Cabo Frio: A história de uma cidade contada pela sua arquitetura

Se essas paredes falassem…

São feitas basicamente de tijolo e concreto, mas se tivessem vida, as paredes dos mais antigos prédios de Cabo Frio cumpririam com excelência o trabalho de pesquisadores: contariam elas mesmas a história desta cidade, desde o tempo de feitoria, quando era comum em seu território – que ia das imediações dos Campos dos Goitacás a Maricá – a exploração do pau-brasil, passando pelos tempos áureos da produção de sal, aos dias de hoje, em cuja principal atividade econômica é o turismo.

Paredes de monumentos como a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, localizada no Centro, o Convento Nossa Senhora dos Anjos, no Largo de Santo Antônio, a Igreja de São Benedito e das casas no entorno dela no bairro Passagem, a Biblioteca Municipal (antiga casa da família Massa), a Casa de Cultura José de Dome – Charitas -, o Forte São Matheus entre outras, constituem, tanto pelos diferentes estilos arquitetônicos, como pela relevância cultural, um rico tesouro histórico, que a duras penas tenta-se preservar. Como foi dito acima, se esses prédios falassem…, contariam, inclusive, histórias que não constam na História.

A missão de manter em pé esses prédios, e vivo todo o conteúdo cultural deles, cabe a alguns poucos órgãos fiscalizadores. Um deles é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ou ainda, ao Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e ao Instituto Municipal do Patrimônio Cultural (Imupac), este último já desativado. De acordo com Manoel Vieira, (chefe do escritório técnico regional do Iphan na época da reportagem), “a importância de se proteger um bem material, seja ele imóvel ou não, reside no valor da sua conservação para a difusão de conhecimentos e significados para as gerações futuras. Mesmo assim, não se descobriu, até hoje, uma maneira de se conservar as formas de percepção de um grupo sobre um dado bem material. Na medida em que o grupo muda de costumes, o valor do bem também se altera”, completa Manoel.

A afirmativa pode ser explicada inclusive pela falta de conhecimento (às vezes até de interesse) de grande parte da população sobre a história que envolve determinado patrimônio, esteja ele tombado ou não. Pode-se ilustrar essa realidade pela velocidade com que as pessoas passam por esses raros edifícios, muitos localizados no centro da cidade, por onde quem transita naturalmente está mais preocupado com o tempo que falta para fechar as portas do banco do que com o tempo histórico, resguardado muito mais em páginas de velhos livros.

Se viajassem ao ano de 1837, quando foram iniciadas as obras de construção do Charitas, milhares de habitantes e visitantes de Cabo Frio tomariam ciência, por exemplo, do contexto político e social em que o prédio foi erguido. A cidade vivia um agravante estado de abandono de crianças, frutos de relações sexuais entre brancos e escravos e índias. Daí a inscrição em latim, “Charitas” (pronuncia-se Káritas), que significa “caridade”.

A “Casa de Caridade”, projeto do major do Imperial Corpo de Engenheiros, Henrique Luiz Memeyer Bellegard, também foi popularmente denominada “Casa da Roda”, devido a existência de uma roda na porta de entrada, onde era colocada a criança e por onde a “dona” da Charitas, matrona, a retirava. Em virtude das inúmeras epidemias que assolaram a cidade no século XIX, a Charitas passou a funcionar, também, como hospital. Na Segunda Guerra Mundial, foi abrigo do primeiro grupo de artilharia do Dorso, sediado em Cabo Frio. O estabelecimento já foi usado também como Fórum, escola e Biblioteca Municipal.

Histórias instigantes como essa, também podem ser contadas pelas construções existentes no bairro Passagem. O conjunto arquitetônico e urbanístico é formado pela Igreja de São Benedito e pelas casas em seu entorno. O bairro é reconhecido como o sítio urbano mais antigo de Cabo Frio. A denominação “Passagem” deve-se a existência, no local, de um porto, às margens do Canal Itajuru, ponto de embarque e desembarque de mercadorias, incluindo tráfico de escravos e do Pau-Brasil, abundante nas matas nativas da região.

O bairro da Passagem é o único conjunto arquitetônico ainda preservado em Cabo Frio, já que no trecho que vai até o Largo de Santo Antônio (caminho que constituiu, em meados do século XVII, a mudança para o novo centro urbano), e onde se encontra o Convento Nossa Senhora do Anjos, poucos prédios restam dos casarios originais que compunham a paisagem do local na época.
“Cabo Frio passou por um processo de modernização dos seus prédios que acabou por sacrificar muitas construções antigas, que como outras possuíam importância histórica e arquitetônica. O Mc’Donalds, por exemplo, foi erguido num local onde antes havia um belíssimo casarão.

Apesar do esforço, nem tudo é possível conservar tal e como era em outrora” explica Manoel Vieira, acrescentando o caso do Pelourinho, datado de 1660, que ficava aos fundos do Charitas, embora o local original fosse no Largo da Matriz, e que agora se encontra no jardim da Casa dos 500 Anos. Nele, eram afixados os editais da Câmara e expostos os criminosos às espera do castigo.

(Matéria publicada na Revista CIDADE em Junho de 2007, com texto de Thiago Freitas e Fotos de PapiPress, Tatiana Grynberg, Marconi Castro)

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