Conversas não-republicanas

Não se trata de ser contra ou a favor de Dilma. Trata-se de nos indignarmos com a tentativa de obstruir a justiça da qual participaram os senadores Jucá e Renan, o ex-presidente Sarney e o ex-presidente da Transpetro Sérigo Machado. O governo Temer já estava podre antes de começar.

Nas mãos de quem o País caiu? Pelo que se lê nos trechos divulgados das conversas de Sérgio Machado com Jucá, Renan e Sarney, nas de gente sem respeito e até mesmo, noção, do que seja um regime republicano. E, ainda, nas mãos de “mágicos” capazes de arquitetarem “contabilidade criativa”.

Começando pelos “mágicos”, em menos de 72 horas depois de assumir a presidência, Temer informou ao País de que o Tesouro Nacional pedirá ao BNDES que lhe devolva 516 bilhões. Pedirá que, inicialmente, devolva 100 em três parcelas, nos próximos três anos. Finalidade: reduzir a dívida pública. Que história é essa? Recordemos: um dos crimes de responsabilidade cometidos pela presidenta Dilma foi o de ter assinado seis decretos para crédito suplementar, totalizando 92,6 bilhões. Não faz sentido. Em lugar dos seis decretos poderia ter feito o que Temer fez agora: pedir que o BNDES devolvesse ao Tesouro os 92,6 bilhões de que precisava? Se a resposta é sim, porque não o fez? Estaria Temer insinuando que os seus “mágicos” são mais “competentes” do que Nelson Barbosa, Ministro da Fazenda de Dilma?

Essa história não bate. O que Temer fez, depois que assumiu, não poderia ser feito por Dilma? É isso?

Teria sido Dilma teleguiada para tomar as decisões que tomou para, a seguir, ser acusada de ter cometido crimes?

Teria havido uma conspiração como as conversas entre Sérgio Machado e Jucá, Renan e Sarney parecem insinuar?

Considerem-se as conversas entre os quatro. Em todas elas o Supremo é citado como uma peça chave na construção de um “acordão” que desaguaria no impedimento de Dilma e que, depois, seria usado como instrumento para “controlar” a maneira como envolvidos na Operação Lava-Jato passariam informações para a PGR.

Que histórias são essas?

Como pode um ex-presidente fazer a afirmativa de que seria capaz de impedir que Sérgio Machado fosse conduzido para o Paraná e lá “cair nas mãos do juiz Sérgio Moro”?

Sr. José Sarney: quem o Senhor pensa que é?

E, senadores Jucá e Renan, quem Vossas Excelências imaginam que são? Que ousadia é essa de sugerir serem capazes de negociar qualquer coisa com o Supremo?

Nada cheira bem nesses primeiros 15 dias do governo Temer.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
25/05/2016

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