Cabo Frio: De Quatrocentão a “Quatrosemtostão”

Cabo Frio: De Aniversário Quatrocentão a “Quatrosemtostão”
Cabo Frio: De Aniversário Quatrocentão a “Quatrosemtostão”

Cabo Frio: De Aniversário Quatrocentão a “Quatrosemtostão”

Poucas pessoas, hoje, iriam querer estar na pele do secretário municipal de Cultura de Cabo Frio, José Facury Heluy nesses dias que antecedem a tão propalada festa de aniversário dos 400 anos da cidade, chamada, há muito, de “Quatrocentão”.

Entenda-se por “há muito”, desde que as urnas ungiram Alair Corrêa o atual prefeito, e lhe deram a honra de ter em seu mandato a oportunidade de realizar essa grande festa que pretendia celebrar a cultura e a história de uma das cidades mais antigas do Brasil.

Desde os primeiros dias, antes mesmo de Alair tomar posse, o evento já estava configurado e seu comandante definido, cheio de (boas) idéias na cabeça para fazer um evento que durasse dias e entrasse para a história.

O que ninguém esperava era que a “fonte secasse” e os recursos abundantes dos royalties se tornassem minguados “caraminguás”, pegando todos os prefeitos dos municípios que deles dependiam, literalmente, de calças curtas.

Cabo frio, que já chegou, nos áureos tempos das obras faraônicas, a receber 37 milhões de reais mensais advindos dos royalties, viu, no último mês, pingar na conta “apenas” 3 milhões de reais.

Quando assumiu, aliás, quando em campanha, Alair prometeu resgatar o Segundo Distrito, resolver as históricas pendengas da Saúde Pública e trazer de volta à Cabo Frio o título de “cidade mais limpa do Brasil”.

Mas, nos primeiros dias de mandato vieram as já as alegações de sempre, de dívidas herdadas, necessidades de adequação e coisa e tal.

Em contrapartida, o que sempre se soube é que os recursos dos royalties vinham sendo usados como “prêmios de loteria”, aquele tipo de dinheiro que surge sem que se espere, em grande quantidade, e que permite que se realizem sonhos de consumo ou, no caso das administrações municipais, despesas não programadas voltadas para melhorias e que só garantiriam bônus políticos que, certamente, garantiriam o futuro dos administradores

Hoje, porém, a realidade é bem diferente, e mostra como aqueles administradores que poderiam garantir seus futuros políticos com a “grana extra” dos royalties, meteram os pés pela cabeça e, agora, enfrentam dificuldades que jamais esperavam passar, por pura e simples falta de planejamento.

O Aniversário “Quatrocentão” de Cabo Frio, virou aniversário “Quatrosemtostão”. Festas diminuídas, shows de grandes astros fora de cogitação e, o pior, shows de bandas locais, contratadas às pressas para suprir a ausência dos nomes consagrados da música brasileira, também cancelados, resumindo a festa pelos quatrocentos anos em uma “virada” que, apesar da importância cultural, não terá um décimo do glamour pretendido.

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Falta de aviso não foi
O dinheiro que jorrava nos cofres das prefeituras agraciadas pelos royalties do petróleo já chegou a representar até 80% de suas arrecadações. Os planejamentos para o desenvolvimento ordenado das cidades foi abandonado em detrimento da abundância de recursos para fazer o que se quisesse.

A oportunidade de investir na melhoria do nível educacional da população e na modernização econômica das cidades foi simplesmente negligenciada, servindo a abundância de recursos apenas para contribuir para o surgimento de esquemas políticos nocivos, fundados sobre as bases do assistencialismo.

“O que se vê nessas cidades é típico de lugares onde as instituições ainda não são suficientemente sólidas para lidar com uma mudança tão grande de patamar econômico”, explica o economista Fernando Postali, da universidade de São Paulo (USP), em recente reportagem sobre a derrocada dos municípios “banhados” pelos recursos dos royalties.

Postali é autor de um estudo que comparou a evolução da economia em cidades de mesmo tamanho dentro e fora do raio do petróleo (royalties), baseado em dados de 1996 a 2009. A conclusão é bem a cara do que acontece com Cabo Frio: justamente as que receberam royalties cresceram em ritmo mais lento do que as outras que estão distantes dessa riqueza. Em sete deles, o número de postos de trabalho aumentou de forma inexpressiva. A maioria, segundo o estudo, também viu sua posição despencar nos rankings nacionais que medem a qualidade da Saúde e da Educação. Alguém consegue enxergar Cabo Frio nessa constatação?

Em recente encontro de prefeitos, secretários e empresários interessados em investir nas cidades abrangidas pelos royalties do pré-sal, realizado pela Firjan – Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro –, indagou-se a esses gestores qual era o plano que tinham para a crise que se avistava, mesmo após a região ter recebido cerca de 14 bilhões de reais até 2014.

A resposta foi um incômodo silêncio.
“ficou claro que esses municípios não têm, nem nunca tiveram, um planejamento para um futuro pós royalties. Nem mesmo quais tipos de empresas poderiam alavancar o desenvolvimento posterior eles souberam responder”, disse o economista Cristiano Prado, gerente de competitividade da Firjan.

É por essas e outras que o Aniversário Quatrocentão, virou “festinha Quatrosemtostão”. E as cidades vizinhas que se preparem, pois, raras exceções, daqui pra frente, será nesse modelo…

Luciano Moreira

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