A quem interessar: América fechou a porta (Ed. 01/03)

Trump virou a mesa. Xenofobia explícita. Sai de baixo. 80% dos americanos concordaram com o rumo que propôs no discurso que fez no Congresso em 28/02. 1) America em primeiro; 2) empregos na América são para americanos; 3) um trilhão de dólares para infraestrutura: estradas, rodovias, portos, aeroportos, renovação urbana, escolas; 4) que cada membro da NATO pague os custos para suas defesas; 5) não mais nos envolveremos em guerras triviais no mundo; 6) 56% a mais para investimento nas Forças Armadas; 7) redução de 35% na ajuda externa. E por ai vai.

Aos afoitos: nem pense em usar o visto de turista para ir e ficar. Será cassado como cão danado.

Metade da América se dizia indignada com a desumana decisão de Donald Trump de deportar os imigrantes ilegais que foram condenados por algum crime, entre estes uma multa por infração de trânsito. Não consideraram as conquências. Mas, isso já mudou.

O cinismo está na realidade de que a deportação incluirá os imigrantes ilegais que são pais de crianças que, por terem nascido lá, são cidadãos americanos . Até agora, ninguém, absoltamente ninguém, decidiu transformar sua indignação em ação objetiva que seria recorrer à Suprema Corte chamando atenção para o inconstitucional banimento de cidadãos americanos com a conseqüente separação dos filhos dos pais no caso em que estes optarem pela penosa decisão de aceitarem a deportação em favor de oferecerem aos filhos a permanência na sociedade que eles, pais, julgarem mais adequada para eles. Ou, na alternativa, que se considere justo o banimento de cidadãos americanos em companhia dos pais, legalmente deportados por serem residentes ilegais.

A máscara que caiu é essa, a de não reconhecerem que os filhos de imigrantes ilegais, embora sejam cidadãos americanos, merecem desfrutar dos direitos garantidos a todos os cidadãos americanos. Ou seja, filhos de imigrantes ilegais são cidadãos americanos de segunda classe.

Nenhum cidadão americano, nenhum, quer se envolver com o ultrajante desrespeito aos direitos de americanos numa proporção idêntica à imposta por Hitler aos judeus bem antes do início da Segunda Guerra Mundial. Tal como então, ninguém tem a coragem de denunciar que Donald Trump é mentalmente desequilibrado como vários documentários denunciam que Adolf Hitler o era.

A metade dos americanos que se diziam indignados com a decisão de Trump não admitem a sua covardia ao optarem por não votar nas eleições de novembro passado, particularmente nos estados de Michigan, Pennsylvania e Wisconsin, aqueles cujos votos eleitorais foram cruciais na decisão da eleição de Trump. São incapazes de admitir que “quem cala consente”. A verdade é que o que está acontecendo é o que queriam, uma vez que acreditaram na promessa de Trump de reativar as economias daqueles estados usando políticas que não foram incluídas nas propostas de Hillary Clinton.

É impossível cumprir as promessas, particularmente no que diz respeito à reativação da exploração de carvão naqueles estados. As minas estão exauridas.

América tirou a máscara e a Corte Suprema está se fingindo de morta: afinal, trata-se de defender os direitos de cidadãos americanos cujos pais são imigrantes ilegais e, como estes, não merecem usufruir dos direitos assegurados aos cidadãos americanos de “primeira classe”.

A lição que se aprende é a seguinte: quem decidir migrar para os Estados Unidos é bom que tenha a oferecer o que eles não têm e precisam. Quem quiser migrar, legalmente, mas não tenha nada de extraordinário a oferecer, se prepare para ganhar menos do que ganharia se fosse americano. Quem quiser migrar, ilegalmente, se prepare para sobreviver em condições bem inferiores às que desfrutaria no seu país de origem.

“América first” nada mais é do que a conformação da Doutrina Monroe: “América para os americanos”. Sempre foi assim.

O cinismo se escancarou na premiação do Oscar: “vejam quem veio para jantar” e apresentaram os artistas negros que ganharam o prêmio. Foram aplaudiram efusivamente. É o que acontece nos jogos de basquete: os jogadores negros batem recordes e são aplaudidos, mas nenhum é convidado para jantar na casa dos donos dos times.  

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
27/02/2017

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