Conhecendo alguns manguezais do Brasil (III)

manguezaisdobrasilIII 1

Manguezais da Baía de Paranaguá

Não quero me valer dos excelentes estudos acadêmicos para escrever sobre os manguezais da Baía de Paranaguá. Quero conferir a este escrito mais o tom de crônica que o de artigo científico. Que valham mais as minhas impressões sobre a baía confrontando minhas lembranças do passado de três anos e oito meses vividos na cidade na década de 1950 com as observações de uma viagem feita em julho de 2016.

Morei em Paranaguá entre 1952 e 1955. Minha casa, hoje quase em ruínas, fica no centro histórico da cidade. Morávamos na parte superior dela. Meu pai trabalhava na parte de baixo, chefiando o Serviço de Embarque do Exército. Da sacada, eu contemplava um mundo maravilhoso e misterioso no que me parecia a outra margem do rio Itiberê. A meus olhos de criança, era uma densa floresta formada por árvores estranhas e repleta de animais selvagens. Nunca atravessei o rio para perceber que essa selva era constituída de plantas fantasmagóricas cujo caule se ramifica ao se aproximar do solo e que, dos galhos, descem raízes como cipó. De outras, saem raízes do chão como em busca de ar. Só em 1955, passando um mês na Ilha do Mel, vi uma dessas árvores de perto e nunca mais me esqueci dela. Em 1980, tantos anos depois, aprendi que se tratava do mangue vermelho na sua versão “Rhizophora mangle”, do mangue preto em sua espécie “Avicennia schaueriana” e do mangue branco.

Agora, estou de volta a Paranaguá. Imagino que os bosques de manguezal eram extensíssimos na baía, a segunda maior do Brasil. As condições ambientais favorecem os manguezais. Os geógrafos dividem a grande baía em baías menores. Prefiro entendê-lo como um todo. Em seu perímetro, desembocam vários rios que, embora pequenos, parecem fornecer a água doce necessária à formação de água salobra em mistura com o sal marinho, ambiente adequado para o desenvolvimento do manguezal. Chamou-me a atenção o rio Nhundiaquara, às margens do qual ergueu-se Morretes, no fundo da baía. Mas anotei também os rios Cacatu, Cachoeira, Faisqueira e dos Medeiros. Meu pai os navegava para pescar em companhia dos amigos quando eu era criança.

A parte baixa de Paranaguá, sujeita à influência das marés, devia ser ocupada por manguezais, desarraigados para que a cidade se instalasse com a proteção de muretas. Na minha viagem de 2016, encontrei junto a essa mureta e na boca de um provável lançamento de esgoto uma touceira de mangue preto. Abaixo do rio Macaé (RJ), este mangue é representado somente pela espécie “Avicennia schaueriana”. As plantas exclusivas de manguezal são oportunistas. Baste que encontrem um local reunindo condições mínimas para seu desenvolvimento e ei-las se enraizando, crescendo e gerando filhotes que ajudarão a colonizar o local.

manguezaisdobrasilIII 1Touceira de mangue preto em Paranaguá, junto ao trapiche (acervo do autor)

O mundo impenetrável da minha infância e que eu contemplava da sacada da minha casa com certo medo era a Ilha dos Valadares. Escrevo no pretérito imperfeito porque a Ilha dos Valadares da década de 1950 não é mais a Ilha dos Valadares de hoje. O rio Itiberê parece um rio, mas, a rigor, é um braço da baía. Uma ponte foi construída ligando Paranaguá à ilha. Aquele mundo distante de uma criança, hoje pode ser alcançado em minutos e a pé, cruzando a ponte.
Cruzei a ponte e surpresa! A ilha dos Valadares é mesmo uma ilha e não a “outra” margem do Itiberê. Para João Guimarães Rosa, seria a terceira margem de um rio que, a rigor, não é ilha. O espaço foi invadido pelo meio urbano e se transformou numa espécie de “Nova Paranaguá”. Houve supressão de grandes áreas antes dominadas apenas por manguezais. O manguezal restante forma uma espécie de biombo que oculta a nova cidade.

manguezaisdobrasilIII 2 Biombo de manguezal a ocultar parte da cidade de Paranaguá na Ilha dos Valadares (acervo do autor)

Mesmo assim, encontrei lá ainda bosques e árvores expressivos das três espécies de mangue: vermelho, preto e branco. Encontrei também exemplares da invasora ou associada guaxuma ou algodoiero da praia. No fundo da baía, em Antonina, as manchas de manguezal são menores, embora as condições lhe sejam mais favoráveis pela proximidade de estuários. Em Antonina, há manguezais já bastantes sujos pelo meio urbano. Apesar dos avisos para não se jogar lixo no mangue, num fragmento dele havia lixo e pneu.

manguezaisdobrasilIII 3Plantas de mangue na ilha dos Valadares (acervo do autor) manguezaisdobrasilIII 4Lixo em fragmento de manguezal em Antonina (acervo do autor)

Na direção oposta, saindo da baía, áreas de manguezal foram sacrificadas para ampliação do porto e para a instalação de um emprendimento de Eike Batista que faliu. Tenho fortes razões para repelir otimistas e empreendedores. Eike Batista deixou um rastro de destruição por onde passou, sempre propalando no início dos seus projetos megalomaníacos seu compromisso com o ambiente.

Na entrada da baía, situam-se as Ilhas do Mel e das Peças. Na face da Ilha do Mel voltada para o mar aberto, os manguezais se refugiam nos escassos córregos devido à força das marés. Na face interior, protegida da energia oceânica, os manguezais se desenvolvem na forma fisiográfica de franja. Para completar este voo de pássaro pela baía, desejo ainda conhecer a Ilha das Peças, Superagui, Bertioga, Guapicu e Guaraqueçaba, onde me informaram sobre a existência de manguezais selvagens.

manguezaisdobrasilIII 5Aspecto de manguezal de franja, na parte interna da Ilha do Mel (acervo do autor)

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

Leia outros artigos do autor acesando o blog “Outras Palavras” (http://fmanha.com.br/blogs/outras-palavras/)

{loadposition facebook}

COMPARTILHAR