Cristovam Buarque afirma que a escola não evoluiu no Brasil

Cristovam Buarque
Cristovam Buarque

Cristovam BuarqueSenador Cristovam Buarque PPS/DF (Divulgação)“Numa cidade pequena você pode mudar tudo em dois anos”

Cristovam Buarque é Senador da República pelo PPS/DF, professor da Universidade de Brasília (UNB) e membro do Instituto de Educação da Unesco. Publicou mais de 20 livros e trabalhou como consultor de diversos organismos nacionais e internacionais ligados às Nações Unidas. Ele fala com exclusividade à Revista Cidade sobre Educação.

Quando o senhor concorreu à Presidência da Repúbica, colocou a Educação como o objetivo principal de sua administração. Por que fez essa opção?

Porque a única forma do Brasil entrar no século XXI e derrubar o muro da desigualdade dentro do Brasil, e o muro do atraso em relação ao resto do mundo é através de uma revolução na Educação brasileira. O crescimento econômico não vai resolver. Colocar o exército nas ruas do Rio de Janeiro não vai resolver. Aumentar o capital que vem do exterior para o Brasil, não vai resolver. Só a Educação é capaz de derrubar o muro da desigualdade e o muro do atraso.

Acha que o Brasil entendeu a sua proposta?

Não entendeu, e ainda vai demorar muito para entender, porque há uma cultura entranhada no imaginário brasileiro, em todas as classes, de que o quê define um país progressista, moderno, é a Economia, não é a Educação. Mesmo as classes ricas quando gastam dinheiro para educar os filhos, não é para que os filhos sejam educados, é para que os filhos tenham um salário melhor. Quando um pai gasta um dinheirão com a educação de um filho e ele diz que quer ser filósofo, o pai fica com raiva. Se a menina diz que quer fazer pedagogia, o pai fica triste. Ora, ninguém é melhor educado que um filósofo, ninguém tem mais a ver com Educação do que um professor, um pedagogo. Não está no imaginário da Cultura Brasileira a Educação como um valor, como um símbolo. Então, isso faz com que, no processo político, o candidato para ganhar votos, não imponha a Educação como algo fundamental, porque se ele colocar a Educação como seu objetivo, provavelmente não terá muitos votos.

Se só a Educação resolve, mas, ao mesmo tempo, não temos cultura para conquistá-la, como fazer, então?
Antes de responder isso, é preciso dizer que só a Educação resolve, mas Educação só, não resolve. Só a Educação é que vai fazer o Brasil dar o salto. Mas, a Educação sozinha não. Tanto que meu programa de governo falava também em crescimento, segurança, taxas de juros. Agora, como quebrar isso? Ao nível das ideias, é defender a ideia, ter candidatos falando isso, mesmo sabendo que não vai ganhar a eleição, mesmo sabendo que vai ter poucos votos. Quando fui candidato a presidente, a pressão para que eu falasse de outras coisas foi muito grande, os tais “marqueteiros” estavam contra que eu concentrasse a minha campanha na Educação. Mas, se eu falasse em outras coisas, você não estaria me entrevistando hoje. Nós libertamos os escravos, mas não liberamos a sociedade como se esperava. A gente fez a migração do campo para a cidade e isso não melhorou, ao contrário, até piorou em muitos casos. Conseguimos o milagre econômico no crescimento, não resolveu. Conseguimos até o que ninguém acreditava, que é a estabilidade monetária, não resolveu. Aos poucos a sociedade vai percebendo que tem que procurar alguma outra coisa.

Quando Governador do Distrito Federal o senhor criou o programa bolsa-escola?
Foi antes. O bolsa-escola foi criado quando eu era reitor da UNB. Eu criei a ideia dentro dos Estudos do Brasil Contemporâneo da UNB, e aí publiquei um livreto, em 87. Em 90, durante o Governo Paralelo, eu apresentei a ideia ao Lula, mas foi rejeitada. Quando eu era candidato a Governador apresentei novamente a ideia, mas ninguém acreditava. Em 95, eu comecei. Na mesma época o prefeito de Campinas começou algo parecido, mas a proposta dele estava mais para bolsa-família do que para bolsa-escola.

Qual é a diferença?
O bolsa-família é uma renda transferida as famílias pobres para elas poderem comer. É algo positivo e generoso.

Não está vinculada à Educação?
Só na Lei. Na realidade não está. A bolsa-escola só funciona se essa escola for boa. A bolsa ajuda a comer, mas é a escola que ajuda a sair da pobreza. Não existe bolsa-escola sem escola boa. A frequência às aulas no Brasil é uma frequência à falsa escola, não é uma escola de fato. Muitas das escolas no Brasil hoje viraram restaurantes mirins populares. A criança vai ali só para comer na hora da merenda, ela não tem prova, passa automaticamente. Não existe escola sem escola.

Quando ministro da Educação, o senhor teve a oportunidade de implantar suas ideias?
Tive a oportunidade de começar. Tudo o que eu proponho vai levar 15 anos para mostrar resultados. Mas, precisa começar logo. Eu criei um programa chamado Escola Ideal. Escolhi algumas cidades para fazer uma revolução educacional na cidade inteira. Numa cidade pequena você pode mudar tudo em dois anos. Menos que isso não dá tempo. Você tem que reconstruir escolas, tem que equipar as escolas, contratar professores novos, tem que formar os professores para usar computadores, e leva dois anos para fazer isso. E o resultado você só vai ver quando as crianças de hoje chegarem ao final do ensino médio. É uma revolução para formar uma geração. A geração atual, a gente vai melhorar, mas não vai dar o salto.

O tempo necessário para fazer a revolução na Educação, quinze anos, não é um tempo político muito grande? Esses tempos não são conflitantes?
São conflitantes por causa da cultura. Quando se começou a fazer Itaipu, todo mundo sabia que ia levar 12 anos. Ninguém disse, “ah… doze anos para ter energia elétrica!”. Ninguém disse isso. Porque a Engenharia exige doze anos para fazer uma represa daquele tamanho. A Biologia precisa de vinte anos para transformar uma criança num adulto. É necessário aplicar certas regras da Engenharia e da Biologia na Educação. Eu não posso pegar uma criança e passar por cima do crescimento biológico dela, então, todo mundo aceita esperar 15 anos para ter o primeiro kilowatt de energia. A mesma coisa deveria acontecer com a Educação. Lamentavelmente, energia todo mundo se preocupa se vai faltar. Educação não. Ninguém quer apagão de energia, mas poucos se preocupam com o apagão da Educação.

E nós somos muitos imediatistas?
O problema do Brasil são dois: imediatismo e corporativismo. Nós queremos resolver o nosso problema já. Se a gente pudesse comprar energia elétrica e trazer numa mala do Paraguai, a gente não tinha feito Itaipu.

Como superar a barreira que o ensino médio representa na vida dos jovens brasileiros?
O Ensino Médio é uma barreira para o Brasil. Eu entreguei ao Presidente Lula (quando ministro) o projeto da Poupança Escola, que implantei quando era governador . Todo menino que passasse de ano recebia cem reais. Era uma caderneta de poupança. Só podia tirar o dinheiro quando terminasse o segundo grau. Isso era um incentivo. Agora, só serve se a escola for boa. Escola ruim não segura ninguém.

O que é uma escola boa?
Nos últimos anos os bancos mudaram de cara, os escritórios mudaram de cara. Tudo mudou de cara, menos a escola. Incrível! O comércio mudou de cara. A escola não evoluiu no Brasil. Algumas escolas. O Brasil tem algumas escolas maravilhosas. O Brasil tem boas escolas, mas para pouca gente.

O senhor fala também em Pacto da Educação, como seria?
Na hora de fazer o orçamento, vamos colocar primeiro o dinheiro para a educação, depois se pensa no resto. Segundo ponto: os professores vão ter aumento de salário de 100%, mas não vão mais fazer greve. É Pacto. O que eu defendo é o pacto da excelência contra o pacto da mediocridade. E tem mais gente no pacto. Por exemplo, as famílias também precisam entrar no pacto. Porque Educação não é só escola. É escola, família e mídia, e o governo por cima disso. A mídia tem que entrar no pacto. Não adianta a gente colocar o menino para ter seis horas de aula e depois ele chega em casa, liga a televisão e se deseduca completamente. A televisão tem que entrar no espírito da Educação.

As escolas em tempo integral, ao molde dos (antigos) CIEPS, do Rio de Janeiro, seriam a solução para a Educação?
Não ao molde dos Cieps. Ao molde da Educação em todos os países decentes do mundo. Não há outro jeito. Não se dá uma boa educação ao menino que ficar só quatro horas na sala de aula. É preciso fazer como fazem os filhos da classe média do Brasil, que têm, fora das quatro horas de aula, balé, natação, ginástica, inglês, francês, dever de casa, professor particular. Tem que ter isso tudo para todos. E o único jeito de ter isso para todos, é dentro da escola. Num primeiro momento, eu defendo saídas intermediárias, como eu fiz no meu governo onde eu tinha um programa chamado escola em casa. Eu pegava bons alunos do segundo grau, pobres, pagava a eles cem reais para serem professores particulares dos alunos do ensino fundamental, em casa. Era uma maneira de acompanhar esses meninos.

A Educação não é uma prioridade no Brasil?
Não há uma cultura de Educação. As famílias não brigam com o diretor da escola como brigam com o técnico do time deles. Já viu como os jogadores são xingados e aplaudidos? Professor não é aplaudido nem xingado. Quando você aplaude ou vaia, é por que você ama. Professor no Brasil não é vaiado nem aplaudido. É desprezado.

A classe não se auto-valoriza?
Acho que a classe se valoriza mais do que é valorizada. Acho que têm orgulho de serem professores. Mas, depois de tantos anos de abandono, o professor começou a desistir.

O que o senhor diria aos secretários de Educação da Região dos Lagos?
Que a saída está nas faculdades onde as pessoas estudam. Ou a gente melhora os cursos de pedagogia, ou não dá certo. Segundo, é a valorização do professor. Valorização significa primeiramente, salário. Mas, não é só o salário. É preciso dar livros grátis para o professor, fazer com que ele se sinta VIP. Fornecer material didático de qualidade. Colocar televisão, computador, dar incentivo ao professor que estuda para usar o computador, e premiar o professor cujos alunos são bons alunos.

* Publicada originalmente na Revista Cidade versão impressa 

Niete Martinez

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