Batom na cueca

“Que é isso aqui?”, berrou a mulher, entrando na sala. Segurava uma cueca onde se viam quatro manchas de batom no formato de dois lábios, duas delas meio apagadas. O homem sentado num sofá, lendo um jornal, virou-se. “Isso o quê?”, perguntou, num tom irritado. “Isso”, disse a mulher, apontando para uma das manchas, colocando a cueca a um palmo do nariz do homem. O homem afastou a cueca com um gesto brusco. A cueca caiu no chão e a mulher recuou. “Tá maluca? Não tô vendo nada”, disse o homem, levantando-se. “Como assim não tô vendo nada?” retrucou a mulher, mais uma vez berrando. “Não tá vendo essa cueca, aquela que comprei pra você quando estivemos em Gana?”. “Tá maluca? Que cueca? Nós nunca fomos a Gana” disse, rispidamente, o homem. A mulher ficou parada, boca aberta. O homem sentou-se, pegou o jornal e a mulher se foi. Um sorriso maroto se formou na boca do homem. “Negue. Negue sempre. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. Não vi, não quero ver e tenho raiva de quem viu. Esse é o lema. Siga-o à risca. Se colocarem um elefante na sua frente, diga que não está vendo e ponto final”.

Parece ser essa a estratégia do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha. Dá sinais de que irá negar até o fim. Recusa-se a comentar o que vem sendo dito: quatro contas bancárias foram identificadas num banco na Suíça, associadas a ele, à sua mulher e à sua filha. Duas foram fechadas em abril e nas outras há um saldo de 2,4 milhões de dólares. E cinco delatores na Operação Lava-Jato afirmaram que exigiu receber cinco milhões de dólares por entender ser merecedor levando-se em conta sua participação num negócio envolvendo uma sonda comprada pela Petrobrás.

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O deputado continua a se aproximar dos repórteres com ginga de John Wayne, não para e repete “Não comento esse assunto”. O ar é de absoluta tranquilidade e segurança.

É o caso de se perguntar “Quem sabe os males que se escondem nos corações humanos?”, a resposta sempre sendo “O Sombra sabe”.

Estranho tempo esse que vivemos. A revista Veja alega que a presidenta Dilma passou a faixa presidencial para o ex-presidente Lula, a reforma ministerial resultando de sua interferência. Mas, onde está Lula? Se a alegação é verdadeira a falta de quórum na Câmara que, se não estivesse ocorrendo, levaria à manutenção dos vetos da presidenta, está sendo fomentada por Lula? Ou se trata da resistência dos partidos que, teoricamente; formam a base de sustentação do governo, em o aceitarem como o líder da coligação?

A crise política se arrasta e impede que alguma coisa seja feita para que a crise econômica seja resolvida, o cenário sendo dominado por um político que se sabe ser corrupto. Essa contradição só é possível quando o regime é democrático, uma demonstração de que caberá a nós, que nos sentimos Brasil, encontrar as soluções.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
08/10/2015

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