Donald Trump, réu aloprado (Ed. 12/11)

Connfirmou que construirá um muro ao longo da fronteira com o México. Os mexicanos pagarão estimados 12 bilhões de dólares. Detalhes: 16 metros de altura, 2,5m de largura, 3.200 km de comprmento. 128 milhões de metros cúbicos de concreto.

Trmp já desistiu, em parte, substituir o Obamacare, o sistema de saúde que atende 20 milhões de americanos que não tinham qualquer tipo de assistência médica. Também desistiu de processar Hillary Clinton na questão dos e-mails que Hillary enviou usando um provedor particular.

Passados dois dias após as eleições Donald Trump parece se dado conta da encrenca em que se meteu. Repudiar acordos comerciais é uma proposta tão estúpida que ninguém sequer cogita discutir.   

Já se fala em impeachment de Donald Trump. Christopher Peterson, professor de direito da Universidade de Utah, afirma que há razões para impedir que Trump assuma a presidência. Em documento divulgado pela universidade afirma que o Congresso pode cassar o mandato de um presidente que antes de ser eleito tenha cometido fraude. Refere-se aos casos da Trump University e outros negócios. Trump é réu em pelo menos dois processos. É uma situação idêntica a que se discute no STF: um réu não pode ocupar a presidência da República.

Sabendo que seria confrontado com essas questões Trump recusou-se a participar do tradicional encontro com representantes dos meios de comunicação após seu encontro com o presidente Barak Obama, na Casa Branca, no dia seguinte de sua eleição.

Ao longo de sua campanha Trump jogou para a platéia dos insatisfeitos entre as metades em que se divide a sociedade norte-americana. Para ela seu sonho se tornaria realidade: América para os americanos, livre das presenças dos não-americanos que usurpam seus empregos, que ameaçam a supremacia da raça branca, que confrontam as crenças do cristinianismo, que exigem mais e mais programas sociais para sobreviverem, que ameaçam os hábitos, usos e costumes tradicionais.

Quando um não-americano encontra um casal de rednecks (racista, machista, xenófobo, preconceituoso) um o saúda calorosamente e o segundo pergunta “quando você volta para seu país?”, surpreendendo-se, com notório desapontamento, quando é informado de que o não-americano é, afinal, um americano naturalizado ou um imigrante legal.

Foi esse grupo de rednecks que os pesquisadores não conseguiram identificar fazendo-lhes as perguntas certas durante a campanha eleitoral. E foi esse grupo que fez a diferença, tendo havido mudança de voto dos que, embora registrados como democratas, votaram em Trump. Essa mudança ocorreu, principalmente, nos estados onde se localiza o “corredor da ferrugem” nos estados da Pennsylvania, Ohio, Indiana e Wisconsin os mais afetados pela chamada “Terceira Onda” quando centenas de atividades econômicas, que ofereciam um grande número de empregos, faliram ou deixaram de ser competitivas vis-à-vis produtos importados (indústrias siderúrgicas, alumínio, automobilistas). Milhões de empregos desapareceram ao longo dos últimos quarenta anos e toda aquela gente voltou a ouvir o “canto da sereia” de Trump com suas promessas de reativar a exploração de carvão, reativar usinas siderúrgicas, montadoras de veículos. Dai serem identificados com a cor vermelha (republicano) os quatro estados acima tradicionalmente democratas (azul). Tivesse vencido naqueles quatro estados Hillary receberia 59 votos eleitorais, totalizando 291 votos contra 231 para Trump. Aconteceu exatamente o inverso: 290 votos para Trump e 232 para Hillary.

É óbvio que Trump mentiu quando prometeu recuperar o “corredor da ferrugem”. É impossível produzir aço e alumínio naquele corredor a preços competitivos com o que a China e o Japão produzem. Mas, a mentira foi engolida justificando a promessa de criação de 25 milhões de empregos contra os 10 milhões prometidos por Hillary.

A promessa de construção de um muro separando o México dos Estados Unidos soou e soa como um milagre há décadas sonhado por toda a população de rednecks nos estados do oeste e centrais, de norte a sul. Passados dois dias depois das eleições aqueles milhões de rednecks continuam acreditando que será possível realizar a proeza, mais atraente ainda porque o custo seria arcado, inteiramente, pelo México.

É bastante provável que Trump venha a ser confrontado com protestos, já no segundo ano de seu mandato, com relação à algumas promessas que feitos.

Primeiro, será impossível eliminar o chamado Obamacare, um programa que oferece plano de saúde a 20 milhões de pessoas que não tinham acesso aos planos tradicionais. Já está no Congresso americano projetos que introduziriam medidas corretivas para evitar que o ajuste anual ultrapasse taxas acima de 10%. Além disso, Trump não explicitou, mesmo genericamente, o plano de saúde que introduziria e que seria mais favorável.

É impossível construir o muro entre o México e os Estados Unidos, mesmo que fosse inteiramente bancado pelo governo americano. Trump não explica de que maneira convenceria o México a assumir o custo a não ser que decida adotar a impensável política de confiscar o dinheiro que mexicanos que trabalham nos Estado Unidos transferem para o México.

É impossível reativar as indústrias que desapareceram no “corredor da ferrugem”. Seria uma proposta irreal imaginar que os Estados Unidos poderiam retornar à era da Segunda Onda industrial reconstruindo usinas siderúrgicas. Pelo menos dois terços dos prometidos 25 milhões de empregos prometidos estariam comprometidos.

Eleitores que votaram em Trump estão se juntando aos que protestam nas ruas em pelo menos 25 estados americanos. A irrealidade das propostas parece ter sido percebida, ou seja, teriam votado em Trump para expressar descontentamento, mas não esperavam que seus votos ajudassem a elegê-lo.

O governo Trump provavelmente será marcado por muita instabilidade e resistência no Congresso. Apesar de ter a maioria na Câmara de Deputados e no Congresso, as mais importantes reformas de pretende introduzir dependem dos votos dos democratas nas duas casas. Acresça-se a insatisfação popular na medida em se for verificando a impossibilidade de implementá-las.

Trump continua a acusar os meios de comunicação pelos problemas que teve durante a campanha e a acusa de incitar os atuais protestos nas ruas.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
11/11/2016

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