Estado de negação generalizado

É possível, e até mesmo provável, que a cúpula do PT, em particular seu presidente, o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma, tenham entrado em um estado de negação dos fatos que têm sido trazidos ao conhecimento público pela Polícia Federal desde a época do escândalo do mensalão. Vale lembrar que vários parlamentares choraram com a revelação do envolvimento de figuras de destaque no PT e em partidos aliados. É inesquecível a imagem do grupo de ministros rodeando Lula ouvindo o discurso de despedida de José Dirceu do cargo de ministro-chefe da Casa Civil. E é inesquecível o comentário de Roberto Jefferson no processo de cassação de Dirceu, no conselho de ética.

O desapontamento de vários políticos da base aliada do governo possivelmente aumentou, e muito, na medida em que se começou a tomar conhecimento de fatos no contexto da Operação Lava-Jato. Provavelmente implantou-se entre eles um estado de negação, muitos fervorosamente se recusando a admitir algo que aconteceu, negando a evidência arranjando um processo de fuga a uma questão colocada. O estado de negação se torna uma questão de sobrevivência.

A percepção da realidade que os envolve é, certamente, dolorosa e fatos gravíssimos, como os que diariamente são expostos, são tratados como tendo menos significado do que imputado pelo Poder Jurídico. Seu conjunto é explicado como resultado de uma gigantesca conspiração da qual participam pessoas de variados segmentos da sociedade, particularmente os relacionados ao Poder Público. Um exemplo muito óbvio foi a reação do ex-presidente Lula dizendo sentir-se vítima de uma atuação exagerada do PGR quando lhe atribui crimes que repudia com veemência.

“O doa a quem doer” que repetia vis-à-vis eventos de corrupção não o inclui.

Imagine-se, portanto, o sentimento dos que são fundadores do PT, um partido cuja atuação seria um exemplo a ser seguido, tanto no Brasil como no exterior. Para esse grupo originário é, sem dúvida, dolorosíssima a súbita queda da figura quase mística do ex-presidente Lula. O estado de negação passa a ser a única opção, provavelmente assemelhado ao de pais que recebem a notícia da morte de um filho. Sabe-se que muitos pais obrigados a lidar com a dolorosa realidade comentam que por vezes, imaginam o(a) filho(a) morto, de repente, entrando na casa.

A reação do ex-presidente Lula ao se ver e sentir ser a figura central na 24ª fase a Operação Lava-Jato expõe muito mais seu presente estado de negação diante dos deploráveis fatos já revelados do que de indignação propriamente dita. A revelação de comportamentos que ele mesmo criticaria, como o uso de imóveis pertencentes a terceiros para usufruto e que envolveram a aplicação de vultuosas quantias de origem duvidosa, deveriam ser interpretados com naturalidade por terem sido praticados por ele, a referência ideal de comportamento ético e moral.

É chocante quando pessoas cultas, mesmo diante de informações inquestionáveis, insistem em dar-lhes uma qualificação que nega a gravidade de comportamento antiético e amoral dos atores envolvidos no presente escândalo e que diariamente são apresentados à sociedade.

Ao que parece o ex-presidente Lula e os que o apoiam têm uma percepção diametralmente oposta daquela que a Justiça tem de fatos e comportamentos que estão sendo trazidos ao conhecimento público.

Adotando um estado de negação poderão ser responsabilizados por uma possível convulsão social com efeitos funestos para o País.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
05/03/2016

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