Conhecendo alguns manguezais do Brasil (II). O mais antigo manguezal do mundo

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Sei que os biólogos só consideram manguezal um bosque com espécies exclusivas desse ecossistema, admitindo espécies associadas. Sei também que os manguezais são formados por plantas angiospermas (plantas completas) que, em torno de 60 milhões de anos passados, fizeram a experiência de molhar seus pés em ambientes aquáticos e salinos da costa banhados por marés no atual Sudeste Asiático. De lá, disseminaram-se por toda a faixa tropical pouco acima e abaixo dela.

Como sou eco-historiador, vejo o manguezal pelo prisma temporal. Assim, interesso-me por áreas que já contaram com bosques, que contam com eles ou que podem vir a contar. Estudo também as resultantes das relações entre as sociedades humanas e os manguezais, bem como com outros ecossistemas, sempre me esforçando para ouvir a voz deles.

Este artigo tem algo de crônica porque trato não do mais antigo manguezal do mundo e sim daquele manguezal mais antigo da minha vida. Em frente à casa em que morei em Paranaguá, na primeira metade da década de 1950, estendia-se o manguezal da Ilha dos Valadares, ainda extenso atualmente, mas já ameaçado por ocupação humana. Meu pai era militar e, em 1955, substituiu o comandante do Forte Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel, por um mês. Eu contava então com oito anos.

Minha tarefa diária era buscar o almoço da família numa casa simples onde uma senhora idosa cozinhava para fora. Nesse curto caminho, havia um córrego cuja água era avermelhada. Fiquei bastante impressionado com essa coloração. Ocorreu-me que aquela cor podia derivar de sangue. Pela primeira vez na minha vida, prestei atenção numa árvore que se ramificava ao se aproximar do solo. Mais tarde, soube tratar-se de mangue vermelho.

Acabo de voltar à ilha, 51 anos depois da minha estada de um mês nela. Fiz questão de visitar o forte e o córrego. Sua vazão é tão diminuta que ele só chega ao mar quando a água do continente se acumula numa bacia e transborda. Com as marés cheias, o mar também o invade. A coloração da água continua avermelhada, mas as plantas adultas de mangue vermelho não estão mais lá. Localizei apenas um exemplar de siribeira (Avicennia schaueriana). Plantas invasoras e razoavelmente tolerantes à salinidade também se encontram no pequeno estuário, como guaxuma (Talipariti pernambucensi) e mololô (Annona glabra).

MANGUEZAISDOBRASIL1 Exemplar de siribeira à esquerda junto a um exemplar de guaxuma

Localizei também várias plântulas de mangue vermelho (Rhizophora mangle), mas nenhum exemplar adulto. A água avermelhada deve derivar de outras plantas ou de outros fatores. Como eu era muito pequeno quando visitei o riacho, não retive detalhes na memória. Embora as margens da foz sejam um pouco elevadas, há espaço para o desenvolvimento de manguezais nas partes atingidas pelas marés.

MANGUEZAISDOBRASIL2Plântula de mangue vermelho no riacho da Ilha do Mel

Aliás, na face da ilha aberta para o mar, existem mais alguns córregos que descem da parte montanhosa da ilha e não conseguem manter a barra permanentemente aberta. Entre o morro do Farol e a Fortaleza, encontrei quatro. Apenas um conseguia manter o fluxo contínuo de água doce até o mar. Em todos eles, havia exemplares novos de plantas de manguezal. A água de um deles era mais vermelha que a do córrego da minha infância. Indagando aos poucos moradores dessa face da ilha, ninguém soube me dizer o nome deles. Se algum dia eles mereceram ser nomeados, hoje são apenas “corgos”.

MANGUEZAISDOBRASIL3Outro córrego com água vermelha voltado para o mar aberto na Ilha do Mel MANGUEZAISDOBRASIL4 Outro córrego sem vazão para o mar na maré baixa. Face da Ilha do Mel voltada para mar aberto MANGUEZAISDOBRASIL5 Único córrego com fluxo contínuo no trecho percorrido da praia voltada para mar aberto

Na face da Ilha voltada para o mar aberto, estão ocorrendo fenômenos erosivos que alguns atribuem a aprofundamentos frequentes de um canal submarino para a entrada e saída de navios no porto de Paranaguá. Creio que esses fenômenos dificultam a fixação de propágulos nesse lado. Os riachos são o melhor local para o desenvolvimento de plantas. Mesmo assim, elas são escassas nos pontos propícios. Na face interna da ilha, mais protegida da energia oceânica, há longas faixas de manguezais de franja.

MANGUEZAISDOBRASIL6 Erosão nas praias da ilha voltadas para o mar aberto

 Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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