A importância geoecológica da Enseada de Búzios (I)

A importância geoecológica da Enseada de Búzios (I)
A importância geoecológica da Enseada de Búzios (I)

Por Arthur Soffiati

Examinando a costa fluminense, notamos que, da divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro à margem direita do Rio Macaé, a zona cristalina confina com o mar, sendo afastada dele apenas por estreitas praias ou por restingas. Da margem esquerda do Rio Macaé ao Rio Itapemirim, no Espírito Santo, a zona costeira é formada por três unidades da Formação Barreiras (tabuleiros), pelas planícies aluviais dos Rios Macaé, Paraíba do Sul, Itabapoana e Itapemirim e pelas Restingas de Carapebus, Paraíba do Sul e Marobá. Trata-se de um grande acrescido natural de marinha que afasta a zona cristalina do mar.

Continuando a examinar a linha costeira do Estado do Rio de Janeiro, identificamos várias reentrâncias (notadamente as baías) e saliências (sobretudo as pontas, cabos e promontórios). Da divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro a Arraial do Cabo, poder-se-ia dizer que o litoral descreve uma linha com orientação oeste-leste, cortada pelas reentrâncias das Baias da Ilha Grande, Sepetiba e Guanabara. Entre Arraial do Cabo e a Ponta da Sapata, a costa faz uma curva no sentido sudoeste-nordeste. Todo este litoral está exposto a fortes ondas e correntes marinhas. Da Ponta da Sapata à margem direita do Rio Macaé forma-se uma grande e suave enseada onde a energia oceânica se abranda. Da margem esquerda do Rio Macaé ao Cabo de São Tomé, a costa descreve uma discreta linha inclinada no sentido sudoeste-nordeste. Daí em diante, registra-se uma forte inflexão nos sentido setentrional.

A importância geoecológica da Enseada de Búzios (I)Orientação geral da costa fluminense. Fonte: Google Earth, abril de 2013.
Podemos reconhecer quatro segmentos da grande enseada entre a Ponta da Sapata e o Rio Macaé. O primeiro tem exatamente os limites entre esses dois pontos mencionados. O segundo estende-se da Ponta da Sapata ao Rio das Ostras. O terceiro, da Ponta da Sapata ao Rio São João e o quarto, da Ponta da Sapata à foz do Rio Una. Todos os segmentos apresentam importância do ponto de vista ambiental, como, de resto, toda a costa brasileira, a julgar pelo estudo “Avaliação e Ações Prioritárias para a Conservação da Biodiversidade das Zonas Costeira e Marinha”, formulado sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente, em 2002.

Neste artigo, a intenção é proceder a um breve levantamento dos estudos recentes sobre a Enseada de Búzios entre o segmento que se estende da Ponta da Sapata à foz do Rio Una. Para tanto, o artigo será dividido em duas partes.

Constituição geológica

Identificamos, no geral, quatro unidades geológicas bem distintas na costa em apreço. A primeira é constituída pelo embasamento cristalino, que pode apresentar declividades suaves até o mar, permitindo a formação de praias, ou declividades abruptas, originando os significativos ecossistemas de costões rochosos. A grande importância do cristalino, neste segmento, está em se constituir na mais expressiva amostra da ligação da África e América no pretérito continente de Gondwana.

A segunda feição é representada pelos tabuleiros da Série Barreiras, que, em cortes abruptos junto ao mar, formam falésias, ou seja, verdadeiras muralhas trabalhadas pela erosão. Chama à atenção a falésia alinhada na Falha do Pai Vitório, na Praia Gorda. A geóloga Katia Leite Mansur informou pessoalmente ao autor que “a ponta do Pai Vitório ou a Falha do Pai Vitório é uma das mais espetaculares feições geológicas no Estado do Rio de Janeiro por vários motivos: a) é uma das falhas mais didáticas que conhecemos – a tal ponto que há uma proposta de metodologia para descrição de rochas formadas em ambiente de falha que foi desenvolvida pela observação do Pai Vitório; b) é uma feição geomorfológica singular – uma linha perfeita cortada como feita por uma faca até a escarpa da Ilha Feia. O espelho de falha (nome dado a este tipo de feição) é impressionante; c) Aspecto tectônico – uma falha que mostra pelo menos 4 movimentos (4 terremotos!) e coloca lado a lado rochas do embasamento (com 2 bilhões de anos) e a Formação Barreiras (entre 20 e 2 milhões de anos – uma lacuna de tempo impressionante); d) aspecto paleoambiental – o movimento da falha produziu os leques aluviais impressionantes que mostram duas faces: o nível do mar esteve bem mais baixo na época de sua formação e deviam existir rios encachoeirados belíssimos por ali; e) aspecto hidrogeológico e geoambiental – Estes depósitos conglomeráticos são muito permeáveis e porosos, permitindo grande infiltração e transmissão de água, que finalmente é descarregada na base da paleofalésia. Na Praia Gorda o piso da praia é composto pelos conglomerados (afloramentos) e por blocos de brechas tectônicas do pai Vitório.”
A terceira é representada por planícies aluviais, sendo a da Bacia do Una a mais significativa. Por fim, as restingas, depósitos de areia mais largos que as praias formados pelo mar junto à costa. Podemos apontar na Enseada de Búzios a restinga que se alastra da foz do Rio Una à foz do Rio São João.

Condições do ambiente marinho

A notável característica das águas marinhas na Região dos Lagos é o fenômeno oceanográfico da ressurgência. Ele consiste na troca das águas quentes superficiais por águas frias de fundo, repletas de nutrientes, mediante um processo de circulação. O fenômeno é mais comum entre primavera e verão.

Sistemas hídricos

No trecho costeiro selecionado, não há lagunas como na Restinga de Araruama. Encontramos nele, contudo, a maior bacia fluvial da pequena Região dos Lagos: a Bacia do Una. Se esticarmos a enseada até o Rio Macaé, este, o Rio das Ostras e o Rio São João devem ser levados em conta. Antes das ações antrópicas executadas pela Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, depois Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), desembocava na enseada o Rio Trapiche, hoje ocupado pela Marina Porto Búzios. Na Praia de Manguinhos, existe um diminuto curso d’água que pode ser interpretado como antigo riacho a descer das partes altas do promontório. A maior parte dele corre hoje dentro de manilhas sob a terra e se apresenta poluído.

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A importância geoecológica da Enseada de Búzios (final)

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Formações vegetais nativas

Tomando por base o estudo “Mapeamento da vegetação e do uso do solo no Centro de Diversidade Vegetal de Cabo Frio, Rio de Janeiro, Brasil”, tendo como autores Claudio Belmonte de Athayde Bohrer, Heloisa Guinle Ribeiro Dantas, Felipe Mendes Cronemberger, Raul Sanchez Vicens e Sandra Fernandes de Andrade, as formações vegetais nativas que se consolidaram na Enseada de Búzios depois de estabilizada a costa, no baixo Holoceno, são as seguintes:

1- Floresta estacional semidecidual atlântica. Trata-se da mata atlântica adaptada a uma estação seca, o que a leva à perda de folhas entre 20% e 50% em tempos de estiagem. Esta formação atinge a Enseada de Búzios.

2- Floresta estacional decidual. É ainda a mata atlântica, mas adaptada a condições mais secas ainda, notadamente provocadas pelo fenômeno da ressurgência e pelos ventos que se dirigem do mar para o continente. Esta floresta chega a perder 80% de suas folhas na estação seca. Originalmente, ela ocupava o centro do Promontório de Búzios, onde ainda podem ser avistados alguns fragmentos dela.

3- Formações pioneiras de influência fluvial. Originalmente, estendia-se por toda a planície da Bacia do Una. Caracteriza-se por plantas herbáceas, no máximo arbustivas, podendo assumir feição arbórea nas margens dos rios em função da umidade. Como na planície do Rio Paraíba do Sul, esta foi a formação mais atingida pelas ações antrópicas na Região dos Lagos. Em quase toda a sua extensão, a agropecuária se implantou aproveitando-se dos campos nativos. Posteriormente, as espécies nativas foram substituídas por forrageiras exóticas.

4- Formações pioneiras de influência marinha. São constituídas por plantas que colonizam o substrato arenoso de restinga, limitadas pela salinidade do solo e do ar e pelos ventos costeiros. Remanescentes de vegetação nativa herbáceo-arbustiva de restinga ainda se encontram no Promontório de Búzios. Na extensa restinga que se formou entre os Rios Una e São João, desenvolveu-se uma notável amostra de vegetação arbórea de restinga, hoje bastante reduzida, mas conservando ainda indiscutível importância ecológica.

5- Formações pioneiras de influência fluviomarinha. São exemplificadas pelos manguezais. Na enseada de Búzios, encontram-se dois manguezais de franja, um tipo fisiográfico que se instala diretamente em praias ou ilhas sem contar com o aporte de água doce a montante. Um deles localiza-se na Ponta da Sapata. Outro é o famoso Mangue de Pedra, na Praia Gorda. Como explica a geóloga Katia Leite Mansur, os dois recebem água doce acumulada em sua retaguarda em formações de tabuleiro, na frente dos quais enraizaram-se o Mangue de Pedra e o manguezal da Ponta da Sapata. Do tipo fisiográfico ribeirinho, aquele manguezal que cresce em estuário, nas margens dos rios, mencionamos o do Rio Una e o do Córrego Barrinha. No passado, havia ainda o manguezal do Rio Trapiche. Todas as formações vegetais nativas sofreram grande redução diante do avanço da agropecuária, da urbanização e da extração de sal da Lagoa de Araruama.

A importância geoecológica da Enseada de Búzios (I)Enseada de Búzios: segmento entre a Ponta da Sapata e a foz do Rio Una. Fonte: Google Earth, julho de 2013.
 Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

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