Entrando para a vida jornalística

Em 1975, eu já havia concluído o curso de História na Faculdade de Filosofia de Campos e já atuava como professor na mesma faculdade, no Liceu de Humanidades de Campos e no curso pré-vestibular Savart. Nesse ano, casei-me. Eu poderia me considerar satisfeito. Era professor universitário, dava aula num dos mais conceituados colégios do Estado do Rio, do qual muitas pessoas ilustres saíram para o mundo, e trabalhava no mais famoso curso pré-vestibular de Campos.

Mas eu sentia falta de algo. Eu queria ser escritor. Em 1974, eu concluíra a redação de um grande artigo sobre folclore, hoje cultura popular, e o havia oferecido ao MEC para publicação. Mas me dirigir à comunidade acadêmica (se é que consigo dialogar com ela) não era o meu único projeto. Eu queria escrever em jornal para me comunicar com um público maior e menos especializado. Eu gostava (e ainda gosto) de política internacional. Meu interesse pelo Oriente Médio continua sendo grande.

Então, comecei a escrever um artigo jornalístico sobre um acordo egípcio-israelense, firmado em 1974. Passei uma semana escrevendo e aparando as arestas. Quando o considerei “pronto” para publicação, procurei alguém que pudesse me ajudar a publicá-lo. Lembrei de Elmar Martins, que havia sido meu professor de História Contemporânea em 1973 e que escrevia para “A Notícia”. Pedi-lhe que lesse o artigo e opinasse sobre ele. Uma semana depois, Conceição Sardinha, que também havia sido minha professora, me diz no corredor da FAFIC: “Gostei muito do seu artigo”. Perguntei-lhe como ele havia chegado às mãos dela. Resposta: ele estava sobre a mesa da sala dos professores. Elmar, na sua proverbial distração, havia esquecido o artigo na faculdade.

Fui lá e o recolhi dando graças, pois, naquele longínquo tempo, tudo era manuscrito ou datiloscrito. Quando se queria cópia, usava-se papel carbono. Eu havia datilografado o artigo sem cópia, depois de manuscrevê-lo durante uma semana. Se perdesse o artigo, seria necessário reescrevê-lo. Saí novamente à procura de ajuda. E a encontrei no calçadão do centro de Campos. Eram tempos, bons tempos, em que se podia encontrar Diva Abreu andando pelo centro da cidade. Já escrevi isso antes. Eu também frequentava o centro, do qual fui expulso pelos mendigos intelectuais.

Diva também escrevia n’ “A Notícia”. Coincidentemente, eu estava com o artigo, e tomei coragem de lhe pedir uma opinião. Ela o levou para casa. Agora, eu tinha cópia. Já existia xerox. Qual não foi minha surpresa e alegria ao ver o artigo publicado no dia 5 de outubro de 1975, no jornal dirigido pelo afamado Hervé Salgado Rodrigues, de boa memória.

Com a publicação, eu não tinha compromisso de escrever regularmente para o jornal, mas tomei gosto. Escrevi novo artigo e o entreguei a Hervé, a quem fui apresentado. Tornei-me colaborador de “A Notícia” até que Diva Abreu, novamente no centro da cidade, convidou-me a escrever no jornal que ela e Aluysio Barbosa pretendiam fundar. Assim, como colaborador, assinei o primeiro artigo de “Folha da Manhã”, em 8 de janeiro de 1978, e passei a escrever semanalmente para o jornal. Estou nele até hoje.

Mas o primeiro artigo a gente nunca esquece. Ele está colado na primeira página do meu primeiro álbum de recortes. Em 1977, saiu meu primeiro trabalho acadêmico: “O jogo das bolinhas”, pelo qual tenho muito carinho.

Há 40 anos, casei-me com uma pessoa e com o jornalismo.

Arthur Soffiati é historiador ambiental, professor e articulista

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