Derrota na guerra, irmão

Derrota na guerra, irmão
Derrota na guerra, irmão

Derrota na guerra, irmãoLixo na Praia do Forte, em Cabo Frio. Foto do dia 08 de fevereiro (FB – Bruna Pozzebon)Tivemos boas condições de ganhar esta e outras guerras. Não pelos nossos comandantes. Eles nunca foram bons estrategistas. Não também por nossa tropa de elite. Seus integrantes cometeram o grave erro de focar cada vez mais a pessoa do inimigo, esquecendo-se das particularidades de seu território. Nosso maior trunfo nas guerras eram os aliados.

Eles formavam um arco bem amplo de aliança e eram fieis. Nunca nos pediram nada. Lutavam por lutar sem esperar recompensas. Eu arriscaria dizer que nossas guerras foram mais vitórias deles que nossas.

Não soubemos reconhecer nossos inimigos. Em tempos de paz, para nos manter ativos, atacamos nossos aliados e os eliminamos. As eras passarão e eu nunca conseguirei compreender e perdoar essa eliminação. Só mesmo, evocando Jesus: “Perdoai-os, Pai, eles não sabem o que fazem”. Enquanto isso, investimos muito dinheiro na formação de nossos soldados de elite. Eles se tornaram especialistas em cabeça, tronco, membros, mãos, pés, unhas do inimigo. Nossos soldados de elite perderam a noção do corpo todo do inimigo. Na verdade, nossos inimigos nunca nos atacaram por ódio ou para conquistar territórios. Sempre foi da natureza deles fazer o que faziam.

Foi crueldade e irresponsabilidade extinguirmos nossos aliados. Destruímos o equilíbrio do clima. No passado, contamos com temperaturas e umidade regulares. Injetamos tantos venenos nesse aliado tão importante que ele se tornou imprevisível. Não morreu, mas ficou desregulado. As temperaturas médias do planeta estão subindo pouco a pouco. O ano de 2015 foi o mais quente desde que nós começamos a fazer registros mundiais. Há quem não acredite nesse aumento. As chuvas também se tornaram irregulares: ocorre muita ou pouca chuva. Sinto saudades do tempo em que o clima era estável e mais ou menos previsível. Quando chove muito, há transbordamentos e deslizamentos. Na verdade, este aliado não foi eliminado. Simplesmente, tornou-se nosso adversário.

Outro aliado atacado violentamente foram as florestas, sobretudo as tropicais, como a Mata Atlântica, a Amazônia, as florestas do Congo e da Indonésia. Esses nossos aliados ainda não foram totalmente arrasados, como é nosso desejo, mas estão combalidos. Muitos dos seus habitantes ficaram sem casa e morreram. Muitos outros foram arrancados de sua casa, aprisionados em zoológicos, jaulas e gaiolas, obrigados a cantar para nós e enfeitar as nossas vidas.

No entanto, três exércitos de elite dos nossos aliados estão sendo eliminados aos poucos, por nossas ações diretas ou indiretas: os peixes, os anfíbios (sapos, rãs, pererecas) e aves. Eles mantinham os insetos sob controle. Não os extinguiam, mas se alimentavam deles e não deixavam que suas populações ultrapassassem limites perigosos para nós.

No conjunto, bactérias, protozoários, fungos, plantas e animais formam um conjunto integrado que hoje chamamos de biodiversidade. Talvez para identificar nosso ex-amigo, tratado hoje como inimigo.

Por outro lado, fizemos novas alianças que não nos têm beneficiado. Criamos cidades enormes completamente desequilibradas. Elas estreitaram e barraram rios, poluíram suas águas com lixo e esgoto. Desmataram as encostas para construções. Em nossas cidades, há infinitos acumuladores de água sem nenhum predador de insetos. Nesses locais, eles podem se reproduzir sem nenhum risco de serem predados.

Nossos soldados de elite trajam uniformes brancos e já se esqueceram dos nossos aliados. Eles se chamam pesquisadores, médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem. Sua função atual é esterilizar insetos para que não procriem ou tenham descendência estéril, fabricar vacinas para doenças causadas por vírus, aplicar fumacê, esvaziar tampinhas de refrigerantes e tratar de pessoas doentes, mesmo que seja no chão dos hospitais, atualmente superlotados e despreparados. Esses soldados de branco têm pleiteado o recrutamento de soldados de verde, azul, amarelo e de muitas outras cores pelo mundo não para uma guerra entre humanos, mas para uma guerra já perdida para os insetos. Nossa gente de branco nem se lembra mais dos aliados. Hoje, essa gente pensa como a maioria: cada indivíduo é um indivíduo e deve ser tratado como tal. As altas patentes da tropa de branco acreditam que, um dia, serão capazes de inventar uma vacina contra a morte. Já inventaram meios de fabricar pessoas ao gosto do freguês. Só falta criarem um exército de pessoas perfeitas.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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