A que ponto chegamos

Há exceções, claro, porque sempre as há, mas a degradação moral e ética é alarmante, assustadora. Começa no primeiro escalão do governo, envolvendo a própria presidenta da República que não parece ter oportunidade e tempo para refletir sobre a sequência de demandas, pedidos, sugestões, não se sabendo, inclusive, se a presença constante de Luiz Inácio no seu gabinete seria para ajudá-la ou, apenas, solicitar algum favor, contato ou negociação que evite vir a ser engolido pela avalanche de denúncias que começaram a surgir a partir da deflagração da Operação Lava-Jato e outras que se seguiram.

Essa degradação alcança ministérios, Congresso, partidos políticos e todo tipo de associação política.

Um novo laudo da PF mostrou que o rombo na Petrobrás, o petrolão, pode ter chegado a 42 bilhões de reais. Os desvios teriam ocorrido entre 2004 e 2014. Isso faria do PT, PP e PMDB, partidos que estariam diretamente envolvidos com a roubalheira, em agremiações criminosas. Havendo exceções, o que torna incompreensível é uma aparente ignorância do que estava acontecendo pelos que poderiam se apresentar como nobres e honrados membros daqueles partidos.

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O caso, no momento em mais evidência de negação de envolvimento com o assalto é o presidente da Câmara, deputado federal Eduardo Cunha. Esse cidadão tornou-se o centro das atenções no País, havendo um esforço de alguns políticos em dele se aproximarem e outros tantos em se afastarem. Mas, entre os que querem proximidade há um caso peculiar de demonstração de quem teria a coragem de expor a todos a sua vileza: trata-se do deputado, conhecido como Paulinho da Força, que declarou que defenderá Eduardo Cunha no Conselho de Ética da Câmara com o objetivo de preservá-lo para que possa dar início, na Câmara, a um processo de impeachment da presidenta. Isso faria de Cunha um objeto e não um ser humano, alguma coisa que possa ser usada como uma arma. A pergunta é: como pode Eduardo Cunha aceitar ser usado dessa maneira? A resposta talvez seja, “com naturalidade” por ser um episódio que expõe sua natureza como ser humano: seria vil, também.

Eduardo Cunha é um caso peculiar. Talvez deva ser colocado sob hipnose para se lembrar de tudo o que lhe aconteceu desde a década de 1980 quando teria tido muito sucesso em negócios na África. O testemunho seria gravado, claro, para que confirme, a seguir, as declarações que faria. Foi capaz de guardar os passaportes onde 37 carimbos comprovam o número de vezes que foi à África. Mas, estranhamente, não consegue se lembrar do nome das empresas com as quais negociou. Uma, no Brasil, enlatadora de carne, outra na África, importadora das latas, É preciso que recupere a memória e, depois, explique o alegado empréstimo de 1,3 milhões de francos suíços a um deputado federal que, afinal, por ter falecido, não pode, em vida, pagar a dívida. E, a seguir, desde que momento Eduardo Cunha considerou como “fundo perdido”, aquele valor, R$4,9 milhões. É, aproximadamente, o que está depositado na conta de um trust do qual Cunha é beneficiário. Deve ser um homem muito generoso, explicando que o dinheiro teria sido depositado no banco onde o alegado trust tem contas, pelo filho ou por ordem deste, do amigo-deputado falecido.

De um modo geral vivemos dias dos quais, em maior ou menor grau, 204 milhões de brasileiros se envergonham.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
12/11/2015

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