aprende ou se compreende a partir do nada” (Epicuro).

No decorrer do tempo o conceito abriga vários significados e a Ética da pós-modernidade carrega o significado do respeito aos valores do desejo, respeito às inclinações pessoais com respeito às inclinações dos outros (Filho, Barros). A ética se torna razão compartilhada no sentido do aperfeiçoamento da convivência, e não mais da virtude pessoal. Jesus, guia da humanidade, já havia proposto fazer ao próximo, aquilo que gostaria de receber.

O conceito de éthos aparece em Roma traduzido por “mor-morus”, significando “costume mor” de onde surge a palavra MORAL, que assume o caráter aplicativo das normas de boa convivência.

“Ética é a concepção dos princípios que eu escolho, Moral é a sua prática.” (Cortella).

Na atualidade, apesar de filosofia e ciência apresentarem desenvolvimento em diferentes áreas com maior propagação do saber, pouco contribuiu para um novo padrão moral visto que ainda optamos por modelos que apregoam o domínio e a subjugação, prevalecendo o interesse pessoal, onde a paixão (páthos) é soberana e o respeito ao interesse do outro, negligenciado.

Mudanças de padrão comportamental sempre provocam crises com resistência naturais e não ocorrem de forma linear. Para que haja a mudança é preciso uma interferência relativamente abrupta de um novo modelo que facilite a alternância de visão e da qualidade das novas condutas. Jesus é o modelo exemplar que altera significativamente o comportamento humano com sua mensagem de amor e o Consolador Prometido, o Espiritismo, uma nova investida do Mestre na revolução ética e moral do planeta.

A Doutrina Espírita é um evento que surge com capacidade de provocar mudanças de valores e de condutas, e o espírita, adepto voluntário, um agente desta mudança geral que se opera pela evolução ética e moral das partes, em exemplos no Bem, que acabam por provocar mudanças quantitativas e qualitativas ao seu meio.

Quando Kardec adentra o campo da Ética arguindo sobre a Virtude e os Vícios (Cap. III de o Livro dos Espíritos), recebe a orientação que “a mais meritória (das virtudes) é a que se assenta na mais desinteressada caridade.” (LE 893) e, que o sinal mais característico da imperfeição é o interesse pessoal (LE 895).

A verdadeira caridade é o amor em movimento, virtude que conhece, compreende e compartilha emoções com respeito ao outro; a caridade de servir é o lema da Doutrina Espírita: Fora da Caridade não há salvação!

O Professor César Soares dos Reis, notável divulgador do Espiritismo, no seu seminário sobre a Ética e o Espiritismo, fala-nos da construção da consciência ética passando por níveis gradativos de valor e comportamento:

Nível 1 – Valor: Ter. – Prevalece a dependência comportamental. Conduta: preciso que você me sirva;
Nível 2 – Valor: Ser. – A busca da independência individual. Conduta: eu me basto;
Nível 3 – Valor: Compartilhar. – A visão da interdependência entre todos. Conduta: precisamos nos ajudar
Nível 4 – Valor: Servir. – Assume o desprendimento. Conduta: sou um servidor, troco energias com que está ao meu redor.

A observação desta graduação dos níveis indica um grande caminho que a humanidade terrestre tem ainda que trilhar para chegar à consciência ética de excelência, o Servir, conforme exemplificou o Mestre Jesus, já que, em maioria, transita nos egoísticos níveis do Ter ou Ser.

Disse-nos o Professor César: “o século XXI apresenta tendências para relações mais humanistas com expansão da consciência. Ciência, Filosofia e Religião tendem a formar uma unidade de conhecimento onde haverá busca da reintegração da ciência com a consciência. Quanto mais conhecimento (ciência) maior a consciência geradora de responsabilidades”.

É preciso evoluir, sempre, e motivado pela vontade, pela faculdade de bem conduzir um evento, o homem transforma o mundo com condutas de maior alcance caritativo. Nós espíritas recebemos da Espiritualidade Superior contribuições suficientes para, utilizando dos ensinos oferecidos pela Doutrina Espírita como fonte de transformação, construir uma nova sociedade de verdadeiros cristãos que agem com desinteressada caridade, alcançando a mais meritória das virtudes.

“Nós somos modificadores, por isso somos deuses!” conclui o Professor César aclarando a afirmativa do Mestre Jesus. Acredite nisto e contribua para a transformação planetária.

Maryane Medeiros

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