A insólita desventura de Alair Corrêa

O desapontamento atinge seus eleitores, os que acreditaram em suas promessas e propostas e os que admiravam as melhorias superficiais implantados ao longo dos seus quatro mandatos, como medidas inequivocamente corretas. O desapontamento, portanto, não é com o comportamento do prefeito, mas com a decisão judicial que bloqueou seus bens e afastou seu irmão e uma filha da administração do Poder Executivo. Para eles Alair estaria sendo injustiçado.

Esse tipo de relação umbilical não é incomum em milhares de municípios. Considere-se, por exemplo, o Rio de Janeiro: o prefeito Eduardo Paes está sendo percebido como um viável candidato à presidência da República em 2018 ou à governador ou à senador. Mas, o que distingue Eduardo Paes? Simples. A maioria dos eleitores é muito mais positivamente motivada a votar no candidato que promete realizar melhorias estéticas do que o que se compromete com as relativas à educação, saúde, segurança, transporte, etc.

As melhorias estéticas são visíveis, como é o caso da Zona Portuária no Rio, das ruas asfaltadas em alguns bairros em Cabo Frio. A ausência de rede de coleta de esgoto é invisível e, portanto, torna-se de baixíssima prioridade que ação seja tomada para impedir que 70% do esgoto produzido em um município com 7,5 milhões de habitantes sejam despejados, sem tratamento, na baia de Guanabara.

O residente em um município como Cabo Frio é mais inclinado a protestar pelos incômodos causados por uma rua não asfaltada do que com a instalação de uma rede de coleta de água fluvial que também coleta esgoto. Isso é natural, uma vez que o residente vê nessa ação um facilitador para um problema exclusivamente seu: dar destino ao esgoto produzido em sua residência. Só muito mais tarde irá perceber o dano causado pela ação do prefeito, com sua conivência indireta, é verdade, na medida em que, de um modo geral, não dispõe de conhecimento – e não é obrigado a tê-lo – que o permitiriam a fazer as escolhas mais adequadas.

Considere-se o caso do Shopping Park Lagos. Não há dúvida de que o número de residentes que apoiaram sua construção, em Cabo Frio e em municípios vizinhos, foi muito maior do que o que os combateram. Obviamente, atualmente, um alto percentual do primeiro grupo está, agora, percebendo, as consequências danosas que afetam todos os residentes da Região dos Pagos e frequentam o shopping: é inegável o aspecto desagradável da laguna de Cabo Frio, que é observado pelos frequentadores da praça de alimentação: a praia das Palmeiras regularmente coberta de algas, exalando mau cheiro, resultado dos vazamentos que ocorrem no tanque de retenção de esgoto produzido no shopping. Quem, dentre os frequentadores que apoiaram a construção do shopping, permitiria que seus filhos se banhassem naquela praia? Como a guerra, só nos damos conta de sua insuportável consequência depois de concordarmos com a sua ocorrência.

Assim é num município. Prevalece em Cabo Frio, por exemplo, a expectativa de quando a passarela construída ao longo da avenida marginando a praia do Forte, irá novamente desabar. Porque desabar irá, inevitavelmente, uma vez que o ciclo de ressacas com força suficiente para derrubá-la, se repete, naturalmente, não havendo planejamento que consiga controlar a Natureza. No Japão, por exemplo, os terremotos. Em Cabo Frio, as violentíssimas ressacas.

Os estabelecidos 20 anos de controle da administração municipal de Cabo Frio, anunciada por Alair, em 1997, no início de seu segundo mandato, está tendo um fim melancólico.

Em troca de ruas asfaltadas, aceitamos a destruição das lagunas Cabo Frio e Maracanã e o fim da atividade pesqueira. Um visitante certamente ficará surpreso se for informado que, em média, retirava-se da laguna de Cabo Frio, nas décadas de 1970 e 80, quase uma tonelada de camarão cinza. Diariamente. Nas décadas de 50 e 60 essa quantidade era o dobro. O visitante, provavelmente, exclamará, impossível! E não irá crer que na Ponta do Ambrósio havia uma atividade econômica que empregava centenas de pessoas, bastante rendosa, de processamento dos camarões: a descasca e ensacamento.

Alair Corrêa, dentro de quatro meses, terá tempo para contemplar o insólito final de sua carreira política.

No momento fica-se a imaginar que mudanças poderá propor um candidato a prefeito ou a vereador. Sem recursos, as mudanças seriam limitadíssimas.

Tornou-se incomodativo tecer comentários sobre Cabo Frio. É um município economicamente estagnado e em decadência. Mais cedo ou mais tarde o Brasil irá ultrapassar a crise econômica e voltará a crescer, mas Cabo Frio não terá fôlego para acompanhar o País.

A Miami brasileira que Alair se propôs a criar só existiu na sua imaginação. Com ele desaparecerá.

Ernesto Lindgren
CIDADE ONLINE
09/09/2016

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