Areia demais para o caminhão da presidente do IBAMA

Cuidado! A leitura da declaração da Dra. Marilene Ramos, presidente do IBAMA, pode causar mal-estar ao leitor. Disse ela, em 15/11, com a solenidade e seriedade para a ocasião, anunciando as medidas acordadas com a empresa Samarco para a recuperação do rio Doce que corre risco de morte em consequência do rompimento de uma barragem no município de Mariana (MG): “Diante do desastre ambiental ocorrido, a Samarco adquiriu uma grande quantidade de floculantes para fazer esse uso e tentar, ao máximo, que ocorra essa decantação da lama ainda no reservatório de Aimorés, a fim de minimizar o impacto ambiental na foz do Rio Doce”.

Reagiu o professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e de Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Martinês: “Há falta de sensatez no momento”.

Comentou o mineiro José Oliveira, sobre o artigo “Especialistas discordam de Ibama em ações para revitalizar Rio Doce”, da jornalista Thais Pimentel, na página do G1, rede Globo, publicado em 16/11: “A água não conseguirá arrastar os finos de minério. Isto só será feito pela natureza, em pelo menos 200 anos”.

Comentou um pescador, em Mariana, quando indagado sobre a possibilidade de recuperar o rio: “A gente espera, uai. O Doce tem muito afluente com água limpinha, limpinha. É só esperar que vai tudinho, tudinho pra boca do Doce depois de Linhares e cai tudo no mar”.

Comenta-se aqui: o País está correndo um sério risco por ter como presidente do IBAMA, órgão do Ministério do Meio Ambiente, uma pessoa que não se preocupa em pensar antes de falar e quando o faz produz uma “pérola” de mesmo nível das conhecidas “pérolas do INEM”.

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A Dra. Marilene Ramos, obviamente, não levou em conta que a floculação provocará o depósito, no fundo do rio Doce, ao longo de 800 quilômetros, de todo tipo de material: restos de minérios pesados, alguns deles cancerígenos. Ou seja, não foi capaz de reagir, intuitivamente, como o pescador, que muito provavelmente não tem um título de doutor em engenharia ambiental, como o tem a presidente do IBAMA.

A Dra. Marilene Ramos é a mesma pessoa que quando tinha um cargo relevante no governo do Estado do Rio de Janeiro, apoiou, incondicionalmente, uma das maiores aberrações na área de coleta e tratamento de esgoto na Região dos Lagos: o sistema de coleta em tempo seco, que faz uso da rede de coleta de águas pluviais para a coleta conjunta de esgoto in natura. A população da Região, o mundo inteiro sabe, ser impossível propor, projetar e implantar um sistema mais impróprio do que esse que a Dra. Marilene Ramos aprovou e aplaudiu. O sistema é citado na Constituição do Estado do Rio, que o proíbe.

Não devemos nos surpreender se a Dra. Marilene tenha feito a proposta que fez. A questão, porém, é que levou seu desconhecimento de assuntos de sua área de especialidade para resolver um problema que afetará, seriamente, as populações de dezenas de cidades. São milhões de pessoas.

Não se trata, apenas, de conhecimento técnico. Antes de tudo é uma questão de sensatez e espera-se que a presidenta Dilma, que tomou conhecimento da proposta, exija que se providencie uma mudança na direção do IBAMA. Bastam os desastres naturais ou acidentais que não podem ser agravados em consequência de decisões equivocadas.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
17/11/2015

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