As laranjas

Saí do banco aliviado. Aquele banco mais parecia uma igreja sem bancos. Todos de pé, aguardando a vez de “comer o biscoito”.
É verdade que havia vários guichês dando os biscoitos, mas às vezes, quase sempre havia um pecador que levava um lanche com sanduíches de várias camadas de papel, e, então, a fila não andava.
Para aquele pecador comer o sanduíche, quem pagava os pecados eram todos.
Pensei comigo “mismo” que isso era um “injustisso” !
Devia haver fila para os grandes pecadores e fila separada para os quase-inocentes! Devia haver também “bancos” para os “issos” esperarem sentados. (Já que os Bancos não tem bancos, deviam mudar de nome para DEPEMPE – Departamentos de Esperar em Pé). Sim, repeti, devia haver bancos para os “issos” esperarem sentados, bancos iguais às caixas dos supermercados. Todos sentados numa espécie de cadeira-correia que, ao toque de um botão pelo caixa, a fila andaria sem ninguém precisar se levantar e ir para a próxima cadeira. E pensei sorridente:
“Que bom que os “issos” sempre podem melhorar de vida”.
SAí DO BANCO ALIVIADO E OTIMISTA!!!!!!!!!
Andei uns “SEM” metros pela rua quase principal e vi um caminhão vendendo laranjas. Cheguei mais perto e fiquei parado, olhando aquelas laranjas quase lindas:
“Vi uma laranja grande, vi uma laranja quase grande”.
“Vi uma laranja pequena, vi uma laranja quase pequena”.
“Vi uma laranja amarela, vi uma laranja laranja”.
“Vi uma laranja verde escuro, vi uma laranja verde claro”.
“Vi uma laranja laranja claro, vi uma laranja laranja escuro”.
“Vi uma laranja, vi, vi, vi, vi, vi, …”
Entrei num transe quase profundo.
Estava num local quase deserto…
Longe de quase tudo….
Quase sem habitantes…
Quase sem água…
Quase sem vegetação…
Um local quase quase….
Eu andei por lá observando e encontrei uns moradores. Aproximei-me, eles foram muito gentis e amigáveis, e contaram-me que haviam ido morar ali porque estavam procurando laranjas. Disseram a eles que ali encontrariam laranjas. Até hoje existem pessoas que usam terno e gravata e vêm de vez em quando, e dizem: “Se vocês ainda não encontraram laranjas é porque não procuraram com a atenção devida.”
-E vocês acham que aqui tem laranjas?
-Sim, é claro que aqui tem laranjas! A gente está quase encontrando as laranjas. Dizem até que o Tatá, o Vavá, a Viví, a Sassá, o Dudu e outros já encontraram laranjas aqui!
Olhei em volta, andei pela área e vi que era quase impossível achar laranjas. Eu nunca acharia laranjas ali, mesmo porque eu não estava disposto a ficar procurando laranjas. Eu não acreditava que ali houvesse laranjas!
Mas, pensei, eles acreditam que ali há laranjas porque alguém lhes disse que havia laranjas, porque o avô do avô do bisavô do avô do tataravô do bisavô do avô do tetravô do megavô do gigavô….diziam que havia laranjas ali.
Agora, após desenvolverem essa crença pouco havia a fazer. Eles provavelmente iriam ficar ali procurando laranjas até morrer. E seus filhos, netos, bisnetos, etc., iriam ficar ali talvez por centenas de anos, esperando as laranjas aparecerem.
Já havia livros, dezenas deles, que falavam das laranjas, havia pessoas que se especializavam em falar das laranjas, laranjas de todo tipo e doçura, e que era só procurar com a atenção devida, que seriam recompensados.
Havia também livros que diziam que, se eles não procurassem as laranjas com a atenção devida, não só não as achariam como também seriam castigados. O nome dessa falta era “picado” e o castigo é que seriam picados quase como se pica uma laranja!!
Mas que se procurassem com a atenção devida, e que se mesmo assim, não as encontrassem durante a vida, as encontrariam após a morte, num quase pomar cheio de todos os tipos de laranjas, as mais doces existentes. E ficariam numa eterna felicidade chupando laranjas, bebendo suco de laranjas, comendo os doces de laranjas nunca dantes encontradas!!!!!!!!!
E havia os livros que diziam que se não encontrassem as laranjas nesta vida, eles voltariam em outras vidas e ficariam nesse volta-e-vai procurando as laranjas até que em uma dessas vidas eles as encontrariam, e aí acabaria o volta-e-vai. Ficariam chupando laranjas o resto da vida, da vida não, porque não haveria mais vida, e que então , não havia certeza, nem uma definição clara que se entendesse como seria.
Achei que essa estória das laranjas não tinha quase lógica e decidi demorar-me um pouco mais por ali, para entender o que estava acontecendo.
Aos poucos fui decifrando o enigma e descobri algumas coisas mais:
1 – Não era somente ali que se procurava pelas laranjas, mas que se poderia viajar sem parar e nunca se chegaria ao final das terras dos buscadores de laranja.
2 – Havia muitas brigas e mortes por causa das laranjas. Desde os tempos mais remotos, dos megavôs, gigavôs, e muito mais ainda que já havia muitas brigas e mortes.
3 – Um povo de outro povoado aparecia e dizia: “Vocês são estúpidos, estão procurando as laranjas erradas” e, sem dó nem piedade, VAPT! cortavam as cabeças dos coitados e ainda achavam que estavam salvando o mundo.
4 – De vez em quando um dizia ter encontrado as laranjas e falava para os outros: “Vocês estão procurando de um modo errado!” E os outros perguntavam: “Como é o modo certo?” Ele respondia: “O modo certo é com muita fé!”.
5 – Outro que dizia ter encontrado as laranjas disse: “Vocês estão procurando as laranjas erradas”. Perguntaram: “Como são as laranjas certas?” E ele respondeu com palavras que não entenderam.
E todo mundo continuava a procurar as laranjas erradas, mas acreditando que eram as laranjas certas e as brigas e mortes continuavam, e VAPT, VAP. Centenas e milhares de cabeças rolavam pelo chão por causa das laranjas que eles não conheciam.
Perguntei:
Porque vocês não param de procurar laranjas?
Responderam:
-Não podemos. As laranjas têm um poder enorme sobre nós. Elas nos enfeitiçaram e fazem-nos viver pensando nelas e temendo-as.
Eu comecei a ficar preocupado com aquela situação, mas já era tarde. Então apareceram uns moradores de foice na mão que me perguntaram:
POR QUE VOCÊ NÃO ESTÁ PROCURANDO LARANJAS?
Nem tinham terminado a pergunta, levantaram as foices e VAPT!, cortaram minha cabeça.
Olhei e vi minha cabeça quicando que nem uma bola de futebol e rolando pelo chão. A princípio com uma cara de dor, mas logo a seguir com um grande sorriso minha cabeça se transformou numa linda laranja!
Naquele momento todos nós ficamos como estátuas, olhando sem piscar para o acontecido e todos tivemos o mesmo pensamento: “Então é assim que surgem as laranjas! Surgem das cabeças!”
Eu que acabava de acreditar nas laranjas, me ajoelhei e fiquei olhando para ela com os olhos molhados, e os outros fizeram o mesmo. E ai…
Sai do transe
Parado ali na Avenida das Ilusões ainda emocionado e meio tonto, olhei o relógio. Tinham se passado exatamente cinco minutos. Vi novamente o caminhão de laranjas, corri lá e avidamente comprei oito sacos de laranjas! Pensando nas laranjas e com água na boca fui para o estacionamento buscar o carro, dialogando comigo mesmo:
-Quem será que inventou essa história das laranjas? Será que foi invenção? Será que houve realmente uma época em que havia laranjas lá? Dizem que há centenas, milhares de provas de que realmente havia, certamente é quase verdade, ou uma verdade quase provada.
Provavelmente sim, provavelmente não, ou quase sim ou quase não.
Porque se alguém está com muita vontade de chupar laranjas e ficar buscando laranjas, vai perguntando pelos caminhos e seguindo aqueles que qualquer um lhe indicar.
MAS “ISSO” PARECE NÃO TER IMPORTANCIA !!!!
Porque você nasce e lhe dizem que é isso, é aquilo
Você é isso, você é aquilo e
Você olha em volta e tudo confirma
Que é isso mesmo, é aquilo mesmo, ou
Que você não é bem isso, é quase isso, ou
Que você não é bem aquilo, mas é quase.
Você estuda e estuda, ou não estuda, e passa a perceber
Melhor, os issos, e os aquilos, e aprende a aprender,
Que os issos, podem ser os aquilos, e versa-vice.
Você se sente quase bem, convivendo com todos os Issos ou quase issos .
Você se casa com um(a) isso e descobre depois
Que é um quase isso ou um nada-disso
Que é um aquilo-tudo que não é daquilo
Os issos podem de fato serem nada-disso e
Os nada-daquilo podem também ser
Daquilo ou quase
Você aprende e não aprende a aprender que o que mais existe são os quase isso e os quase aquilo e que alguns aprendem a viver quase que somente nos quase isso ou quase aquilo. São os quase políticos.
Sendo tudo isso e aquilo muito quase complicado, é quase muito bom que você passe a vida procurando laranjas onde não há laranjas ou quase há, mas tendo você uma crença de que há laranjas lá, certamente você irá encontrar laranjas, ou quase.

José Augusto Sathler

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