Comunidade científica defende preservação da Restinga do Peró há vários anos

(20 de Novembro de 2013)

Um encontro promovido pela Associação de Meio Ambiente (AMA) de Cabo Frio, em dezembro de 2007, trouxe pela primeira vez à discussão pública os aspectos científicos da área pretendida para a implantação do projeto Reserva Peró

O seminário “Restinga – Uso Sustentável: Um Desafio ao Desenvolvimento” reuniu no Convento Nossa Senhora dos Anjos, em Cabo Frio, a comunidade científica, ambientalistas e entidades, e lançou o primeiro alerta sobre o uso inadequado da área. O pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Cyl Farney Catarino de Sá , foi enfático na ocasião: “Para mim, APA, neste caso, passou a significar área de prostituição ambiental. O que precisamos é de uma Unidade de Conservação Integral. A Feema quer empurrar para a sociedade um dado falso de que há uma área com 60% de degradação, o que não existe. Estive lá, estudei o local e posso garantir que por toda área existe vegetação”, afirmou Cyl Farney.

Em sua tese de doutorado, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cyl Farney estudou a estrutura, diversidade e conservação de angiospermas no centro de diversidade de Cabo Frio. Em seus estudos, focados na Serra de Sapiatiba, APA de Massambaba e APA do Pau-Brasil, ele apresentou a catalogação de espécies nativas de plantas nas florestas regionais. No total, foram registradas 1184 espécies, entre restingas (876), floresta estacional (516) e áreas arbustivas de morro (53).

“No Estado do Rio, de Parati ao Norte Fluminense, temos listado mil espécies por toda planície costeira. O que significa dizer que 876 estão localizadas neste centro de restinga de Cabo Frio. É possível entender agora por que esta é uma área muito especial e ainda mal estudada? Isso equivale dizer que engrossei a listagem do Rio em mais de 70%, pois até pouco tempo era uma lista com menos de cem espécies”, disse o pesquisador.

Também presente no encontro, o diretor da organização não-governamental S.O.S. Mata Atlântica, Mauro Montovani, fez um alerta para o desafio de aprender a empreender com responsabilidade ambiental e social. “Nossas estimativas são de que 93% de florestas de Mata Atlântica foram destruídas. Até onde vai o limite ético disso?”, perguntou Montovani, acrescentando, “Além disso, não temos mais restingas para proteger. Vamos ter que aprender com esta de Cabo Frio, onde querem instalar o Reserva Peró”.

Ainda durante o seminário, o geocientista Guilherme Borges Fernandez, do Instituto de Geociências da Universidade Federal Fluminense (UFF) foi categórico: “Isso é um desserviço e uma afronta à inteligência dos geocientistas que trabalham seriamente com essa temática. Se você perguntar para qualquer geocientista que tenha um mínimo de coerência, e de passado em seus estudos, ele vai dizer que aquela região é um sistema de dunas de diversas formas, que precisam de uma planície de circulação livre para se desenvolver. O lugar é um mosaico de formas eólicas que é uma dádiva para o Rio de Janeiro, um retrato da evolução terrestre que deveria ser preservado para as gerações futuras”, afirmou o cientista durante o encontro.

Atualmente orientando a dissertação de mestrado de Martin Moulton, pela UFF, Guilherme incluiu as dunas do Peró como uma das áreas de estudo do trabalho. O jovem conta que no inicio do mês de setembro, quando fazia um trabalho de campo no local foi surpreendido com as máquinas fazendo o aterramento das dunas. “Nós sabemos, pelos estudos que fazemos, que são dunas ativas, que por mais que em alguns setores não estejam ligadas ao sistema de dunas mais ativo, que são aquelas mega-formas de dunas mais ao sul, tudo isso faz parte de um sistema, que depende dessa movimentação eólica”, disse.

Da Redação

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