Conhecendo alguns manguezais do Brasil (IV)

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Manguezais invisíveis

“… a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha”.
Pero Vaz de Caminha

Existem três documentos primários sobre a chegada de Pedro Álvares Cabral e os homens da sua esquadra às terras do futuro Brasil: a célebre carta de Pero Vaz de Caminha, a carta do Mestre João Faras e a carta do piloto anônimo, cujo nome era João de Sá, conforme as pesquisas, piloto da nau capitânia. A carta de João Faras trata tão somente de orientação astronômica, não interessando aos objetivos desse artigo. Os demais documentos, incluindo mapas, não foram produzidos pelos marinheiros da esquadra. Com os dois, contendo informações sobre as novas terras, viajamos mais no tempo que no espaço para entender os motivos pelos quais o manguezal não ocupa uma linha sequer nas cartas, parecendo invisíveis aos seus autores.

A descrição de Caminha sobre o relevo é muito cristalina: no fundo, o Monte Pascoal; na sua frente, à retaguarda da praia, falésias da Formação Barreiras, e mais à frente ainda uma estreita planície fluviomarinha. Nas palavras do escrivão, “Neste dia (21 de abril de 1500), a horas de véspera (entre 15 e 18 horas), houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs o nome – o MONTE PASCOAL e à terra – a TERRA DA SANTA CRUZ.” No final da carta, ele registra: “Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é toda praia parma ( significando essa palavra ‘arredondada’ como um semicírculo), muito chã e muito formosa.” Para o leitor de vários pontos do Brasil, entre Búzios e Amapá, esse tipo de relevo é muito comum. Podem-se encontrar falésias da Formação Barreiras na praia Gorda, em Búzios, e na praia da Lagoa Doce, em São Francisco de Itabapoana, para orientação do leitor que está mais próximo do escritos deste artigo.

No ponto em que a esquadra aportou, havia a foz de um pequeno rio, provavelmente o atual rio Coroa Vermelha, ladeado por luxuriante vegetação. Nesse ponto, foi celebrada a primeira missa. Então, a esquadra, num breve reconhecimento do terreno, dirigiu-se ao norte, até o atual rio Mutari, local da segunda missa. Em seguida, voltaram todos ao ponto inicial, onde, “… ao longo do rio, que corre sempre chegado à praia (…), é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas…”. A água de todos os rios da terra encontrada devia ser boa, pois contava com vegetação densa nas margens e ainda não eram poluídas. Ali havia uma “… lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada (encharcada, pantanosa) por cima e sai a água por muitos lugares.”

Descrição bastante precisa e que nos enche de nostalgia quanto a nossa natureza. Os defensores da justiça ambiental dizem que os ecologistas criaram o mito da natureza intocada. Sou ecologista e não alimento esse mito. Sei que as terras do futuro Brasil e da futura América em geral eram habitadas por inúmeras nações indígenas. Elas retiravam o necessário para subsistência da natureza. Contudo, como praticavam uma economia simples, as intervenções na natureza não causavam danos perceptíveis. Foi a economia de mercado, trazida por Cabral, que iniciou a destruição volumosa da natureza.

O próprio Caminha informa sobre a economia e a tecnologia dos indígenas encontrados: “… cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam forte.” Cortadores de pedra que não tinham o poder de destruição dos machados de ferro e, mais tarde, de aço, juntamente com as serras de mão e as motosserras. “Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, ou qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam.” Por sua vez, o piloto anônimo acrescenta: “(…) estes homens têm redes e são grandes pescadores e pescam peixes de muitas espécies”.

Pelo visto, não havia injustiça social e fome. Embora extrativista e minimamente agrícola (como os portugueses não conheciam a mandioca, chamavam-na de inhame, que conheceram na África), as necessidades fundamentais eram atendidas: alimentação, moradia e educação. Havia casas coletivas, como registrou Caminha. Pode parecer exagerado falar de educação entre os índios, pois sempre a associamos a escolas e universidades. O antropólogo Darcy Ribeiro notou que, aos quatorze anos, um índio já havia aprendido tudo de que necessitava para viver. Seu conhecimento era maior que o de um doutor da nossa civilização.

Mas o que muito chamou a atenção dos portugueses foi a nudez dos habitantes da terra, sobretudo a das mulheres: “… andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril, e a nádega, toda tinta daquela tintura preta; e o resto, tudo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia nenhuma vergonha (…) andava aí outra mulher moça, com um menino ou menina ao colo, atado com um pano (não sei de quê) aos peitos (…) as pernas da mãe e o resto não traziam pano algum.” Caminha nota que as vergonhas das mulheres eram tão bem feitas e graciosas que as mulheres europeias delas sentiriam inveja por não serem como elas.

O piloto anônimo observa que “As mulheres andam do mesmo modo sem vergonha e são belas de corpo, os cabelos compridos.” Esse erotismo por parte dos europeus foi censurado pela Igreja quando da primeira publicação da carta de Caminha em “Corografia Brasílica”, do padre brasileiro Manuel Aires de Casal, em 1817.

Mas voltando às terras, as águas e à vegetação nativa, tanto Caminha quanto o piloto anônimo chamaram atenção para elas. Caminha: “Águas são muitas; infindas”. Piloto anônimo: “A terra é muito abundante em muitas árvores e muitas águas boas e inhames e algodão.” Sabe-se muito bem que os dois pequenos rios visitados pela esquadra apresentam todas as condições para o desenvolvimento de manguezais. Ficam na zona intertropical. Em seus desaguadouros, formam-se estuários pelo encontro da água doce que desce do continente com a água salgada do mar.

Ambos são invadidos pelas marés altas. No entanto, nenhum dos dois escribas registra a presença de manguezais. Em Caminha, existe apenas uma nota que nos leva a suspeitar da existência desse tipo de ecossistema. Os marinheiros “… foram buscar marisco e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos…” Há fortes indícios de que esses camarões grossos e curtos sejam caranguejos. Eles podem ser encontrados em vários ambientes, mas são bastante comuns nos manguezais.

Não há dúvida de que, nesses dois rios existem manguezais. Mas eles ficaram invisíveis à Caminha e ao piloto anônimo. Cabral contava com vários pilotos experientes que deviam conhecer manguezais na costa da África. Mas não foram eles que escreveram sobre a nova terra. Mesmo se escrevessem, talvez não anotassem os manguezais. Havia uma natureza muito pródiga formada por terras, águas e plantas. Os manguezais podem entrar na categoria de “matas”. Além do mais, as mulheres nuas, expondo com naturalidade as suas genitálias, mexeram fortemente com a sexualidade dos portugueses. Entende-se que os manguezais tenham sido omitidos.

Nos rios visitados pela expedição de Cabral, as áreas que os manguezais ocupavam eram muito maiores do que hoje. Caminha escreve para o rei de Portugal que “… a terra em si é muitos bons ares, assim frios e temperados. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.” E continua: “Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”

A Cora portuguesa aceitou o conselho de Caminha. Integrando Portugal o mundo ocidental, durante a Modernidade, o Brasil foi colonizado por atividades lucrativas para a metrópole por meio do trabalho escravo. O que pareceu a Caminha o paraíso terrestre foi destruído. Após da independência jurídica, o Brasil tentou se ocidentalizar de modo predatório. O resultado foi o desmatamento, a poluição dos rios e lagos, a urbanização, a agropecuária para exportação e uma economia dilapidadora como resultado geral. Os biomas foram, em grande parte, suprimidos.

A urbanização esquartejou os rios Coroa Vermelha e Mutari. Os manguezais foram reduzidos em sua área. Atualmente, sobrevivem em condições mínimas de existência. Se ficaram invisíveis aos olhos de Caminha e do piloto anônimo, embora estivessem lá em toda sua pujança, podem agora, de fato, tornarem-se invisíveis por sua supressão.

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Aspecto do rio Coroa Vermelha atualmente. Imagem Google Earth

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Aspecto do rio Mutari hoje. Imagem Google Earth

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

Leia outros artigos do autor no blog “Outras Palavras” – http://fmanha.com.br/blogs/outras-palavras/

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