A primeira representação visual de manguezal do Brasil

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Antes dos holandeses, parece que ninguém realizou um registro iconográfico de um manguezal brasileiro. Nem desenho nem pintura. Apenas registros escritos. Os portugueses já conheciam o ecossistema manguezal antes de chegar ao Brasil. Os navegantes que foram avançando pouco a pouco em expedições navais de cabotagem junto à costa oeste e leste da África devem ter deparado com manguezais pequenos e grandes em estuários.

O piloto árabe Ahmad Ibn-Magid, que conduziu a armada de Vasco da Gama de Melinde a Calicut, deixou três roteiros de navegação escritos em po¬esia: o de Sofala, o de Malaca e o do Mar Vermelho. O primeiro deles, escrito pouco depois da viagem de Vasco da Gama à Índia, descreve a rota de norte para sul da costa oriental da África, referindo-se com temor aos manguezais. No verso 94: 4, ele exclama: “São baixios pantanosos, juntos a montanhas – conhece-os só o meu Deus, Se¬nhor glorioso.” O comentarista do poema esclarece que o navegador refere-se às terras baixas e pantanosas, cobertas de mangues, ao pé de colinas, ou mé¬dãos, com 115 metros de altitude. Para os nautas, estas áreas eram intranspo¬níveis tanto na maré alta quanto na maré baixa. Na preamar, os barcos não conseguem singrar por entre ou por sobre o bosque cerrado. Na baixa-mar, as embarcações de maior porte ficariam encalhadas na vaza, correndo o ris¬co de atolar-se aquele que desejasse penetrá-lo a pé. Eis porque ele só é acessí¬vel ao Senhor Glorioso (BARRADAS, Lereno. O sul moçambicano no Roteiro de Sofala do piloto Ahmad Ibn-Madjid. Revista da Universidade de Coimbra vol. XXII. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1967).

Os cronistas portugueses pintavam as terras não europeias em preto e branco, sem o toque de ficção dos espanhóis. O discurso que nasce de sua pena melhor seria classificado como informativo do que como científico, poético ou ficcional. Resumem-se, quase todos eles, a referências de primeira vista e destinadas a ações pragmáticas. Só mesmo a partir de fins do século XVIII, sob influência da Filosofia das Luzes, portugueses e brasileiros ensaiam um discurso mais denso que o meramente informativo, aproximando-se daquilo que chamamos de discurso científico, desde o século XVII já praticado por franceses, holandeses, alemães e ingleses.

Parece consensual que o primeiro informe sobre a existência de manguezais, no Brasil, cabe ao Padre José de Anchieta. Numa carta datada de maio de 1560, dizia ele: “DA ÁRVORE MANGUE: Também há outras árvores, que por toda parte cobrem os braços de mar, onde crescem: cujas raízes estendendo-se, umas desde quase o meio do tronco, outras do ponto em que os galhos ao nascer se levantam, quase do comprimento da lança, pouco a pouco vergam para a terra, até lá chegarem depois de muitos dias.” (ANCHIETA, José de. Carta fazendo a descrição das inúmeras coisas naturais, que se encontram na província de S. Vicente hoje S. Paulo.  Cartas Inéditas. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas/Instituto de Documentação, 1989).

Referia-se ele à “Rhizophora mangle”. Trata-se de um registro sumário, exclusivamente descritivo, em que o caráter utilitarista está oculto, mas não ausente, a julgar pelo conjunto dos escritos do jesuíta e, principalmente, por sua ação catequética.

No primeiro século do Brasil colonial, outro a escrever sobre os manguezais foi Pero de Magalhães Gandavo, português que deve ter conhecido as capitanias de Ilhéus, da Bahia e possivelmente de São Vicente. Com certeza, não pisou em Pernambuco. Suas informações foram colhidas e seus trabalhos redigidos talvez entre 1558 e 1572. No seu mais conhecido livro, ele menciona que “Também há muita infinidade de mosquitos, principalmente ao longo de algum rio entre umas árvores que se chamam mangues, não pode nenhuma pessoa esperá-los.” A curta observação do viajante conota certa perplexidade com o local em que tais plantas se desenvolvem. Pode-se supor que o termo mangue não era ainda corrente na língua portuguesa. Do contrário, não seria necessário explicar que essas estranhas árvores eram conhecidas por tal nome. Gandavo está escrevendo para portugueses de Portugal, não para portugueses do Brasil, seus descendentes, mestiços e indígenas (GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil, no qual se contém a informação das cousas que há nestas partes. Cadernos de história vol. 1. São Paulo: Parma, 1979).

Outro português a escrever sobre o Brasil, captando o frescor da sociedade colonial em sua formação, foi Gabriel Soares de Sousa. Depois de breve notícia acerca das capitanias e de seus mais relevantes acidentes geográficos, o autor detém-se nas terras da Bahia. Em seu livro, datado de 1587, ele não mais se preocupa em esclarecer o significado de palavras como mangue e salgado, sugerindo que elas já haviam se incorporado ao vernáculo. Sua atenção se volta para a descrição desse ambiente e das denominações que os povos de fala tupi empregavam para nomear suas plantas: “Pelo salgado há uma casta de mangues, a que os índios chamam sereíba, que se criam onde descobre a maré, os quais lançam muitos filhos ao pé todos de uma grossura, delgados, direitos, de grossura que servem para encaibrar as casas de mato, e os mais grossos servem para as casas dos engenhos, por serem muito compridos e rijos, e de grossura bastante. Destes mangues se faz também lenha para os engenhos, aos quais caem algumas folhas, que se fazem amarelas, de que se mantêm os caranguejos, que por entre eles se criam; e dão estas árvores umas espigas de um palmo, de feição das dos feijões, e têm dentro um fruto à maneira de favas de que tornam a nascer ao pé da mesma árvore, e por derredor dela (…) Canapaúba é outra casta de mangues, cujas árvores são muito tortas e desordenadas, muito ásperas da casca, cujas pontas tornam para baixo em ramos muito lisos, enquanto novos e direitos, e vêm assim crescendo para baixo, até que chegam à maré; e como esta chega a eles logo criam ostras, com o peso das quais vêm obedecendo ao chão até que pega dele, e como pega logo lança ramos para cima, que vão crescendo mui desafeiçoados, e lançam mil filhos ao longo d’água, que tem tão juntos que se afogam uns aos outros”. (SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587, 3ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. As descrições analisadas encontram-se na segunda parte do livro, intitulada “Memorial e Declaração das Grandezas da Bahia”).

Da sereíba, Sousa anota que ela se desenvolve mais na zona entre marés, lançando uma profusão de propágulos que dão origem a uma multidão de plântulas com crescimento retilíneo. Pelo nome da planta, pode-se supor que se trata da ainda hoje conhecida siriba, siribeira, siriúba, no Brasil representada pelas espécies “Avicennia schaueriana” e “Avicennia germinans”. Todavia, ao descrever seu propágulo como semelhante à fava do feijão, com cerca de um palmo, e suas folhas, que, amarelecidas, caem da árvore e são devoradas pelos caranguejos, Sousa parece falar do mangue vermelho, “Rhizophora mangle”. Outro indício em favor do mangue vermelho ou mangue verdadeiro é a informação dele sobre os usos econômicos do vegetal na obtenção de caibros para a construção de casas de mato e dos engenhos, por seu comprimento, diâmetro e rigidez ou para combustível. É por demais conhecida a densidade lenhosa da “Rhizophora” e seu potencial calórico.

O autor ainda aponta a canapaúba, segundo ele árvore torta e desordenada, com casca bastante áspera e alguns galhos que se dirigem para baixo até tocar as águas das marés. Tal arquitetura permite que, nesses ramos baixos, incrustem-se ostras cujo peso contribui mais ainda para vergar os galhos em direção ao solo. Tal qual a espécie anterior, também esta lança propágulos junto à árvore mãe em tamanha quantidade que, a juízo do autor, afogam-se mutuamente. Cabe atentar para as informações de Sousa a respeito do pragmatismo europeu nos usos das árvores de manguezal. Essa espécie, sim, parece ser “Rhizophora”.

O francês André Thévet também deixou seu testemunho sobre a então bizarra vegetação tropical, na segunda metade do século XVI: “No território que fica ao lado do rio, próximo do mar, encontram-se umas árvores e uns arbustos que ficam inteiramente cobertos e carregados de ostras, de alto a baixo. Como o leitor deve saber, quando a maré sobe, uma grande onda penetra pela terra adentro, repetindo-se este fenômeno duas vezes a cada 24 horas. Esta onda cobre a maioria destes arbustos, especialmente os mais baixos. Como as ostras possuem uma certa viscosidade própria, ficam agarradas nos seus ramos em quantidades incríveis. Por isto, quando os selvagens as querem comer, cortam estes ramos cheios de ostras (lembrando galhos de pereira carregados de frutas), levando-os consigo para casa. Preferem estas ostras do mangue às graúdas de alto mar, alegando que as miúdas são mais saborosas e sadias, ao passo que as outras geralmente produzem febres.” .(THÉVET, André. Singularidades da França Antártica. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1978).

O estranhamento em relação ao manguezal se expressa na comparação das ostras grudadas aos galhos (ou rizóforos) com ramos de pereira. Como o discurso dirigia-se a leitores europeus, fazia-se necessário estabelecer aproximações que permitissem a sua compreensão.

De Fernão Cardim é o relato repleto de exageros registrado na segunda metade do século XVI. Referindo-se a árvores que se criam na água salgada, ele informa que elas, conhecidas pelo nome de mangues, “… se parecem com salgueiros ou sinceiros da Europa, deles há tanta quantidade pelos braços e esteiros que o mar deita pela terra dentro, que há léguas de terra todas deste arvoredo, que com as enchentes são regadas do mar; caminhamos logo léguas por estes esteiros e dias inteiros pelos rios onde há estes arvoredos; estão sempre verdes, e são graciosos, e aprazíveis, e de muitas espécies; a madeira é boa para queimar, e para emadeirar casas; é muito pesada, e rija como ferro: da casca se faz tinta, e serve de casca para curtir couros; são de muitas espécies: um certo gênero deles deita uns gomos de cima de comprimento às vezes de uma lança até chegar à água. E logo deitam muitas trempes, e raízes na terra, e todas estas árvores estão encadeadas e feitas em trempes, e assim as raízes, e estes ramos tudo fica preso na terra; enquanto são verdes estes gomos são tenros, e porque são vãos por dentro se fazem deles boas frautas. Nestes mangues há um certo gênero de mosquitos que se chamam Mariguis, tamanhinhos como piolho de galinha: mordem de tal maneira e deixam pruído, ardor e comichão, que não há de valer-se uma pessoa, porque até os vestidos passam, e é boa penitência e mortificação sofrê-los uma madrugada, ou uma noite; para se defenderem deles não há remédio senão untar-se de lama, ou fazer grande fogo, e fumaça (…) Nestes mangues se criam muitos caranguejos, e ostras, e ratos, e há um gênero destes ratos cousa monstruosa, todo o dia dormem e vigiam de noite (…) Nestes mangues criam os papagaios que são tantos em número, e gritam de tal maneira, que parece gralheado de pardais, ou gralhas (…) Nas praias se acha muito perrexil, tão bom e melhor que de Portugal, que também se faz conserva.”

A necessidade de associar flora e fauna a plantas e animais conhecidos na Europa se mostra sempre presente para facilitar a compreensão por parte dos leitores ou já se tratava, então, de copiar escritos anteriores. Cardim enxerga o manguezal com bons olhos, considerando-o aprazível e informa suas largas extensões no século XVI. Certamente, ele teve oportunidade de conhecer esse ecossistema costeiro em sua pujança. Mas também já dá notícia dos usos feitos pelos europeus: energia, madeira para construção de casas, tinta para curtir couros. A raiz e o propágulo de mangue vermelho não são ocos para permitir a fabricação de flautas, como anota Cardim. Quanto à fauna, o maruim, de fato, é um mosquito infernal e bem apropriado para penitências, como sugeriu o padre. Quanto ao rato de dimensões monstruosas, pode ser o gabiru.

Completando sua descrição, ele registra os três caranguejos mais frequentes nos manguezais do Brasil: “Uçá – … é um gênero de caranguejos que se acham na lama, e são infinitos, e o sustentamento de toda esta terra, máxime dos escravos da Guiné, e Índios da terra: são muito gostosos, sobre eles é boa água ria. Têm uma particularidade de notar, que quando mudam a casca se metem em suas covas, e aí estão dois, três meses, e perdendo a casca, boca, e pernas, saem assim muito moles, e torna-lhe a nascer como dantes. Guanhumig – Este gênero de caranguejos são tão grandes que uma perna de um homem lhe cabe na boca; são bons para comer; quando fazem trovões saem de suas covas, e fazem tão grande matinada uns com os outros, que já houve pessoas que acudiram com suas armas, parecendo que eram inimigos; se comem uma certa erva, quem então os come morre. Estes são da terra, mas vivem em buracos à borda do mar. Aratu – Estes caranguejos habitam nas tocas das árvores, que estão nos lamarões do mar; quando acham algumas amejas tem a boca aberta, buscam logo alguma pedrinha, e sutilmente dão ela na ameja; a ameja logo se fecha e não podendo fechar bem, por causa da pedrinha que tem dentro, eles com suas mãos lhe tiram de dentro o miolo, e o comem (…) Há dez ou doze espécies de caranguejos nesta terra, e como tenho dito, são tantos em números, e tão sadios que todos os comem, máxime os Índios.” (CARDIM, Fernão. “Do Clima e Terra do Brasil – e de algumas coisas notáveis que se acham assim na Terra como no Mar” Tratados da terra e gente do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1980).

As observações são bem precisas no que concerne ao modo de vida do uçá: crustáceos que cavam tocas na vasa do manguezal e que mudam de carapaça vivendo uma fase de retiro, quando ficam muito enfraquecidos. É preciosa também a informação de que eles estão incluídos na base alimentar de índios e escravos de origem africana. O guaiamum não escapou da visão fantasiosa do padre, certamente reprodução das crenças populares vigentes: caranguejos enormes cuja boca comporta a perna de um homem e que saem em romaria quando troveja. Capazes de azáfama semelhante à de um bando de arruaceiros ou homens armados. Animais venenosos com poder de matar quem os ingere, caso comam certa sorte de vegetal, talvez a aninga, de fato uma planta tóxica.

O missionário francês Claude D’Abeville, ao servir na França Equinocial, criada no Maranhão, em 1614, deparou com o ecossistema manguezal, já conhecido pelos franceses que frequentaram a França Antártica no século XVI. Em seus apontamentos, as plantas exclusivas deste ecossistema são grafadas com o nome de “apparituriers”: “Para além do cabo das Tartarugas, até o cabo das Árvores Secas, há somente bancos de areia e recifes que penetram mar adentro quatro a cinco léguas e às vezes até seis, sete, oito e dez, não sendo possível a ninguém aproximar-se da terra nem embarcado, nem a nado ou a pé. Também entre os dois cabos se encontram bancos de areia e recifes, e, sem o conhecimento das duas passagens existentes, não há homem por mais destemido que se atreva a tentar a travessia. É o que concorre para exaltar a coragem dos maranhenses, os quais, sentindo-se em lugar tão seguro, fazem a guerra aos outros sem que ninguém ouse atacá-los (…) Por outro lado, do cabo de Tapuitapera, próximo ao Maranhão, até o rio das Amazonas, há tantas ilhas ao longo da costa que se faz impossível chegar à terra firme; tanto mais quanto esta se acha coberta de certas árvores que dão o nome de Apparituriers, cujos galhos se vergam ao tocarem o chão, criam raízes formando outras árvores que crescem e deitam novos galhos, os quais criam raízes e formam novas árvores; e de tal modo se entrelaçam árvores e raízes que parecem constituir uma só planta alastrando-se por toda parte.

Quando outra coisa não houvesse, isso bastaria para tornar a costa inacessível a ponto de não se poder imaginar sem o ter visto. Somente um puro espírito, suscetível de penetrar através das coisas, ou um pássaro capaz de voar por cima delas, poderia atravessar esses baluartes erguidos por Deus e pela natureza em redor do país. Mas o acesso se torna tanto mais difícil quanto nessas ilhas e sob os apparituriers, só se deparam charcos e areias movediças, nas quais a gente afunda até a cintura e mesmo até a cabeça e das quais uma vez atolado, não há força humana capaz de safar o sujeito. E acontece ainda que duas vezes ao dia, cobre a maré esses pântanos e areias movediças e passa por cima das raízes dos apparituriers erguidas além da superfície da terra, em muitos lugares à guisa de altas muralhas.”

As palavras do capuchinho expressam o temor que os navegantes tinham dos manguezais. Também é minuciosa, embora não fantasiosa, por um lado, ou devidamente contextualizada, por outro, a relação de crustáceos que o cronista levanta no Maranhão ocupado pelos franceses, com destaque para o uçá, nome pouco usado atualmente pelo leigo, o aratu e os siris: “Outros, chamados uçá, são do mesmo tamanho, mas têm as patas peludas e vermelhas. Encontram-se nas raízes dos apparituriers de beira-mar (…) O ujá-uaçu, caranguejos de mais de um pé, se encontra nas pedras entre as ostras (…) O aratu, um pouco menor do que o precedente, é rajado de amarelo e azul. É encontrado no mar (…) Os siris também se encontram no mar. Há azuis e brancos (…) Há o auará-uçu, caranguejo branco maior do que um punho. Gostam do âmbar cinzento, por isso quando este se encontra à beira-mar, a descoberto, ou mesmo escondido nas areias, os auará-açus fazem círculo em torno dessa substância e carregam quanto podem para os buracos em que habitam e onde a vão buscar os que a conhecem.” (ABEVILLE, Claude d’. História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e Terras Circunvizinhas. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975).

Original da Bahia, Frei Vicente escreve uma história do Brasil em estilo narrativo desprovido da visão de processo, ainda não instaurada na historiografia à época. Datada de 1627, ela chega aos manguezais através de moluscos e crustáceos: “Mariscos há em muita quantidade, ostras, umas que se criam nos mangues, outras nas pedras, e outras nos lodos, que são maiores. Nas restingas de areia há outras redondas e espalmadas em que se acha aljôfar miúdo, e dizem que, se as tirassem do fundo, de mergulho, achariam pérolas grossas (…) Há briguigões, amêijoas, mexilhões, búzios como caracóis, e outros tão grandes que, comida a polpa ou miolo, fazem das cascas buzinas em que tangem e soam mui longe (…) Há muitas castas de caranguejos, não só na água do mar e nas praias entre os mangues, mas também em terra, entre os matos, há uns de cor azul chamados guaiamus, os quais em as primeiras águas do inverno, que são em fevereiro, quando estão mais gordos e as fêmeas cheias de ovas, se saem das covas e se andam vagando pelo campo e estradas e metendo-se pelas casas para que os comam.” (SALVADOR, Vicente do. História do Brasil: 1500-1627. Belo Horizonte: Itatiaia/São Paulo: Edusp, 1982).

Mostra o frei que os dois grupos de animais vivem não apenas nos mangues, mas também nas pedras, nas areias das restingas, nos brejos e no mar. Na sua visão utilitarista, observa apenas que os moluscos produzem pérolas e alimento, também servindo como buzinas. Quanto ao guaiamum (“Cardisoma guanhumi”), habitante da parte mais alta e seca do manguezal, acredita ele que as fêmeas ovadas abandonam suas tocas com as primeiras águas do inverno, em fevereiro (sic.), e vagam pelos campos, estradas e casas, oferecendo-se gordas para serem comidas, o que ilustra com clareza a concepção de uma natureza que existe para atender às necessidades do ser humano.

Os holandeses inauguram nova fase de conhecimento do Brasil. Eles tentaram fundar uma colônia na Bahia em 1624, mas foram rechaçados. Uma nova tentativa em Pernambuco, em 1630, obteve êxito por 24 anos. A Holanda era, então, um grande centro econômico. O açúcar produzido no Brasil e vendido à Holanda, através de Portugal, era refinado por refinarias holandesas e distribuído pela Europa. A Holanda não queria apenas refinar, mas também controlar um importante centro produtor. Daí, o país criou a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, que fundou uma colônia no Nordeste do Brasil. O período de maior prosperidade dessa colônia correspondeu ao governo do príncipe João Maurício de Nassau, entre 1637 e 1644. Homem culto, Nassau trouxe com ele cientistas e artistas. George Margrave e Guilherme Piso impulsionaram o conhecimento científico. Ambos são representantes da mais alta ciência antes de Lineu. A descrição do manguezal feita por Guilherme Piso só será superada por Von Martius, no século XIX.

Com Nassau, vieram também o retratista Albert Eckhout e o paisagista Frans Post. Recife passou por mudanças profundas para se tornar uma cidade de tipo europeu. Eckhout retratou os habitantes da terra e seus costumes. Frans Post começou sua carreira de pintor no Brasil. Apenas sete quadros pintados por ele no Brasil chegaram aos dias de hoje. Dele, são as primeiras telas retratando manguezais. A mais antiga delas (1637) é uma vista de Itamaracá. Moitas junto a um escravo sugerem vegetação de manguezal. O local focalizado por Post foi recentemente fotografado por Zeca Fonseca, mostrando uma planta de mangue.

 primeiroManguezalPintura1 Vista de Itamaracá, óleo de Frans Post datado de 1637, primeiro quadro pintado por ele no Brasil. O primeiro plano sugere área de manguezal  primeiroManguezalPintura2Foto de Zeca Fonseca tirada no mesmo ponto pintado por Post, mostrando planta de mangue, provavelmente siribeira

O quarto óleo de Post trata-se de “Vista da cidade de Frederica na Paraíba”, pintado em 1638. Seu objetivo foi retratar a cidade que hoje é João Pessoa, às margens do Rio Paraíba do Norte, com vegetais em primeiro plano. Entre eles, um exemplar de aninga e outro de mangue vermelho com seus rizóforos. Esta bela paisagem foi usada para ilustrar o livro “O domínio holandês”, de Caspar Barleus, também da comitiva de Nassau, e copiada na Europa pelo francês Thièry, conforme informação de LAGO, Pedro e Bia Corrêa do. Frans Post {1612-1680} Obra completa. Rio de Janeiro: Capivara, 2006.

 primeiroManguezalPintura3 Vista da cidade de Frederica/PB, óleo de Frans Post de 1638 com plantas de manguezal em primeiro plano primeiroManguezalPintura4Mesma paisagem modificada e inserida como ilustração no livro de Barleus  primeiroManguezalPintura5Mesma paisagem de Post reproduzida e modificada por Thièry 

 

O manguezal aparece em outros quadros, embora não reconhecível à primeira vista. Em “Paisagem de várzea”, pintada entre 1656-59, já na Europa, Post retrata um formoso bosque que acompanha, ao que tudo indica, um rio pela margem direita em direção ao mar. Ampliando-se a paisagem, aparece um emaranhado semelhante a rizóforos.

 primeiroManguezalPintura6 Paisagem de várzea, óleo de Frans Post pintado na Europa entre 1656-59, retratando um bosque semelhante a manguezal  primeiroManguezalPintura7Detalhe da tela ao lado, mostrando plantas que sugerem mangue vermelho

 

Assim, a representação pictórica dos manguezais brasileiros só começou com os holandeses, e começou bem, quase cento e cinquenta anos após a chegada de Cabral. Certamente, o manguezal já tinha a fama de pântano infecto e não merecia a devida atenção de retratistas. Ele acaba figurando nas telas por estar próximo ao assunto de interesse do pintor. Só com von Martius, Maurício Rugendas e Hércule Florence, no século XIX, o manguezal será representado em detalhes.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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