Candidato a “macho dominante”

Neste 03/08 a TV Câmara poderá ter um pico de audiência. Com a reabertura dos trabalhos poder-se-ia ter o “Show do Cunha”, que seria candidato a “macho dominante”, galvanizando a atenção da Nação. Algo possivelmente previsível.

Depondo em 16/07 o doleiro Alberto Youssef fez a acusação: “Eu venho sofrendo intimidação perante as minhas filhas e a minha ex-esposa por uma CPI coordenada por alguns políticos. Como réu colaborador, quero deixar claro que eu estou sendo intimidado pela CPI da Petrobras por um deputado pau mandado do senhor Eduardo Cunha.” Respondendo, o presidente da Câmara de Deputados chamou Youssef de mentiroso e rompeu com o governo, mas não interpretou a acusação como um ataque à Câmara como um todo, nem determinou que a Procuradoria Parlamentar da Câmara ingressasse com interpelação judicial para que o doleiro esclarecesse que tipo de ameaça teria sofrido. Só fez isso, agora, após a advogada Beatriz Catta Preta repetir a acusação.

Por que reações distintas? Possivelmente porque interpelar Youssef seria como enxugar gelo. Já a advogada cria um palco onde poderia aparecer.

A estratégia seria do candidato a “macho dominante” de um grupo. Primeiro se isola, rondando o grupo, apontando os erros de quem o domina para, num momento que surge inesperadamente, apresentar-se como defensor do grupo.

O presidente da Câmara estaria nos conduzindo por um caminho incerto. Já anunciou que não haverá “agenda bomba”, destacando que a pauta é a mesma quando o Congresso entrou em recesso. Estaria, assim, se declarando isento de qualquer responsabilidade se algo inesperado acontecer, como se não tivesse responsabilidade no preparo da pauta em cada sessão da Câmara. É, exatamente, o oposto.

O futuro pode se tornar complicado. Eduardo Cunha, terceiro na linha de sucessão na presidência, está na lista de acusados entregue ao STF. Como estaria empenhado, embora negando, num eventual processo de impedimento da presidenta e cassação dos mandatos da presidenta e seu vice, pelo TSE, há a inconfortável circunstância, caso esses duas hipóteses se concretizem, de se ter alguém sendo julgado e condenado enquanto exerce o cargo de presidente.

Nesse futuro há a se considerar, também e especialmente, que decisão tomará Fernando Soares. Na edição da revista Veja de 05/08/2015, especula-se que estaria disposto a aceitar uma pena de 15 anos, cumprir dois e a partir dai ficar livre para usufruir dos milhões de reais que teria roubado da Petrobrás. Seria um raciocínio simplório. As acusações são pesadas e Fernando poderia ser condenado a mais do que isso. É uma situação mais difícil do que a de Renato Duque e o deputado Eduardo Cunha teria que estar absolutamente certo de que será inocentado ou de que a pena de Fernando será, de fato, de 15 anos ou menos, mantendo-se em silêncio até o fim.

De novo é a estratégia do candidato a “macho dominante” que encontra um aliado disposto a sofrer pesadas perdas em troca de futura recompensa. A pergunta, então, seria: se Eduardo Cunha conseguir manter-se na posição que ocupa e passar incólume no julgamento no STF, por conta do silêncio de Fernando, o que este conseguiria como prêmio? Como se especula que não estaria bem psicologicamente, estaria passando por um período de reavaliação de alguma promessa que talvez não possa vir a ser cumprida?

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
03/08/2015

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