A tragédia do Rio Una

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O Rio Una já teve seu momento de glória. Os naturalistas viajantes Maximiliano de Wied-Neuwied, príncipe alemão, e Auguste de Saint-Hilaire, botânico francês, passando pela região dos Lagos, respectivamente em 1815 e 1818, não notaram seu curso porque, ao que parece, ele estava envolvido por majestosas florestas. O que encantou os dois europeus foi a mata de restinga que se estendia de sua margem esquerda à margem direita do Rio São João, pois ela contava com árvores altas e frondosas para uma floresta que cresceu em solo arenoso. Parecia a Mata Atlântica, tão apreciada pelos europeus quanto a Amazônia. Conheci ainda um pouco da pujança dessa mata em 1959, quando passei um mês em Barra de São João. Hoje, ela se reduz a uma área restrita da Marinha brasileira, e tudo indica que acabará se transformando em mais um loteamento que privatiza a natureza, caso não seja protegida por uma Unidade de Conservação, tantas vezes reclamada ao governo estadual.

Em 1863, Milliet de Saint-Adolphe registra em seu “Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Império do Brasil”: “Una. Ribeiro da província do Rio de Janeiro, no distrito da cidade de Cabo-Frio: dá navegação a canoas por espaço de 3 léguas, e vai desaguar no mar entre o cabo de Búzios e a foz do rio de São João. As sumacas entram em sua barra, e se acham amparadas contra os ventos do sul e do sueste pelos montes de Cabo Frio.”

O rio, então, permitia a entrada de sumacas, um tipo de embarcação holandesa que se difundiu no Brasil a partir da invasão da Holanda no Nordeste. A sumaca era uma canoa grande com uma vela que podia transportar cargas entre 20 e 100 toneladas.

Imagem1desenho de samaca Imagem2Foz do Una em fevereiro de 2016. Foto de Lene Pereira

 

O estado apresentado pelo Rio Una no início de 2016, em período de cheia, é melancólico. Parece um rio que morreu definitivamente. Hoje, pode-se atravessar a pé o estuário dele. Ninguém, conhecendo o porte de uma sumaca, poderia acreditar que o talvegue (ponto mais profundo) e a vazão do rio poderiam permitir a entrada de uma em sua foz.

Como o rio chegou a esse estado? Em 2012, no mês de outubro, ainda o encontrei com vazão razoável que permiti a navegação de canoas, mas já bastante debilitado.

Imagem3 Foz do Una em 2012, com bloqueio da Marinha com arame farpado. Foto do autor.

O declínio do rio cabe ao relacionamento da sociedade de origem europeia com a natureza. Podemos situar no início do século XVI os primórdios do processo de expansão da cultura europeia pelo mundo. O motor dessa expansão foi a economia de mercado, dando origem ao que se chama de globalização. Os povos nativos de economia nômade ou agrária e pastoril tinham seu comportamento regido por motivações religiosas. Na sua visão, a natureza era protegida por entes sobrenaturais que zelavam por seus limites. Ela podia ser explorada, mas deveria ser respeitada. Além do mais, a tecnologia desses povos era simples e não permitia grandes ferimentos na natureza.

Não assim a civilização ocidental ao invadir e ocupar a América e outros continentes. Numa economia de mercado, vigora uma permanente necessidade de acumular lucros e um descontentamento com o que a natureza oferece. Torna-se imperioso transformá-la para que sirva o ser humano genérico. À medida que vai sendo destruída, a natureza também vai sendo afastada pela sociedade, que passa a ter ouvidos moucos a ela.

Quando Wied-Neuwied e Saint-Hilaire passaram pela Região dos Lagos e quando Milliet de Saint-Adolphe lançou seu dicionário, o processo de destruição trazido pelos europeus já estava em marcha, mas ainda não era claramente notado. Saint-Hilaire adverte quanto aos riscos do desmatamento, mas, no geral, ainda se apostava na inesgotabilidade da natureza. Hoje, nenhum dos autores reconheceria a região por onde passou e que descreveu.

Os jesuítas já haviam feito grandes e danosas intervenções na natureza, mas só com a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, criada pelo Governo Federal em 1933, será formulado um plano sistemático para que a natureza da Região dos Lagos gerasse lucros pelo processo produtivo. Em 1934, Hildebrando de Araujo Góes informava em seu livro “Saneamento da Baixada Fluminense” (Rio de Janeiro: Ministério da Viação e Obras Públicas) que, ao norte da Lagoa de Araruama, estendia-se uma grande área embrejada entre os Rios Trapiche e São João. Alguns desses brejos e banhados são mencionados pelo autor, um dos fundadores da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS).

Entre eles, contavam-se os brejais de Itaí, Pau Rachado, Trimunurum, Angelim e Campos Novos. Os três rios que cortavam esses banhados eram o São João, o Una e o Trapiche.

E o mais notável registrado por Góes é que a Baixada de Araruama, onde ele encontrou esta imensa área de banhado, não havia sofrido significativas intervenções humanas com vistas à drenagem e ao “saneamento”, como nas Baixadas de Sepetiba, da Guanabara e dos Goytacazes. Certamente que algumas mudanças foram operadas por particulares, pelo governo da Vila de Cabo Frio e pelos jesuítas, que se instalaram na fazenda Campos Novos.

Tais intervenções, porém, não acarretaram transformações de grande monta. Assim, no que concerne aos ecossistemas aquáticos continentais, a Baixada de Araruama, em 1934, pouco diferia do ambiente conhecido pelos naturalistas europeus.

Em seu diário de excursão, o alemão Maximiliano fala de belas florestas, de pântanos e de uma biodiversidade animal admirável. Valados, brejos, caniçais, lamaçais e pântanos são palavras que abundam nos seus registros ao percorrer os terrenos que se estendem de Cabo Frio a Barra de São João (“Viagem ao Brasil”. Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1989). Saint-Hilaire, traçando o mesmo itinerário, anota que “No meio da mata existem grandes trechos pantanosos: neles não se vê nenhuma árvore.” Pousando na fazenda Campos Novos, agora pertencente à Coroa portuguesa, ele reflete: “A natureza aí conservou quase toda a sua potência; o homem isolado, lutando contra ela, mostra o quanto é ele fraco, e, após tantos esforços apenas deixa ligeiros traços de seu trabalho.” (“Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil”. Belo Horizonte, São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1974).

No tempo dos dois naturalistas, ainda não havia engenhos mecânicos que realizassem profundas incisões na natureza. A partir de 1935, com o início da ação da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e do seu sucessor DNOS, o emprego de dragas causaria mudanças profundas. Os banhados existentes funcionam como caixas d’água para os Rios Trapiche, que não mais existe, para o Una e São João. Eles se alastravam em depressões que se alagavam com suas águas. Tinha-se a impressão que os rios despareciam para reaparecer na outra extremidade da baixada. Mas Saint-Hilaire adverte, 1818, que o arroz não podia ser plantado nas terras pantanosas porque a umidade não era permanente nelas. A seca que lhe sucedia tornava o terreno excessivamente duro.

Com o DNOS, a drenagem dos Rios Trapiche, Una e São João foi de tal forma radical que suas bacias passaram a se constituir de linhas retas e quebradas. O Rio Trapiche foi extinto, dando sua foz lugar à Marina de Búzios. O Rio Una teve todos os rios de sua bacia canalizados, com exceção de reduzido trecho dele entre a RJ 105 e o mar. A representação cartográfica de sua bacia fornecida pelo Comitê de Bacias VI (Lagos-São João) não corresponde mais à realidade quando comparada com as imagens do Google Earth.

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Bacia do Rio Una sem canalização dos rios segundo Comitê de Bacia da Região dos Lagos e São João. Na imagem do Google Earth, mesma bacia aparece com os rios canalizados de forma geométrica (setembro de 2012).

As curvas sinuosas e sensuais do Rio São João foram substituídas por linhas retas, como se a natureza estivesse equivocada. O DNOS substituía a geometria fractal da natureza pela geometria euclidiana de uma cultura racionalista. O Instituto Estadual do Ambiente (INEA) quer libertar o espírito torturado do DNOS para assombrar novamente as pessoas.

Nas Bacias do Trapiche, do Una e do São João, drenos foram abertos no fundo de várzeas, brejos e banhados para extingui-los em caráter definitivo. O resultado é que muita água doce verteu do continente para o mar. Ao mesmo tempo, a língua salina avançou pelas fozes até onde se faz sentir a influência das marés. Assim, os estuários se tornaram mais extensos e os manguezais ampliaram suas áreas. Não significa dizer que a perda de água doce foi compensada pela ampliação dos manguezais, pois que estes padecem de todo tipo de agressão. No Rio Trapiche, por exemplo, ele foi extinto junto com sua foz.

Para o Rio Una, o governo do Estado do Rio de Janeiro anuncia uma novidade cercada de informações desencontradas e conflitantes, o que gerou muita polêmica por parte da sociedade e do poder público de Búzios: o Rio Una vai receber esgoto de outros municípios da Região dos Lagos. Funcionará como uma estação de tratamento ou canal que permitirá o esgoto fluir até o mar.

Mesmo que o esgoto lançado na bacia do Una passe por tratamento terciário, que elimina cerca de 90% da carga orgânica, ela não vai recuperar a cisterna abastecedora que tinha antes de 1935 e que mantinham a vazão do rio. O que podemos esperar, agora, é que o pífio volume d’ água da bacia se reduza mais ainda e não ofereça resistência à penetração das marés pelo rio central e secundários. Esse fenômeno já está acontecendo e salinizando os manguezais e terras além deles. O avanço da língua salina pode levar o manguezal a pontos mais distantes da foz porque o estuário, ecossistema formado pela mistura de água doce com água salgada e propício ao manguezal, desloca-se para o interior do rio principal e afluentes.

A tragédia do Rio UnaManguezal do Una em fevereiro de 2016. Foto de Lene Pereira

Outro fenômeno é o estresse salino provocado na parte do manguezal junto à foz, que, por perda de vazão, já se desviava para o sul por força das correntes e propiciava a formação de um manguezal de borda na praia, com orientação paralela à costa. É um engano pensar que o manguezal gosta de sal. Até certo ponto, sim, mas diluído na água doce do rio. Na falta dessa e com o aumento da salinidade, o manguezal tende a apresentar aspecto anômalo.

Imagem7 Foz do Una em fevereiro de 2016. Foto de Lene Pereira Imagem8Foz do Una em fevereiro de 2016. Foto de Lene Pereira

Enfim, parece que as inúmeras intervenções na Bacia do Una em nome do desenvolvimento condenaram-no à morte. A população de Búzios, que tencionava substituir o a Lagoa de Juturnaíba pela Bacia do Una no abastecimento público da cidade parece que perdeu uma fonte pequena mais preciosa. Tomara que eu me engane no meu prognóstico.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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