Cabo Frio dos anos 60 serviu de inspiração para canções famosas

Roberto Menescal conta como compôs O Barquinho, navegando no mar de Arraial do Cabo.

A Bossa Nova, marcada por um misto de ousadia e otimismo, revelou artistas pra lá de conhecidos aqui e do outro lado do oceano. Alguns se aventuraram como intérpretes, outros se arriscaram como compositores e, sem a menor intenção, fizeram uma grande revolução no cenário musical nacional.

No início foram muitos questionamentos sobre a nova maneira de se fazer música, mas a leveza do novo ritmo caiu no gosto popular e completou no ano de 2008, 50 anos de história. São incontáveis as composições de sucesso que fizeram e fazem parte do cotidiano. Doces e inconfundíveis melodias já serviram como pano de fundo de filmes e, principalmente, das cenas da vida diária. “Chega de Saudade, “Benção Bossa Nova”.

O que pouca gente sabe é que algumas dessas músicas, e outras, tiveram como fonte de inspiração a cidade de Cabo Frio dos anos 60. Para falar melhor sobre essa envolvente relação da música com a cidade, Roberto Menescal abre as portas do seu passado nos convidando para uma viagem musical.

O compositor dispensa apresentações. É conhecidíssimo como um dos fundadores da bossa nova, que se apresentou ao mundo na década de 60. Dotado de uma versatilidade musical, o capixaba mais carioca de todos os tempos desenhou o seu destino ainda na adolescência.

Foi tudo por um acaso – será? Aos 11 anos ganhou uma gaita do seu pai e tirou notas do instrumento sem o menor conhecimento técnico. Surpreendendo a todos pela precocidade, arrancou uma frase do seu pai que, segundo o compositor, foi determinante na sua vida: “Você leva jeito para a coisa!” Depois de ter experimentado a gaita, o piano clássico e o acordeom, ‘Menesca’, como é carinhosamente chamado pelos seus amigos, caiu nos braços do violão e nunca mais a sua vida foi a mesma. Roberto Menescal começou a fazer composições, o que lhe rendeu, após alguns anos, fama internacional. Já dizia sua música, “Sem intenção nossa canção, vai saindo deste mar e o sol beija o barco e luz, dias tão azuis”. E foi assim, sem pretensão, que nasceu, em 1961, uma das mais conhecidas composições da música brasileira: “O barquinho”.

A música, que estourou nas rádios durante a tal época, foi fruto de uma tarde de passeio pelos mares de Arraial do Cabo, que na época era distrito de Cabo Frio. Saudoso, o compositor revela sua história. “Eu sempre ia à Cabo Frio. Meus amigos me cobravam, pediam para levá-los comigo. Até que um dia eu combinei e levei todo o grupo. Estávamos eu, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, entre outros, passeando pela Ilha do Cabo (também conhecida como Ilha do Farol) quando, de repente, o barco enguiça por volta das 15h. Ficamos à deriva durante duas horas. E nesse meio tempo, eu comecei a brincar com a manivela do motor, que fazia um barulho do qual eu tirei a melodia da música, mas tudo de brincadeira! No final da tarde, fomos resgatados por uma traineira que vinha da Bahia. E foi nesse momento que começamos a cantar: o barquinho vai, a tardinha cai…”

Um dos primeiros intérpretes da música foi Pery Ribeiro, mas quem fez a canção cair de vez no gosto popular foi a cantora Maysa. O Brasil pode conferir na minissérie “Maysa, quando fala o coração” o estrondoso sucesso que a música fez naquela época. “Isso nos ajudou muito, porque a Maysa era um grande nome e deu o seu aval à Bossa Nova. Foi bom demais!”. E o barquinho passou a deslizar pelas ondas das rádios.

Cabo Frio proporcionou diversos momentos de sinestesia para esses cariocas. A relação daquele grupo de amigos com a cidade foi intensa. “Cabo Frio foi inspiração de grande parte de nossas músicas, mas o pessoal de lá não acreditava”, explica o músico ao relembrar de um momento engraçado durante um dos passeios de barco pela cidade, onde o barqueiro perguntou à ele e ao Bôscoli sobre a profissão de cada um. “Eu não sabia o que falar para o Cecí, que sempre nos levou para pescar no seu barco. Quando o Ronaldo Bôscoli disse que éramos artistas, ele não acreditou. Mas de repente começou a tocar no rádio “Nós e o mar”, e o Ronaldo pediu para o Cecí prestar atenção na música. No final, o locutor disse: ‘Nós e o mar, com Maysa, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli’. Foi quando o Bôscoli falou para o barqueiro: e aí, viu? Mas o Cecí não se deu por satisfeito e disse que no mundo poderia existir vários homens chamados Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Ele nunca acreditou, era muito distante da realidade dele ter dois artistas dentro do seu barco, em uma cidade pequena”.

A relação de Roberto Menescal com Cabo Frio vai além das suas composições. Foi em uma das viagens à cidade, na década de 60, que ele conheceu sua esposa. A lua-de-mel não poderia ter sido em outro lugar. O casal permaneceu no local durante dois meses vivendo de pesca, cercado pela brisa inconfundível que percorria o vilarejo. Foram muitos anos de história, de trabalho intenso na construção de uma carreira bem sucedida, mas apesar do tempo de estrada e do sucesso, o músico deixou de compor e tocar durante 16 anos. Nesse tempo, ele atuou apenas como produtor musical de grandes nomes que variavam entre Sidney Magal a Chico Buarque, marcando a sua pluralidade musical.

Falando em trabalho, o público pode conferir seu último DVD, cujo título não poderia ser mais adequado: “50 anos de Bossa Nova” contou com a participação de cantores como Pery Ribeiro, Wanda Sá e Leila Pinheiro, entre outros. Um frescor para a memória musical. O próximo lançamento será o “Bossa Jam”, em parceria com o guitarrista do “The Police”, Andy Summers, acreditando em mais uma expansão para a música brasileira.

Esse está sendo um ano (2009) um tanto quanto diferente para o músico, que não fará novos projetos para se dedicar aos afazeres da sua gravadora. E para além do universo das notas musicais, esse também foi o ano do reencontro com a cidade de Cabo Frio. Em janeiro, após uma rápida passagem para festejar o aniversário do seu irmão, aquele, segundo o próprio, que “foi o lugar mais lindo do mundo”, se “desconfigurou”.

“Já fiquei impressionado por não conseguir chegar fácil ao lugar onde meu irmão mora, onde já tive também uma casa. Para chegar ao local da festa, não tive uma grande sorte, pois peguei um daqueles dias em que a água do canal, que normalmente é cristalina, estava quase preta! Depois, soube que foi por causas não normais. À noite, passava num canal de TV local, uma vista do calçadão da Praia do Forte, aí então pirei, pois quando me lembro dali somente com dunas… não entendi mais nada. Resolvi então não passar por mais nenhum lugar e guardar na minha memória o que foi para mim o lugar “mais lindo do mundo” e que me deu inspiração para grande parte de minhas músicas.” de todo o país.

Aquele menino, que aos 11 anos começou a se envolver com a música, viu as portas do mercado fonográfico se abrindo. Essa não foi a única composição feita nas terras da Região dos Lagos. O músico relembra um dos momentos em que, sentado nas dunas da Praia do Pontal (entre Cabo Frio e Arraial do Cabo), ao lado do seu amigo Ronaldo Bôscoli, fez nascer “Nós e o Mar”. “Lembro que eu e Bôscoli estávamos sentados na Praia do Pontal durante o entardecer. De lá, tinha-se visão de toda a extensão da Praia do Forte, mas à medida que o sol foi se pondo, a praia foi sumindo. E por isso, a primeira frase da música foi ‘Nossa praia que não tem mais fim, acabou'”.

Matéria publicada na Revista CIDADE/maio2009
Texto:João Phelipe Soares
Foto Roberto Menescal: Vinícius Condeixa

 

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