A L G U É M

A estrada era de chão. Antes era o leito da estrada de ferro que foi desativada lá pelos idos de 1962.
Caminhar nesse antigo leito de estrada de ferro é confortável, porque não existe nem aclives nem declives pronunciados, é quase que em nível.
Eram 7 horas da manhã. Nessa região montanhosa o sol aparece mais tarde.
Gostavam de caminhar cedo para ver os primeiros raios de sol, o nevoeiro se dissipando e tinham a sensação de que o ar era mais leve, mais puro. Durante a noite quando as atividades dos homens se interrompem, a natureza tem condições de melhorar suas condições tais como limpar a camada de ar perto da superfície da terra.
Acabaram de passar por um trecho cercado de mata dos dois lados da estrada, trecho sombreado e com mais frescor.
Caminhavam, paravam, olhavam.
Havia muitas coisas para olhar, tais como os troncos das árvores que ficavam na encosta, ou as copas das que ficavam na encosta descendente. Os troncos tinham desenhos de tons de nuances, não muito variadas, mas que incitavam e agradavam a mente.
As copas das árvores mais embaixo eram também muito variadas pela forma, pelos tons de verde e pelo tipo de folhas.
Também o chão incitava a atenção pelos tons da terra. Faixas de tons marrons escuro seguiam ondulando pelo leito, ao lado de faixas de marrom claro, outras cor de cerâmica. Às vezes as faixas pareciam que seguiam sempre em frente e, de repente inclinavam-se e subiam enviesadas pelo barranco, dando continuidade à aquela pintura feita pela natureza.
Falavam pouco, observavam a natureza, sentiam o agradável frescor da manhã, escutavam o canto dos pássaros e, de vez em quando, sentiam fragrâncias deliciosas.
A ligeira brisa criava movimentos nos ramos mais leves e nas folhas. Esse movimento incessante da natureza conduzia movimentos também incessantes de seus olhos.
Não queriam perder nada do que acontecia ao redor.
Seus olhos se moviam rápidos, acompanhando o mover externo que por sua vez, fazia suas mentes se moverem também rapidamente, como que buscando algum pensamento para ligar com alguma coisa, como que gerando alguma pergunta que não haviam “perguntado” ainda.
Mentes alertas. Mentes conscientes do mundo externo e interno. Sentidos alertas para as formas, as cores, os movimentos, para as fragrâncias, para os sons, para a brisa da manhã.
Mente alerta também para as diferenças e saliências do piso da estrada. As enxurradas do verão passado criaram sulcos, como que miniaturas de leitos secos de pequeninos córregos. Dois dias antes tinha havido uma forte chuva, talvez a última do verão e nesses pequeninos leitos da enxurrada havia pequenos trechos de uma areia fininha, gostosa de pisar e também pequenos acidentes que exigiam cuidados e atenção de quem caminhasse por ali.
Grace estava agora justamente caminhando por esse leito da enxurrada e pensando em voz alta: “Na vida, você procura escolher seu caminho, mas o poder de determinar seu caminho não é só seu. O mundo externo e os contextos em particular também interferem na sua mente e determinam muitas vezes para você um caminho inesperado e nada confortável.”
E continuou:
-“Se você sempre caminha pela parte boa da estrada, pode estar criando uma ilusão”. “Se você caminha um pouco pela parte acidentada das enxurradas, estará se educando para aprender a contornar os obstáculos ou a encontrar sempre a melhor maneira de prosseguir pela vida”.
Timóteo também tirou seus tênis e caminhou um pouco pelo leito das enxurradas.
A excitação mental da caminhada, junto com a excitação muscular, produzia um estado de bom humor e de alegria.
Olharam-se um ao outro e sorriram.
Estavam em plena integração com a natureza externa e com a natureza interna, isto é, consigo próprios. Estavam totalmente no momento presente, transbordando de felicidade.
Mas, às vezes, nas entrelinhas da felicidade, surge alguma dúvida e então a pergunta que não havia perguntado ainda, apareceu e perguntou. (Grace fez uma pausa e ficou pensando o seguinte):
“Ha perguntas que parecem que têm vida própria. Elas surgem na mente e ficam lá questionando sem parar. Muitas vezes são perguntas cujas respostas estão fora do raciocínio, fora da lógica, fora da capacidade do cérebro em dar uma resposta rápida e satisfatória.”
“São geralmente perguntas sobre a vida, sobre você, sobre pessoas, sobre a mente. Às vezes alguém lhe pode dar uma resposta satisfatória,mas na maioria das vezes, você é que tem de encontrar as respostas.”
“Se você mantiver essa pergunta perguntando, isto é viva em sua mente, você encontrará a resposta satisfatória para você e somente para você. Não será satisfatória para os outros. Essas são as perguntas que exigem uma experiência pessoal para serem respondidas. Não serve a experiência de outro”.
Grace interrompeu seus pensamentos e perguntou:
Meu bem, o que é crescimento espiritual?
Ele apenas parou, olhou-a nos olhos e aguardou.
E ela continuou:
-Crescimento espiritual ou desenvolvimento espiritual é a mesma coisa que desenvolvimento pessoal?
“Ha perguntas que para serem entendidas e ou respondidas geram outra e depois outra e assim, de pergunta em pergunta, você pode ter um entendimento melhor da questão.obteve a resposta.”
Ele abriu a boca para falar e nesse exato momento escutou o grito do gavião. Não era o canto de um pássaro, mas era o grito do gavião. Sentiu um arrepio na espinha, olhou para cima ainda a tempo de vê-lo, majestoso, num vôo sereno, em círculos.
Como que automaticamente Timóteo voltou no tempo e no espaço e estava agora na fazenda de seu avô, lá em Minas Gerais.
Eu era um menino e tinha uns 10 anos mais ou menos. Estava correndo descalço pelo pasto afora. Numa das mãos segurava o cabresto. Voltava para casa.
Naquela manhã, seu pai lhe dissera:
-Pega o cabresto da Magnólia e vai lá ao pasto trazer a mula porque eu preciso tratar da ferida que ela tem no casco.
Ordens dele eram seguidas sem titubear. Eu nem pensei em dizer que era domingo e que tinha ainda de me lavar, arrumar, para ir a igreja.
O pasto era longe, cerca de um quilometro da casa e se estendia por mais uns três quilômetros. Esta é uma região muito montanhosa. O clima é ameno onde o inverno é bastante frio. A cidade tinha sido fundada por imigrantes suíços e alemães, no século 19.
A mula Magnólia era muito inteligente e também trabalhava muito, como todo mundo na fazenda. Sendo inteligente e sabendo que não trabalhava aos domingos, ela ficava longe lá no final do pasto, o que me obrigou a andar muito. E enquanto eu andava subindo aquele pasto íngreme, o gavião gritava como que avisando a todos os interessados de que havia um ser estranho e talvez
Quando chegou perto da mula, esta se afastou, pois estranhou sua presença porque era domingo. Chegou perto novamente e ela se afastou e esse ritual continuou até que ele desistiu. Esquecera de levar comigo umas 2 espigas de milho para usar como engodo e distraí-la enquanto lhe punha o cabresto.
Por causa desse esquecimento, perdeu muito tempo e, assim, teve de voltar correndo para casa, afim de se arrumar e ir à igreja.
Gostava muito de correr, descendo pelos pastos. Descidas íngremes e com risco de pisar num toco de samambaia do pasto, ou escorregar e se dar mal.Naquele dia, sentiu uma vibração interior, sabia que era hábil e sentia-se poderoso nessa ação cheia de riscos, mas na qual já Corria e tinha a sensação de que quase voava. O vento fresco batia em meu rosto e deslizava pelas orelhas, produzindo um som gostoso que se misturava com o grito do gavião e o relincho da Magnólia, que parecia estar também se divertindo com aquela situação.Momento inesquecível e cheio de felicidade!
Sabia que chegaria a tempo de ir à igreja. Talvez não desse tempo de tomar banho o que seria uma vantagem, porque a água era gelada (não havia banho quente). E, enquanto “voava” morro abaixo sem medo algum, parecia que “alguém” o protegia dos riscos.
Ele não tinha interesse algum em ir à igreja. Isso era coisa dos adultos.
Não entendia nada de coisas espirituais. Ficar sentado lá na igreja era uma chatice e não combinava nada com sua vontade de correr e brincar. Deus era apenas um enorme poder que estava a fim de ser obedecido, caso contrário o castigo era enorme, era fatal e doloroso. Como eu não conhecia ninguém que tivesse sido castigado tão duramente, então, não se preocupava muito com isso Cresceu frequentando a igreja. Cresceu fisicamente. Não se falava em crescimento espiritual. Nem em crescimento pessoal. Falava-se em estudar, trabalhar e obedecer.
O gavião gritou novamente e o trouxe de volta para o presente.
Grace estava parada um pouco à frente voltada para ele, olhando-o com um ar de interrogação, e perguntou:
Meu bem, o que aconteceu? Você parou. Viu algo interessante? Porque esse sorriso?
-Desculpe-me, mas quando você perguntou o que é desenvolvimento espiritual, eu ouvi o gavião gritar e fui transportado para minha infância. Então ele contou para ela o que tinha se passado. Ela sorriu também e continuou:
Acho que os dois têm algo em comum. Ambos referem-se à pessoa como um todo. Alguns separam e dividem o ser em corpo ou matéria e mente ou espírito e, para estes, o desenvolvimento/ crescimento espiritual trata-se apenas do desenvolvimento do espírito ou mente,ele acrescentou. Outros entendem que corpo e mente são uma coisa só, nesse caso crescimento espiritual é também desenvolvimento pessoal.
Alguns definem crescimento espiritual como uma aproximação com o Criador, com Deus, com a Inteligência cósmica. Nesse caso são coisas diferentes porque desenvolvimento espiritual esta relacionado a uma experiência mística e desenvolvimento pessoal refere-se à pessoa em seu ambiente.
Em todos esses casos, a experiência acontece na mente, no cérebro, e qualquer que seja a experiência, quem passa por ela é a mente e sendo a mente e corpo uma coisa só, então alguém poderá sempre dizer que os dois são uma coisa só.
-Mas, minha bem, Grace falou, você não acha que o cérebro tem algo mais que a matéria do corpo?
Grace estava no processo de criar perguntas. As perguntas que criam vida própria e não desaparecem. E ele continuou, como que pensando em voz alta:
-O cérebro não está restrito somente à caixa craniana do ser. O cérebro é a parte principal do sistema nervoso, que se espalha pelo corpo todo do ser. Em todo o corpo existem ramificações do sistema nervoso, com suas células, os neurônios.
Esta rede de neurônios espalhada pelo corpo forma um complexo sistema de informação, que permite ao sistema um permanente e continuo processo de gerenciar tudo no corpo, tais com dar comandos e receber informação do que esta acontecendo, e garantir que tudo ocorra de acordo com sua vontade, ou de acordo com a vontade da parte do corpo.
Por exemplo, se você leva uma pancada no dedinho,ele reclama doendo, e essa informação vai ao sistema nervoso central no cérebro(SNC), que então providencia ações para ajudar o dedinho, como impedir que você o use, até ele melhorar.
Se você come uma feijoada bem rica, mais cerveja, etc., seu estomago poderá ficar com problemas e então solicitará a ajuda do SNC (Sistema Nervoso Central), que então comandará ações para minimizar o problema, tais como a produção de algum hormônio, ou induzir você a tomar algum remédio e não mais repetir este tipo de refeição.
Isso se chama um sistema de informação com inteligência distribuída. Existe ainda sistema nervoso autônomo, o sistema nervoso simpático, o sistema nervoso parassimpático, e o sistema imunológico. Todos trocando informações que permitem ao ser continuar vivo e em boas condições. Ignorar esse funcionamento como um todo é correr o risco de quebrar a harmonia e o equilíbrio, e perder as boas condições de funcionamento.
À medida que o ouvia falar, Grace se entusiasmava e por fim disse:
-Essa é um ideia muito interessante, porque alguém poderá dizer que o desenvolvimento pessoal refere-se a tudo isso, a um pleno entendimento da integração mente e corpo, podendo talvez até chegar a não mais usar as palavras mente e corpo e sim à palavra “EU”. O “EU” passa a ser o todo, “o ser total”, a “pessoa”.
E tudo que ocorre em qualquer parte desse “EU” é uma consequência do todo. Isso quer dizer que, se o estomago tem problemas, não é mais um problema do estomago, mas é um resultado produzido pelo “EU total.”
Se o intestino fica preso, e segura o “material”, isto é o resultado produzido pelo “EU TOTAL” e não é um problema localizado. E quem está comandando esse tipo de processamento é o cérebro desse “EU TOTAL”.
E assim o “EU” total poderá corrigir esses problemas que surgem nas suas partes. Podendo às vezes ter ajuda externa, porque o Ser, ou o “EU”, pode ter enfraquecido essa capacidade de se autocorrigir devido a hábitos desenvolvidos por muito tempo e também pelo aprendizado de que a mente é separada do corpo.
Grace fez uma pausa.
Caminharam mais naquele estado de estar presente com todos os sentidos abertos: olhando as cores e as formas, cheirando as fragrâncias, sentindo as variações da temperatura provocadas pela brisa,ouvindo o canto dos pássaros, e em especial do Sabiá,e o grito do Gavião.
Mas as perguntas com vida própria continuavam perguntando.
Após caminharem em silêncio por algum tempo, Timóteo respirou fundo, relaxou e disse:
-Considerando essa ideia do “EU” total, você poderá se lembrar de que esse “EU” tem também um sistema de troca de informações com o meio ambiente (os sentidos) que lhe permite viver com segurança e também o uso dos recursos desse meio, como o ar que respira,os alimentos, o calor, a luz , a água, as belezas, os sons , os cheiros, etc. Assim, esse “EU” ainda não é um todo. Ele passará a ser um todo se você entender que ele faz parte da natureza. Ele é apenas uma pequena parte dela.
Pensando assim, você pode falar não mais de desenvolvimento pessoal, mas de um autodesenvolvimento que poderá então ser entendido como uma volta ao SER natureza.
Agora você pode definir auto-desenvolvimento como a consciência de que o “EU” faz parte de um todo, não é mais um todo em si. É um pequenino, um ínfimo grão de um todo imenso, de um todo que se estende alem do infinito, mas que também penetra em cada molécula, em cada átomo de todos os seres animados e inanimados desse Todo Universal.
Esta consciência faz o “EU” perder sua arrogância de que depois do Criador, é o único animal inteligente deste planeta e que chama a si próprio de animal racional. Criador esse que o “EU” cria e define de acordo com suas experiências, de acordo com seu estado de autodesenvolvimento. Arrogância de que é mais importante do que todos. De que pode determinar o destino dos outros seres.
Autodesenvolvimento é também o encontro de si mesmo. Da integração de suas partes muitas vezes conflitantes.
A consciência de que é um grão mínimo, mas que faz parte desse universo,e que tem poder para provocar mudanças de consequências desconhecidas para os “Eus”.
É a consciência de que o todo está sempre em mutação, de que cada parte do todo está também em mutação, de que o “EU” também está em mutação. E, sendo parte desse universo, tem a sensação de que tem um valor intrínseco, um valor indestrutível, um valor que não depende de avaliações próprias ou de outros, um valor porque existe, porque simplesmente existe, e assim qualquer outro ser, seja planta ou pedra, também tem um valor intrínseco porque existe. E todos têm de ser respeitados, porque fazem parte do TODO!
E se existem é porque são importantes e necessários. Necessários para o todo existir. Necessários também para ajudar as partes do todo a descobrirem essa sensação de auto importância sem arrogância, e a entender o processo de autodesenvolvimento.
Timóteo parou e respirou fundo novamente.
Grace, de boca aberta e surpresa, olhava-o de olhos bem abertos, e disse:
-Meu bem, de onde você tirou tudo isso ?
E ele: -Não sei. Também estou surpreso comigo mesmo. Será uma consequência do autodesenvolvimento?
Nesse ponto da conversa, eles já estavam sentados numa pedra, de onde viam um panorama deslumbrante das montanhas, que se desdobravam afastando-se e você percebia isto porque à medida que se afastavam iam mudando a coloração. Aqui perto um verde natural e aos poucos iam se escurecendo e mudando o tom até chegar a um azul misturado com cinza.
Eles ficaram ali sentados olhando essa imensidão do espaço. Em baixo e em frente as montanhas com seus tons variados e em cima nuvens decorativas do azul do céu, nuvens branquinhas que passavam mais rápidas como que viajando, e eles até chegaram a ver algumas sorrindo para eles.
Mais ao longe, nuvens com contorno de cinza iam se modificando tão lentamente que quase não se percebia suas alterações e evoluções. Ainda refletindo sobre desenvolvimento e crescimento pessoal e espiritual, poderiam até estar pensando se as nuvens estavam mesmo se modificando, talvez mais lentamente, algumas mais rapidamente, algumas se desmanchando, como que rareando talvez com a intenção mostrar o céu azul lindo, algumas se formando até com feitio de coisas daqui debaixo, algumas como que imitando um cachorro ou um touro, como se elas estivessem numa aula de artes, copiando o que viam em baixo, na terra.
Deram-se as mãos, olharam-se durante algum tempo, sentiram uma grande, uma enorme paz, olharam novamente aquele cenário agora com tom de fogo nas nuvens e sentiram como se uma onda os estivesse invadindo.
Alguma coisa que não sabiam explicar, uma experiência nova, intensa, mas era alguma coisa grandiosa. Uma coisa grandiosa era a única palavra que tinham para definir o que estava acontecendo.
Falaram ao mesmo tempo:
-Não vamos tentar definir nem colocar um rotulo do tipo espiritual, místico, no que estamos sentindo. Colocar um rótulo é como colocar a experiência dentro de uma caixa, é limitar o que estamos sentindo.
O que estamos sentindo é vivo, esta produzindo emoções intensas e está se expandindo de uma maneira parecida com as formações de nuvens que estamos presenciando.
E, nesse momento, sentiram uma emoção muito intensa, que fez seus olhos ficarem molhados, e pensaram ao mesmo tempo que parecia até que havia “alguém” produzindo aquele espetáculo para eles.
De repente olharam-se um ao outro, olho no olho, e por uma fração de segundo o mundo parou e com os peitos arfando de emoção, falaram ao mesmo tempo:
ALGUÉM?

José Auguto Sathler
15/11/2014

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