Bailarinos enlameados no Capibaribe

Bailarinos enlameados no Capibaribe
Bailarinos enlameados no Capibaribe

Bailarinos enlameados no Capibaribe

Primeiro ato. Plantas completas, ou seja, com raiz, caule, folha, fruto e semente adaptam-se à água salina, há 60 milhões de anos, no atual Sudeste Asiático. Adaptadas nem à alta salinidade nem à baixa. Os locais preferidos por essas plantas serão os estuários, ponto em que a água doce dos rios se mistura com a água salgada do mar e forma a água salobra. Elas também crescem nas praias e nas ilhas de baixa energia marinha. Com grande poder de resistência, suas sementes tornam-se verdadeiros navegantes. Por limitações climáticas, toda a zona intertropical, pouco acimae pouco abaixo dos trópicos, foi colonizada por essas plantas, que se diversificaram em várias espécies ao longo do tempo. Não apenas o ser humano é capaz de realizar processos de globalização. As algas respiradoras produziram oxigênio e se espalharam pelo mundo todo. Essas algas e o oxigênio construíram uma globalização. Com base na nova atmosfera, os animais também globalizaram o mundo.

bailarinoselameados2

Segundo ato. Essas plantas que, no seu conjunto, receberam diversos nomes pelo mundo, mas que, entre nós, pessoas de fala portuguesa, receberam o nome de mangue no plano individual e de manguezal no plano coletivo, fixaram-se na costa brasileira, em locais apropriados, bem antes que a linha da costa se estabilizasse no ponto em que está atualmente. Durante o Pleistoceno, quando o nível do mar era bem mais baixo que o atual, os manguezais se fixaram em foz de rios e praias em pontos mais distantes. Quando o nível do mar subiu, na primeira metade do Holoceno, eles avançaram em pontos atualmente em áreas continentais. Finalmente por enquanto, marcam a linha de costa entre o Amapá e Santa Catarina.

bailarinoselameados3

Terceiro ato. Constituindo-se no continente africano, a humanidade coloniza o mundo e se diversifica em tipos físicos e em culturas. O continente americano parece ter sido o último a ser conquistado pelo “Homo sapiens”. No atual Brasil, todos os pontos da costa foram ocupados. Os povos indígenas do Brasil, indígenas porque chegaram primeiro, não porque sejam originários da América, relacionaram-se bem com os manguezais. Deles, extraíam madeira, moluscos, crustáceos e peixes. Como sua economia era de subsistência, não havia uma exploração do manguezal maior que a capacidade de recuperação desse ecossistema.

bailarinoselameados4

Quarto ato. Os portugueses chegaram às costas do Brasil em 1500, como parte do processo de globalização ocidental. O manguezal deve ter sido um dos primeiros tipos de vegetação com que tiveram contato. No primeiro momento, este ambiente não lhes interessava muito. Os pobres brancos e negros vão depender dele e aprender a explorá-los como os nativos. Aos poucos, o manguezal passou a ser fonte de tanino para os curtumes, de lenha e de madeira. Povoados, vilas e cidades cresceram nos estuários e foram destruindo os manguezais para a obtenção de áreas para expansão. No Norte, a dimensão dos rios e a amplitude de marés permitiu que os manguezais garantissem áreas para se desenvolver. No Nordeste, a cidade que mais destruiu os manguezais foi Recife. Eles foram extirpados, aterrados, contaminados por esgoto e lixo. As camadas mais pobres da sociedade foram morar neles. No Rio de Janeiro, a área de manguezal da baía de Guanabara, sofreu redução sensível. Em Santos, o processo foi bastante semelhante.

bailarinoselameados5

Quinto ato. Alguns manguezais do Brasil despertam desenhos, pinturas, esculturas, poemas, ficção e prosa de defesa. O manguezal da baía de Guanabara terá em Pedro Soares Caldeira e Armando Magalhães Corrêa seus grandes defensores, o primeiro com seus artigos militantes e o segundo com seus escritos e desenhos em bico de pena. O segundo também registrará os manguezais de uma Barra da Tijuca quase virgem. Em Recife, o manguezal ganhará o grande poeta João Cabral de Melo Neto. Ele, contudo, não soube separar devidamente o manguezal da pobreza. No Recife, os manguezais foram tão vilipendiados quanto os pobres. Talvez daí tenha nascido o encontro deles. Agora, Deborah Colker criou uma coreografia para “O cão sem plumas”, livro de Cabral publicado em 1950. O manguezal está muito presente neste livro, como em outros posteriores.

bailarinoselameados6

Acontece que quase todos os poemas de Cabral devem ser lidos tendo como orientação a seguinte estrofe de “Paisagens com figuras” (1954-1955): “A gente que se estagna/nas mucosas deste rio,/morrendo de apodrecer/vidas inteiras a fio,/podeis aprender que o homem/é sempre a melhor medida. Mais: que a medida do homem/não é a morte mas a vida.” O poeta não era incapaz de perceber que o manguezal também era vítima das agressões de um sistema econômico intrumentalizador da humanidade e da natureza. Ele era perfeitamente capaz. Contudo, sendo humanista e socialista, num momento da história em que as preocupações ambientais ainda não estavam na pauta filosófica e política, sua atenção se voltava para o homem e para as injustiças sociais.

bailarinoselameados7

Essa preocupação perpassa a série de poucos poemas de “O cão sem plumas”, que Deborah Colker coreografou de forma belíssima. Pobreza e lama de manguezal provocam um efeito plástico notável. Mas Colker ficou dividida, o que é muito natural no mundo complexo de hoje. Ele foi menos difícil para Cabral. Onde se situa a dificuldade de Colker? Na ambiguidade. Ela é fiel ao livro ou o interpreta segundo nossa época e inclui a questão ambiental? Ela diz que não pensou na tragédia causada pelo rompimento da barragem da Samarco na bacia do rio Doce. Mas teria tudo a ver se pensasse. Do ponto de vista socioambiental, um desastre de proporções jamais vistas no Brasil. Mas a lama, que invadiu tudo, permitiria imagens de denúncia em fotos, filmes e teatro, sem necessariamente carregarem um teor panfletário. É como Colker trata “O cão sem plumas”.

Artur Soffiati é pesquisador e historiador ambiental

COMPARTILHAR