Coisas Mais Importantes

Joubert chegou aos 75.

Ora, o que tem isso de tão importante que mereça uma linha escrita? Lá pela década dos 30, isso era motivo de comemoração, mas com o passar das décadas, chegar aos 75 não tem nada de especial.

Joubert sabia disso, tanto que ninguém da família fez qualquer menção de uma celebração. Foi apenas uma reunião familiar, com um jantar, bolo, vinho e sorvete porque estava muito calor. Enquanto a família via TV na sala, ele sento-se só na varanda, e entrou na intimidade dos seus pensamentos, e olhou para cada um dos familiares, a esposa, os dois filhos, os netos, olhou sua vida profissional, olhou sua vida familiar, olhou seu circulo de amizades e relacionamentos, olhou, olhou, e chegou nele mesmo.

Ali sentado, com os olhos abertos e parados, surgiu a uns poucos metros à sua frente, um mergulhador vindo do fundo da lagoa que também surgiu, e ocupou o jardim de sua casa. Era uma miragem.

O mergulhador era ele mesmo e assim ele se viu olhando para si próprio. O Joubert mergulhador ficou em pé na superfície da água, vestido de terno e gravata exatamente como nos velhos tempos do trabalho no escritório, e estava numa atitude amistosa, sorrindo para o Joubert original, como que o encorajando.

O original estava sentado confortavelmente e ouvia o som baixo da TV, da família conversando, e dos netos brincando. Mas, agora a intimidade dos seus pensamentos criou essa cena interessante como se fosse no parque de uma cidade qualquer.
O original teve um ímpeto de conversar com o outro, mas sentiu uma impossibilidade disso, de conversar com o outro Joubert, mas, rapidamente teve a brilhante ideia de chamar o outro por outro nome e decidiu por Jonas.

-Jonas, amigo meu, há quanto tempo eu não falo contigo.

-É verdade Joubert, de fato não me lembro da ultima vez que falamos.

Em nenhum momento Joubert achou qualquer coisa estranha no fato do outro ter surgido das profundezas de uma lagoa ali na sua frente. Alem disso, sua roupa estava seca como se aquele fosse o seu ambiente natural, exatamente como num sonho. Jonas estava em seu ambiente fluido, como o útero de sua mãe onde tudo começou e que parecia que ainda continuava.

Dava para perceber a grande dificuldade de dali sair uma conversa. Eles não precisavam se falar, a comunicação era inconsciente.

Mas, após algum tempo Joubert falou,

-Estou pensando em alguma coisa importante para conversarmos,

-Mas o que são coisas importantes?

-Estou me lembrando de um filme em que uma carroça puxada por uma mula segue por uma estrada que divide duas chácaras. Os proprietários delas acabaram de ver a mula defecar varias bolotas e eles correm para chegar primeiro e pegar as bolotas de bosta.

Mas, eles chegam juntos e iniciam uma briga pela posse delas.

-Você quer dizer que a bosta era a coisa mais importante?

-Essa é uma maneira de se ver a coisa, mas eu gosto mais da outra que é a coisa mais importante é o resultado que a bosta vai ajudar a produzir e que será uma melhor colheita de legumes. A bosta é um adubo muito bom.

-Você está dizendo que a coisa mais importante é sempre o resultado?

-Antes de lhe responder, vamos ver alguma outra situação para ver se é a mesma coisa.
Joubert já estava desconfiado de que Jonas gostava de fazer perguntas, mas isso não tem importância, porque ele estava sentindo uma grande simpatia por ele, isto é, Joubert estava gostando dele e sentindo emoções boas.

– Vendo você aí de terno e gravata, me faz lembrar do meu trabalho onde praticamente tudo era importante. Todas as atividades eram resultados parciais para um resultado maior final que era considerado o mais importante.

– Por que era mais importante? Baseado em que?

 

– Baseado em que eram os resultados determinados pelo chefe.

– E porque eram mais importantes para o chefe?

– Ora porque quem manda é o chefe!

Jonas completou,

-Resposta certa em parte Joubert. É verdade que o chefe tem o poder de mandar, e o poder emana de sua posição, mas, principalmente das suas emoções.

O eu que eu quero dizer é que cada resultado está conectado ou gera um grau de emoção e o resultado mais importante é o que está conectado à maior emoção, no caso, do chefe. Pode ser emoção de prazer, ou pode ser de medo, se o resultado não for conseguido. Então a coisa mais importante são as emoções.

Joubert pensou, ele custou a falar, mas quando falou, arrasou!

– Jonas, acho que você está querendo me enrolar. Vamos voltar atrás e começar de novo.

Repetindo a pergunta, o que são as coisas mais importantes?

Nesse ponto a miragem mudou, exatamente como acontece nos sonhos, e o Jonas era agora um menino de calças curtas, descalço e em pé acima da água.

Tinha uns 12 anos e estava perdidamente apaixonado pela sobrinha da vizinha que estava passando as férias na casa da tia. As férias de dezembro apenas haviam começado e seus dois irmãos haviam viajado para passar as férias na casa de uma tia em Leopoldina, MG. Mas, ele preferiu ficar, mesmo tendo de trabalhar duro com o pai na, e ainda arranjava tempo para fazer petecas de palha de milho, para ela, com as penas mais bonitas arrancadas à força das pobres galinhas.

Joubert percebeu que o Jonas menino estava com um ar diferente, e perguntou,

-O que você está pensando, mas ele nem ouviu a pergunta.

Quais eram os pensamentos do Jonas? A miragem mostrou os pensamentos.

Ele estava no paiol de milho da fazenda, selecionando as espigas para pegar as palhas mais macias, para fazer as petecas. Fez duas petecas, e depois foi ao galinheiro com um pouco de milho, selecionar as galinhas para arrancar as penas das asas. Ele fez isso depois de um dia estafante de trabalho, mas, ele estava vivo, esperto, e o que era mais importante não eram as petecas, era o que estava sentindo. Parecia que andando para lá e para cá, ele deslizava suavemente dentro do liquido maravilhoso da paixão e construindo as petecas, e colhendo as penas, ele estava mergulhado na fantasia que sua mente criava facilmente e prazerosamente.

Olhando estas cenas Joubert pensou, que férias maravilhosas eu tive!

As lembranças faziam Jonas sorrir e mudava a tonalidade da água da lagoa para um azul claro, o céu também mudou de nublado para um azul celestial e ouvia-se a canção na voz do Francisco Alves e que dizia,

“Maria Helena és tu,

“A minha inspiração,”

Ao ouvir a canção, Joubert se emocionou muito e teve ímpetos de choro, e seus olhos se encheram de lagrimas.
Joubert tinha acabado de saber que a coisa mais importante é a emoção. Aparentemente era a menina que havia despertado o amor do Jonas, mas, de fato o que mexe com a pessoa e a transforma é a emoção, a paixão e que não some. A menina durou apenas um verão, cresceu e já faleceu, mas a paixão continua viva. Ele nem se lembra do nome dela.

Para seus irmãos a coisa mais importante foi a emoção do prazer de passar as férias com as primas.

Jonas teve duas opções e escolheu a que lhe produziu a maior emoção e que era ficar perto dela.

Jonas comentou, eu não me lembro de ter escolhas, penso que a emoção gerada pela visão das férias perto dela não permitiu a escolha. Quem decidiu foi a emoção, não fui eu.

Joubert olhou Jonas profundamente, mas percebeu que estava de fato olhando para se próprio, para suas lembranças, e pensou, porque será que sendo a emoção a coisa mais importante, a gente se lembra da pessoa?

Ficou ali sentado olhando a lagoa à sua frente como se ela fosse a sua memória, e ali estavam todas as suas experiências e lembranças. A lagoa era ele e tinha muitas lembranças, pois já estava nos 75. Quando Joubert sentiu isso, novamente lagrimas escorreram por sua face. Ele estava alternando muito rapidamente dos 75 anos para os 12 e talvez menos ainda, para os 5, 4, 3, e ninguém poderá saber, nem ele próprio. Ele sabia que estava sentado na varanda de sua casa, mas estava também vivendo a miragem, vivendo o passado, estava gostando de se ver naquele menino apaixonado e vibrante.

Dizem que ele ficou nessa viagem ali sentado, na busca de entendimento de si próprio, de sua vida, durante muitos e muitos anos. Você sabe que se pode passar uma eternidade num pensamento de poucos segundos. A imaginação é muito rápida, mas ele ficou nesse processo apenas cinco minutos contados pelo relógio.

Naqueles breves momentos, naqueles poucos segundo, ou minutos, ele voltou às eras mais primitivas do homem e viu que naquele inicio da vida, o homem era uma vida biológica comandada pelas emoções. Esse negocio de planejar e analisar, olhar para o futuro e decidir, veio muitos milhões de anos depois e veio para ajudar, porque a vida do ser humano é longa, é das mais longas dos seres, mas ainda hoje o poder de decisão é das emoções.

Mas estes pensamentos não responderam à pergunta dele.

E qual era a pergunta dele?

A pergunta era, porque será que sendo a emoção a coisa mais importante, a gente se lembra primeiro da pessoa?

Joubert voltou novamente para dentro de si, e sentiu um estalo lá dentro e sorriu. A resposta tinha acabado de chegar, mas era a resposta dele, poderia ser ou não de outros.

E qual foi a resposta dele?

Joubert estava vendo uma parede enorme com prateleiras com pequenos boxes ou caixinhas do tamanho de 20×20 cm, e uma profundidade normal de uns 30 cm. Havia milhares dessas caixinhas, e na portinha de cada uma delas um nome, ou uma imagem, uma foto, uma musica, um som, um cheiro, um tato, um sabor, qualquer uma das sensações dos cinco sentidos e que é a identificação de cada caixinha onde está armazenada uma emoção.

Esta imensa prateleira é a memória das experiências e das emoções, é o armazém de suas coisas mais importantes. Cada episodio ou cena com as emoções, está armazenado numa caixinha e que é acessada pela identificação. Essa identificação, a PNL- Programação Neurolinguistica chama de ANCORA e é o gatilho que acessa e traz a experiência à consciência e permite você vivenciar novamente aquele momento que aconteceu no passado, mas que está vivo no presente e vai continuar vivo no futuro, à sua disposição para mostrar como tem sido a sua vida.

Exemplos de ancoras são, uma musica que te faz recordar um momento de emoção forte, ou um cheiro, ou um sabor que te trazem a cena daquele jantar. Se você sentir o cheiro do limão, você começa a salivar. Se ouvir o grito do gavião, voltará no tempo, se ver a camisa do flamengo idem, se ver a foto de uma cachoeira vai se lembrar daquele passeio no parque do Caparaó, etc. É por causa desse fenômeno que todos estamos sempre fotografando e filmando nossos momentos mais felizes. Anos depois, você vê a foto e a emoção daquele momento voltará. Talvez não todas as fotos, porque é necessário uma conexão forte entre a cena e as emoções. Da mesma forma somente algumas musicas trarão à superfície uma lembrança cheia de emoções.

Você pode construir outro local que lhe agrade mais para colocar suas prateleiras com as caixinhas, como um salão tipo biblioteca, um local moderno solto no espaço, mas de fácil acesso, um túnel bem escondido e privado, etc.

O que importa é que essas caixinhas são o seu maior tesouro, talvez o único, porque você nunca vai perdê-lo, a não ser no final da vida. Ninguém pode tirar isso de você. E quando você aprender a mudar as experiências ruins para boas, você estará aumentando seus momentos de amor, de paz e de felicidade. Todo o seu conhecimento, todas as suas experiências, todos os seus recursos para viver, está tudo ali. Alguns de fácil acesso, outros só aparecem ocasionalmente quando sua ANCORA é acionada e o gatilho disparado. Dizem que grande parte desse tesouro ainda está inconsciente, isto é de mais difícil acesso.

Uma idéia de como funciona esse gatilho, é a palavra que você digita no Google. Por traz dessas caixinhas existem conexões umas com as outras, de modo que quando uma é acessada, outras experiências e emoções também são lembradas. Joubert lembrou-se de um exemplo disso. Ele e Janaina estavam comendo pastel com cerveja e ouvindo o Concerto para uma voz de Saint Preux, e sem mais nem menos, Janaina falou, “hoje à tarde vou telefonar para o pedreiro Gomes vir ver o serviço na área da cozinha.

Queremos tudo pronto para as visitas do dia 31.”

-Meu bem, como é que você de repente lembrou-se de um assunto tão diferente do que estamos fazendo?

Ela pensou um pouco e disse, “eu estou olhando o aparelho de som em cima do fogão à lenha, e pensando em arrumar este local, e pensando em arrumações, veio-me à memória o serviço da área da cozinha em chamar o Gomes.

Janaina estava conectando as ligações por traz das caixinhas, e cada uma delas se acendia e a informação com a emoção vinha à superfície. Ela estava fazendo o que se denomina associação de idéias, que permitiu ao gênio de Freud inventar a terapia que chamou de psicanálise.

Lembranças é um reviver, ou simplesmente é viver, e o que faz você sentir a vida é a emoção. Então, viver é estar sob o efeito de uma ou mais emoções. Dizem que mesmo a pessoa em coma, ou sob anestesia, ou inerte na cama aparentemente sem saber o que está acontecendo, todos estão sentindo emoções. Também dormindo e sonhando, estamos nos emocionando.

A pessoa, o carro, a musica, a fotografia, o cachorro, o gato, todos passam, mas as emoções ficam. As emoções fazem o ser, e sem elas o que você tem é um robô. Imagine um ser que não sinta a emoção da vontade de comer, ele não procuraria comida e não duraria nada. Ou um ser que não tivesse a emoção do prazer sexual, não haveria a continuação da espécie e a vida se extinguiria.

As emoções são as responsáveis pelas gravações na memória. Não havendo emoção, por exemplo, a indiferença total, nada é gravado, embora a indiferença total seja quase impossível. Alem de gravar a cena, a emoção grava o responsável pela experiência, que pode ser uma pessoa no caso do Jonas, mas pode ser algum objeto, alguma comida, algum odor, um carro, etc. e que chamarei de sujeito responsável. O cérebro grava a figura desse sujeito juntamente com a experiência. No caso de uma paixão por alguém, esse alguém é gravado diferentemente de uma foto ou filme, ele é gravado com as sensações, e estas trazem um bem estar, uma felicidade, que fazem a gravação produzir uma mágica em que a pessoa muda a realidade para favorecer esse sentimento maravilhoso que está sentindo.

Existe a figura do anjo arqueiro que dispara uma flecha na pessoa atingida pela paixão. Algumas outras pessoas gostam mais de uma bala de pistola que atinge e se aloja no cérebro do apaixonado(a) e ali ela libera alguns líquidos ou gases que cegam o cara, e por isso se diz que a paixão cega.

Esta expressão, o amor cega, se origina do fato de que o cérebro constrói imagens de tudo. Quando você vê algo, você está de fato vendo uma imagem interna que é gerada por correntes elétricas e neurotransmissores no córtex que é uma camada de uns três milímetros, abaixo da caixa craniana. Essas correntes elétricas são geradas pelas freqüências luminosas emitidas pelas coisas que você está olhando.

Aí você pergunta, como é que a pessoa vê um sujeito mal vestido, desarrumado, etc., mas quando o descreve, o faz de forma favorável? A resposta é que a pessoa cria a imagem interna de acordo com seus sentimentos, suas emoções. Se forem favoráveis, a criação será também favorável e se for desfavorável a criação certamente vai botar muito defeitos nas imagens e o criador terá uma memória ruim dela.

Repetindo, quando você vê algo, você está de fato vendo uma imagem interna e associada a cada uma tem sentimentos que indicam o valor emocional da coisa ou pessoa. Pode ser qualquer coisa, como uma mesa, um sapato, uma roupa, o carro, a cidade onde mora , a rua, os governantes, seus relacionamentos, seus familiares, etc. As lembranças vão se modificando ao longo do tempo, podendo melhorar ou piorar conforme vão mudando os seus julgamentos. As coisas não mudam, mas os sentimentos, sim.

Existe a sabedoria popular que diz, o tempo cura as feridas.

Jonas estava intrigado com toda essa teoria, e tentando entender sua grande paixão.

Joubert continuou, dizem que o grande problema dos relacionamentos amorosos fortes, é que no inicio o poder da bala é tão grande que só de sentir ou pensar mesmo inconscientemente, o coração dispara com emoções super agradáveis, mas com o passar do tempo você vai acrescentando descrições detalhadas e enfraquecendo a bala, que vai perdendo o poder, e com isso, você começa a enxergar a pessoa de modo diferente. Antes você e a pessoa estavam fundidos numa só entidade, e agora começa a haver a separação. Isto dá a sensação de que você está enxergando a outra pessoa e a magia original desaparece.

Joubert sentia que estava andando em terreno escorregadio.

Como é isso? Olha, geralmente, a paixão permanece na caixinha original, mas você cria outra caixinha onde uma nova emoção, novos sentimentos vão ocupar. Estes novos sentimentos, são para a mesma pessoa, mas agora com novos significados emocionais.

Mas a paixão original está lá cutucando querendo voltar a dominar, e produz uma sensação de estar fazendo falta, produz um desconforto, e a pessoa começa a responsabilizar o outro, o suposto outro que está de fato no ser cérebro. Você começa a construir outro, mas com defeitos que você coloca. Este processo é fácil de ser entendido se lembrarmo-nos de que na paixão original o outro é um ser perfeito. Com o passar dos meses e anos você vai colocando sua atenção nas coisas que te incomodam e começa a ver defeitos no antigo ser maravilhoso.

O amor é a força construtiva, e a raiva, o ódio a força destrutiva, e se esse processo continuar, o desapontamento, o desconforto vão aumentando e as coisas podem acabar numa separação dentro de sua mente, que pode acabar numa separação real ou mesmo numa tragédia.

Esse processo de se criar uma pessoa no cérebro da maneira que mais lhe convém, podendo ser uma pessoa muito boa ou ruim, e você pensar que está de fato vendo a pessoa real, chama-se popularmente de alucinação leve, para diferenciar da alucinação pesada quando a pessoa vê alguém que não existe, e não tem consciência disso. Na alucinação leve você pode usar a consciência e julgamentos para perceber o que está acontecendo de fato.

Jonas perguntou, afinal quem é real, o que está no cérebro, ou a pessoa fora do cérebro, que está ali na sua frente?

Joubert respondeu muito serio e com os cenhos franzidos, olha Jonas, o fato é que a pessoa fora nunca existe realmente, porque você está sempre vendo a imagem dela que contem o retrato e os sentimentos que você coloca nela. Com o passar dos dias, meses e anos você pode vir a conhecer as características da pessoa, ou seja, suas emoções, o amor, as raivas, as alegrias, os gostos, suas reações, seus valores, SUAS REGRAS, e assim você pode ir modificando sua construção original e aproximá-la o mais possível do ser real à sua frente.

Olha Jonas, você se lembra de que aquela garotinha de fato nunca se interessou por você, nunca quis brincar com você, mas você construiu um filme maravilhoso real para você, mas que era uma quimeras, uma fantasia.

-É verdade, e ate hoje, mesmo sabendo disso o filme continua verdadeiro, despertando aquela emoção, e paixão. Ela já morreu, e ainda hoje eu poderia ajoelhar aos seus pés e ficar olhando, somente olhando e emocionado como está acontecendo agora.
Este processo alucinatório natural pode fazer a pessoa entrar num grande sofrimento sem saber que tudo está acontecendo dentro da sua cabeça, no cérebro.

Por que a natureza criou esse mecanismo que às vezes parece tão cruel?

Para responder a essa pergunta, vamos voltar ao início da vida nas cavernas e nas matas, e dos perigos que ameaçavam e liquidavam uns e outros.

Imagine que você é um BRUCUTÚ, um homem das cavernas e que sai para conseguir alimentos, sai para caçar. Antes de sair, você se põe a imaginar como é a trilha, os prováveis animais perigosos, ou outros inimigos, como eles se comportam, isto é como eles pensam! Para isso você tem de alucinar, tem de imaginar colocando as emoções de um vencedor e também do medo para forçar seu cérebro a analisar as ameaças e construir uma estratégia de sucesso.

Pergunta, você consegue imaginar um caçador sem essa habilidade de imaginar? Sem isso ele não teria condição de se preparar para sua defesa ou ataque. Ele seria um bobo no meio da mata. Ele tem de alucinar! A natureza é sabia.

No processo da imaginação, você coloca no outro todas as coisas que considera boas, ou más, dependendo se está construindo uma amor ou um ódio. Amor e ódio que estão em você.

Você constrói à sua semelhança. Que semelhanças? Semelhanças das coisas mais importantes, as emoções.

Podem ser as emoções de prazer de gostar das mesmas comidas, mesmas musicas, de construir as mesmas fantasias e alucinações. Ou podem ser as emoções negativas, no caso de estar construindo uma relação de ódio ou raiva.

Você pergunta, mas não é sempre assim? Não é assim que a mente funciona?

– A mente faz tanta coisa que temos somente uma pálida ideia do que ela é capaz de fazer, de modo que a expressão “a mente funciona assim” significa muito pouca coisa.

Mas você tem razão quando afirma que a mente está sempre criando as coisas, as cenas, os filmes, antes de elas acontecerem na realidade. Então ela está sempre criando o que ainda não existe.

Qual é então o problema?

É comum a pessoa não usar a consciência, os controles, os julgamentos, para ver que se o que pensando e criando poderá ou não se realizar.

-Será que você está querendo dizer que se a criação da mente pode se realizar, então não se trata de alucinação, mas se não tem a mínima chance de acontecer então se trata de alucinação. É isso?

O que é afinal alucinação?

Estou usando a palavra alucinação, mas o mais comum é o uso da palavra sonhos e quem determina se o sonho se realizará ou não, é a mente do sonhador. A mente tem realizado coisas incríveis de muitos sonhadores. O melhor entendimento do poder da mente, é que ela pode qualquer coisa, tanto coisas maravilhosas, boas, ruins e ate assustadoras.

– Existem as coisas rotineiras da vida que não despertam emoções fortes ou paixões, e existem as coisas que fazem você mergulhar na paixão. Pode se tratar de uma pessoa, ou uma idéia, um projeto, um estudo como, por exemplo, ser um musico, um artista, etc. e são nestes casos que podem acontecer a alucinação, não de criar a existência de pessoas ou coisas, mas de criar acontecimentos com a participação do outro sem que haja essa possibilidade. A pessoa pode desenvolver um grau de emoção enorme pelo outro, que nem está sabendo , e isso não é percebido pela pessoa. Neste caso o juízo da consciência é totalmente derrotado pela paixão.

Alguém disse, somos todos alucinados, por que essa é a maneira do cérebro ver, ele não vê a realidade, mas o que está lá nele, e da maneira que ele constrói, de acordo com suas conveniências.

Joubert voltou a si e disse a Jonas, desculpe-me, penso que exagerei um pouco mas foi bom, ajuda a me conhecer mais e a responder a outra pergunta, quem sou eu, no mais intimo do meu ser e separar o que alucino do que o outro é realmente e assim poder ter melhores escolhas. Isto não acontece assim de repente, mas é um processo que leva uma vida inteira e quando acabou de dizer isso, a lagoa tornou-se maior, e bem no centro dela surgiu uma casa grande.

Ele olhou bem e viu que era um mosteiro, e por ali circulavam varias pessoas, algumas eram meninos, outros jovens, adultos, e alguns idosos. Joubert lembrou-se de ter lido, que um mosteiro pode ser interpretado simbolicamente como momentos em que você está só, calmo e tranqüilo e está em reflexão, praticando algum tipo de meditação. Ele olhou com mais atenção e notou que todos ali eram Jonas, vários Jonas, e havia um Jonas na sala do Mestre que estava lhe dizendo, “você já está aqui há muito tempo e sempre procurando conhecer as minhas verdades, mas a vida aqui não é a vida normal; chegou a hora de você ir viver sua vida normal e rica, com momentos agradáveis e também desagradáveis, a vida para a qual os seres foram desenvolvidos,e procurar conhecer suas coisas mais importantes. Após isso, Jonas deixou a sala do mestre, e saiu caminhando sorrindo, ouvindo o grito do gavião e a musica que dizia,

Mara Helena és tu,

A minha inspiração.

A casa foi se afundando na lagoa que também foi sumindo e Joubert se levantou, entrou na casa, caminhou ate a sala onde estavam todos, que gritaram, ai vem o nosso Bhuda e caíram na gargalhada, e ele também riu gostosamente.

Jose Augusto Sathler
CIDADE ONLINE
07/07/2015

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