A sombra de Eduardo Cunha

“Se eu derrubo Dilma agora, no dia seguinte, vocês é que vão me derrubar”, disse ele em 13/10/2015 durante uma reunião em sua residência oficial. É deputado federal, presidente da Câmara de Deputados, terceiro na linha de sucessão da presidente. Entre ele e a presidenta só há Michel Temer.

Estaria se sentindo poderoso. A declaração possibilita se supor que Eduardo Cunha tem o entendimento de ser capaz de destituir Dilma Roussef do cargo seja através um processo de impeachment seja através uma impugnação das eleições de Dilma e Michel Temer. Ou seja, para ele, tanto um impeachment quanto uma impugnação são fatos com 100% de probabilidades de ocorrência, por sua vontade, independentemente de um julgamento no Senado, para o caso do impeachment, ou de uma decisão do TSE, para o caso de uma impugnação.

Em resumo: o deputado Eduardo Cunha, segundo seu entendimento, estaria atuando como protetor da presidenta que, enquanto mantida no cargo, o protege de ataques.

Há quase dois meses o País acompanha o comportamento de Eduardo Cunha e o que chama atenção é o fato de que ele acreditaria, piamente, no que diz, e que a postura que adotou em relação às acusações que lhe são feitas é incompreensível.

Leia-se sua última declaração sobre uma decisão do juiz Teori Zavascki do STF quanto ao que fazer com os R$9,6 milhões depositados em uma conta, em seu nome, em um banco na Suíça. O juiz determinou o sequestro do dinheiro para garantir que volte aos cofres públicos caso se comprove que ele é consequência de corrupção. A quantia ficará em conta judicial no Brasil e poderá ser usado pela Procuradoria-Geral da União. Indagado sobre a decisão declarou Eduardo Cunha: “Eu não vi, eu cheguei aqui, eu não sei do que se trata. Todas as quintas-feiras, nas últimas 15 semanas, divulgam-se decisões ou se divulgam dados referentes a mim, os quais eu não conheço. Na realidade, tudo que está sendo falado, já pedi a meus advogados que pedissem acesso e não tiveram até agora. Então, vamos aguardar”.

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É como se Valvino declarasse não ter conhecimento de que uma pessoa foi encontrada morta dentro de sua casa, uma faca cravada em suas costas, no cabo estando gravado o seu nome e que exame de DNA de sangue encontrado nas roupas do morto confirmam tratar-se de sangue de Vailvino. Diria ele: não vi a decisão do juiz sobre o que fazer com o corpo, Não sei do que se trata e desconheço as decisões ou dados referentes a mim sobre um fato que desconheço. Para Valvino não teria ocorrido um assassinato em sua casa.

Há notícia de que Eduardo Cunha e sua mulher Cláudia Cruz tentaram impedir a transferência do dinheiro e das provas sobre suas contas na Suíça para o Brasil e, com isso, dificultar o andamento das investigações sobre o mesmo assunto no Brasil. Por meio de advogados, os dois entraram com um recurso na Câmara de Apelação Criminal do Tribunal Federal da Suíça para travar o repasse dos documentos do Ministério Público suíço para a Procuradoria-Geral da República no Brasil. O deputado também diz que desconhece o fato.

Pelo andar do drama, negando a verdade sobre o óbvio, o que se terá, mais cedo ou mais tarde, não o Eduardo Cunha que galvaniza a atenção do País. Restará, apenas, sua sombra, como aquelas que restaram em paredes de prédios em Hiroshima após o lançamento de uma bomba atômica sobre a cidade. Todas anônimas, a de Eduardo Cunha sendo, apenas, uma sombra que atrapalha a tomada de decisões nas resoluções dos conflitos gerados pelas crises política e econômica.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
24/10/2015

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