Cabo Frio: quanto mais se reza mais assombração aparece

O que mais incomoda é o que seria uma covardia: o poder econômico de uma construtora querendo construir um hotel que obrigaria mais de 200 famílias a se mudarem. Famílias de pescadores, gente que lá está faz 100 anos, talvez mais.
A foto de um hotel nas proximidades do Forte São Mateus, na Praia do Canto, ou Lido, ficaria parecendo uma pintura de Salvador Dali: surrealista.
Talvez tenha havido um concurso para um projeto do mais puro mau-gosto e o prédio seria usado para filmagens de episódios da série “Família Addams”. O vencedor escolheu Cabo Frio, lugar onde o que não falta é dono de área com características que sempre foram os atrativos da cidade.
Mas, para que preservar? O que poderiam aquelas 200 famílias fazer senão aceitarem a chegada do “progresso”, o dedo nervoso de defensores da proposta enviando mensagens pelo seu celular aos investidores, “É uma gente muita chata, mas deixa comigo porque lhes garanto bons lucros”.
Ao que resta àqueles 200 famílias é protestar. O raciocínio dos que querem suas terras seria menos do que simplório: propor uma audiência pública quando o que até agora fizeram teria sido se passarem por surdos e analfabetos.
O IPHAN já disse “não”. Eles ouviram? Não, não ouviram. O IPHAN já lhes mostrou a lei. Teriam lido? Pela devoção com estariam atuando, não. Não teriam, não querem ter e teriam raiva de quem propôs e aprovou a lei.
“Nós temos a força, dinheiro, influência”, estariam dizendo. “Portanto, mexam-se, saiam dai porque somos donos do lugar”, estariam insistindo.
O que teria comentado a pessoa que se vê e ouve no vídeo publicado nesta revista? Teria admitido ser um erro deslocar aquelas 200 famílias? Teria ficado sensibilizado pelos seus argumentos? Ou teria dito, lá com seus botões, “Mas que gentinha é essa que ousa se opor ao projeto?”.
Com o devido respeito à construtora, pegue seu TAC e o taque em outro lugar. Diz-se dona do morrinho no Lido, praia do Canto, junto ao Forte São Mateus. Desde quando? Herdou de algum soldado português que construiu o forte? Sendo dona do morrinho, porque não disse isso há 20, 30, 60 anos atrás?
Falta pouco para alguém aparecer e se dizer dono da Praça Porto Rocha.
Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
10/07/2015

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