Botânico defende a preservação do campo de Dunas do Peró

(19 de Novembro de 2013)

O botânico, doutor em Ecologia e pesquisador do Jardim Botânico do Rio de janeiro Cyl Farney Catarino de Sá tem sido um intransigente defensor da preservação da área, local de pesquisa para muitos estudiosos de diversos segmentos. Cyl falou com exclusividade para CIDADE sobre a riqueza do ecossistema local e a importância de sua conservação.

1. Você considera o local escolhido para o empreendimento adequado? Por quê?
Desde que o JBRJ foi convidado a tomar assento no Conselho Gestor da APA, de imediato escolhemos entrar no Grupo de Revisão do Zoneamento. Jamais poderia estar de acordo com a ocupação de um local como aquele por diversos aspectos, principalmente pelo que dispõe a legislação e pelo fato de ser um ambiente ímpar no sudeste do Brasil onde a vegetação é extremamente adaptada aquelas condições.

Do ponto de vista da riqueza florística, há outras áreas mais ricas em espécies na APA do Pau Brasil, mas os ambientes de dunas dos complexos Tucuns, Peró e Dama Branca sequer foram detalhadamente estudados do ponto de vista biológico. Causou surpresa por exemplo a riqueza de espécies da herpetofauna nas dunas do Peró demonstrada recentemente no I Encontro Científico do Parque Estadual da Costa do Sol.

É possível empreender alguma coisa ali que não seja a preservação dessa área e de outras áreas de dunas para outros usos ?
Há outras áreas no município, e também em outros municípios, degradadas sim, e que podem receber esse tipo de empreendimento, mas parece que isso não interessa já que muito já se foi falado sobre isso. Eu suspeito que haja alguma coisa relacionada a titularidade da área, onde o baixo custo da aquisição possa estar movendo toda esse fervor em “fazer ali” e “não abrir mão”….mas sou Biólogo, e creio eu que isso seja da alçada de outros orgãos Técnicos. Creio que o SPU deve ser consultado sobre esse assunto. Eu duvido que a União abriria mão de uma área pública como essa.

2. Quando membro do Conselho da APA do Pau Brasil, você renunciou ao assento por discordar dos rumos que estavam sendo tomados em relação à área. O que mudou? Acha que piorou, ou estamos apenas vendo a concretização do que já estava sendo preparado lá atrás?
Eu sugeri sairmos do conselho para ficarmos independentes e podermos ficar muito á vontade. Todo o processo é político, e da pior estirpe possível. O conselho é consultivo, mas a falta de respeito é um acinte a qualquer agente e instituição pública. Não poderíamos continuar participando de foruns onde a falta de respeito supera a tudo. Não poderíamos deixar e colocar o JBRJ numa situação de aceite a essa aberração. Nada mudou no processo, ou seja mudou sim o governo do estado através da SEA (Carlos Minc Bamfeld) e do INEA (Sra. Marilene Ramos) concederam essas licenças. O estrago autorizado no campo de dunas do Peró tem nome, sobrenome, endereços e CPF. O Sr. ex deputado tem ciência da aberração que estava sendo tramada. Eu mesmo enviei uma mensagem a ele na véspera da audiência pública de 2006 solicitando a sua presença ou de algum assessor. No dia seguinte eu soube, por acaso (eu estava participando de um Workshop sobre áreas Prioritárias para a Preservação da Zona Costeira Brasileira e através de um comentário uma colega de trabalho de grupo se identificou com Alba Simom e se apresentou como assessora do Deputado !) que ele havia recebido a mensagem. Foi me dito inclusive que ele havia proposto um PL 2002/2004 para a criação de um “Parque das Dunas de Cabo Frio, ou da Região dos Lagos! salvo engano! Sabendo disso e todas as opiniões técnicas envolvidas, qual o desdobramento ? Essa conta pertence a SEA e ao INEA, que parecem orgão não muito gabaritados a de fato conservar e preservar a Biodiversidade. Veja o que está acontecendo por exemplo com o maior acervo científico (Herbário Alberto Castellanos – GUA) sobre a vegetação de restinga do estado construído desde antes do início da FEEMA (Serviço de Ecologia Aplicado)situado na Vista Chineza. O Acervo está lá sendo guardado pela Naturalista Norma Crud Maaciel, um local ora efervescente de técnicos ficou á míngua, abandonado. Qual a solução encontrada ? Doar o acervo a UERJ! Essa é a solução? Mutilar uma Biblioteca especializada ? Essa é solução ? Esse é o INEA ? Essa é a SEA ?

3. Quais as principais características do ecossistema local? Qual a sua importância? Existem espécies endêmicas? Ameaçadas de extinção?
As dunas são áreas muito especiais já que neste ambiente a extrema insolação, exposição aos ventos, as marés de tempestade induzem as plantas a muitas adpatações. Vivemos numa região extremamente rica do ponto de vista biológico e somos poucos pesquisadores para trabalhar em muitas áreas. No Peró, especificamente temos um estudo publicado em 2005 sobre a vegetação da praia do Peró e neste estudo não há indicações que comprovem a degradação da área como propalado no EIA/RIMA.

Recentemente descobri no Banco de Dados do JBRJ um a espécie de orquídea (Rodriguezia sucrei) descrita na década de 70 a partir de uma único exemplar coletado no Peró. Relatei esse fato publicamente no Encontro Cientifico do PECS. A toda hora encontramos alguma coisa nova. Sabemos que as plantas são importntes na estabilização das dunas, isso já está provado em vários locais do mundo e inclusive já foi provado pelos estudos geormorfológicos na praia do Peró. No segundo dia do Encontro Científico eu estive na Praia do Peró e pude ver o estrago realizado pelos tratores e pude fotografar inclusive áreas onde as dunas estavam movendo-se pelo fato dos tratores terem segmentado as dunas no sentido transversal a dinâmica dos ventos predominantes na área.

Essa área na verdade, o campo de dunas, mescla áreas úmidas de baixios e áreas de dunas vegetadas frontais e áreas de dunas móveis, é um complexo onde as espécies adaptam-se as diferentes condições existentes. É um laboratório a explorar e a ser comparado com estudos nas áreas de dunas do sul e do nordeste do Brasil. Temos muito a aprender.

4. Qual a importância desse sistema para a manutenção do equilíbrio ambiental dentro da área e ao seu redor?
Do ponto de vista da imensa área do Peró, temos também de levar em conta que do ponto de vista hidrológico isso tem que ser levado em consideração já que as dunas e todo o campo de dunas é um sistema que recarrega o aquífero da região. Cabo Frio já teve sua área de aquífero levantada pelo projeto RESUB. Isso precisa ser revisto. As plantas protegem as dunas frontais e dependendo do regime climático ora as dunas estão móveis ora estão mais imobilizadas e o crescimento das plantas e a formação de comunidades de plantas auxiliam nesse processo. Esse é um processo de longo prazo, mas algumas coisas já são notáveis desde que se iniciou o monitoramento das dunas. Por exemplo, há uma rua e um clube (Acquadunas) que já forma engolidas pelas dunas. O que aquela estrada está fazendo ali na direção de dunas ativas? Por que brigar com essa dinâmica? Por que não aceitar os erros e aprender com eles?

5. Você esteve visitando a área recentemente. O que achou da destruição em curso? já afeta todo o ecossistema, ou está restrita a pequenas áreas? Pode ser revertida?
Toda área alterada pelos tratores pode ser estudada e recuperada. É claro que a abertura dessas estradas favorecerá o crescimento de espécies exóticas e invasoras. Isso pode ser estudado e monitorado. Já fiz isso em Saquarema em Jacarepiá na década de 90 do século passado ! rsrsrsrs ! Hoje sabemos um pouco mais sobre recuperação dessas áreas do que há 10 anos atrás. Não precisamos de reflorestamento das dunas, já que nas dunas não existem florestas, precisamos da recuperação das áreas degradadas e da restauração de algumas áreas.

Dunas começaram a ser aterradas para implantação de loteamentos

6. Qual a sua expectativa para a área?
A minha expectativa é que essa área seja parte do Parque Estadual da Costa do Sol. Chega dessa história de APA. As vezes eu sinto raive de mim mesmo por ter escrito salvo engano em 2001 um parecer técnico justificando do ponto de vista da vegetação a criação dessa APA. O Márcio Werneck (já falecido!) criticou o tom de desconfiança em que me pronunciei numa matéria publicada sobre a criação da APA no “O Estado de São Paulo” que a época publicou uma folha inteira sobre a criação da APA do Pau-Brasil. Nos idos de 2004 ou 2005 não me lembro bem, mas foi no lançamento do seu livro ele me fez uma dedicatória reconhecendo que talvez eu estivesse com razão. Guardo essa dedicatória com muito carinho e também certeza.

Minha expectativa é de que essa área seja reconhecida e valorizada como um importante capital ambiental da região dos lagos, e não só do município de Cabo Frio. Apesar de estar no território de Cabo Frio as dunas exercem atração a todos da região e não há quem não se encante quando se anda por ali. Precisa ir ao nordeste conhecer as dunas tendo-as aqui ? É claro que isso não invalida conhecermos as dunas do nordeste, do sul, do Jalapão, na Amazônia…enfim elas exercem fascínio e contam e guardam histórias…histórias geológicas. Que orgão ambiental fluminense é esse que quer jogar fora esse patrimônio ?

As dunas estão em Cabo Frio, as dunas são da municipalidade, e o Prefeito de Cabo Frio sendo cabofriense nato e tendo desfrutado dessa paisagem desde pequeno não pode passar para a história como o “prefeito que permitiu transformar Cabo Frio numa “Costa do Sauípe” mal arranjada e perversa onde paga-se para ir ao mar. Ele não pode e não deve se levar pela cantilena dos empregos de carteira assinada temporários para atrair apenas mão de obra barata e deixar oportunidades melhores para mais estrangeiros. Não sou xenófobo, mas sou da região dos lagos (Sou de Saquarema nascido num lugar chamado Madressilva! longe do mar!) e também assisti a onda turistica avassaladora e destruidora que caiu sobre a região como se fosse a salvação.

O desenvolvimento….! muita burrice foi feita: “vamos limpar o terreno” desmatava-se e queimavam-se pitangueiras, abius, abajerus, camboins, sapotiabas e guapebas (o Sr. Alair Correa deve conhecer essas espécies e deve, se estiver lendo o que estou escrevendo, estar sentindo saudades da infância dele !) para plantar grama e regar gramado com a escassa água da região. Isso é progresso ? Está na hora dos municípios da região darem as suas guinadas e promoverem uma moratória aos seus fragmentos de vegetação e de paisagens. Está na hora de mostrar que essas cidades tem cultura, história, paisagem, fauna, flora, gente e gente que sabe preservar o que herdou de seus antepassados.

Niete Martinez

 

 

COMPARTILHAR