A importância geoecológica da Enseada de Búzios (final)

A importância geoecológica da Enseada de Búzios (final)
A importância geoecológica da Enseada de Búzios (final)

Entre a Ponta da Sapata e a foz do Rio Una, como vimos no artigo anterior, existem testemunhos importantes relacionados à geologia, à paleontologia, à ecologia, à biodiversidade e à arqueologia, justificando medidas a serem tomadas pelo poder público com o objetivo de protegê-los.

A importância geoecológica da Enseada de Búzios (final)Enseada de Búzios: segmento entre a Ponta da Sapata e a foz do Rio Una. Fonte: Google Earth, julho de 2013.

Geologia
Um dos monumentos geológicos mais singulares de todo o planeta situa-se nesse trecho do litoral. Trata-se da Falha do Pai Vitório, que se estende do continente à Ilha Feia. Mais uma vez, recorro ao depoimento de Kátia Leite Mansur, em informação pessoal ao autor: “a Falha do Pai Vitório é uma das mais espetaculares feições geológicas no Estado do Rio de Janeiro por vários motivos: a) é uma das falhas mais didáticas que conhecemos – a tal ponto que há uma proposta de metodologia para descrição de rochas formadas em ambiente de falha que foi desenvolvida pela observação do Pai Vitório; b) é uma feição geomorfológica singular – uma linha perfeita cortada como feita por uma faca até a escarpa da Ilha Feia. O espelho de falha (nome dado a este tipo de feição) é impressionante; c) Aspecto tectônico – uma falha que mostra pelo menos 4 movimentos (4 terremotos!) e coloca lado a lado rochas do embasamento (com 2 bilhões de anos) e a Formação Barreiras (entre 20 e 2 milhões de anos – uma lacuna de tempo impressionante); d) aspecto paleoambiental – o movimento da falha produziu os leques aluviais impressionantes que mostram duas faces: o nível do mar esteve bem mais baixo na época de sua formação e deviam existir rios encachoeirados belíssimos por ali; e) aspecto hidrogeológico e geoambiental – Estes depósitos conglomeráticos são muito permeáveis e porosos, permitindo grande infiltração e transmissão de água, que finalmente é descarregada na base da paleofalésia. Na Praia Gorda o piso da praia é composto pelos conglomerados (afloramentos) e por blocos de brechas tectônicas do pai Vitório.”

Paleontologia
Ultimamente, vários estudos de paleontologia têm sido efetuados neste trecho da costa, evidenciando a importância dos achados para o estudo do último grande avanço do mar (transgressão marinha), em torno de 5.100 anos antes do presente (AP), para os ecossistemas da época e para a fauna invertebrada. Explica a biologia que uma assembléia fossilífera ou acumulação bioclástica consiste num conjunto relativamente denso de partes duras de qualquer tipo de organismo, independente da classificação taxonômica, estado de preservação ou grau de modificação “post-mortem”. Podem ser constituídos de restos de vegetais, de carapaças de invertebrados e de esqueletos de vertebrados.

O lado bom da canalização dos cursos d’água das Bacias do Uma e do Trapiche pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) foi trazer à tona várias assembléias fossilíferas, que se mostraram de grande interesse para a paleontologia e para a paleoecologia. O estudo intitulado “A Importância da Preservação das Acumulações Bioclásticas da Planície Costeira do Rio Una, Municípios de Cabo Frio e Armação dos Búzios, RJ, Brasil”, assinado por Aline Meneguci da Cunha, João Wagner de Alencar Castro e Fábio Ferreira Dias, reúne o resultado de pesquisas empreendidas no âmbito da Bacia do Una acerca de geologia e paleontologia. Este trabalho levanta as seguintes assembléias fossilíferas descobertas e estudadas em vários pontos do Una: 1- foz do Rio Una, na Praia Rasa; 2- canal de drenagem da Marina Porto Búzios (observo que este se situa na extinta bacia do Rio Trapiche, e não do Una); 3- Reserva de Tauá, no Pântano da Malhada; 4- Campos Novos; 5- Condomínio Portal de Búzios; e 6- Fazenda do Araçá.

{slider Leia Também}

A importância geoecológica da Enseada de Búzios (I)

{/sliders}

Particularmente no que concerne ao Pântano da Malhada, recorro ao estudo “Coquinas da Paleolaguna da Reserva Tauá-Pântano da Malhada, RJ – Um registro de optimum climático holocênico”, de autoria de João Wagner Alencar Castro, Maria Célia Elias Senra e Renato Rodriguez Cabral Ramos, destinado ao programa Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil (SIGEP).

Cabe explicar que uma coquina é também uma assembléia fossilífera, mas formada de moluscos.
Este conjunto de valor paleontológico ocupa cerca de 1 km2 entre os Municípios de Cabo Frio e Armação de Búzios, na borda leste do Pântano da Malhada. Ele apresenta excelente estado de conservação, permitindo identificação taxonômica e reconstituição paleoambiental. Além do mais, pôde-se concluir por ele que o nível do mar subiu em torno de 4,8±0,5 metros acima do atual por volta de 5.100 anos AP, formando uma laguna.

Para o estudioso leigo, o caminho mais curto entre a costa e a laguna é o próprio Rio Una. Contudo, as investigações mostram que o mar invadiu o continente pela Praia do Peró, abrindo um canal que permitiu a formação da laguna. Atualmente, a drenagem dela se processa pelo Córrego do Retiro, pelo Rio Ubá e por canais artificiais. O sítio está mais próximo da Praia Rasa, na Enseada de Búzios, que da Praia do Peró. A idade do sítio situa-se entre 5.034 a 5.730 anos AP, datas entre as quais registra-se o máximo transgressivo holocênico, em 5.100 anos AP.
As investigações revelam que se operou um rápido recuo da linha do mar (regressão marinha) há mais ou menos 4.900 anos AP. Com o descenso do mar, algumas lagunas transformaram-se em brejos, levando animais marinhos incrustadores à morte. Restaram, porém, suas carapaças.

O estudo “Assembléia de Moluscos da Região do Pântano do Ramalho, Cabo Frio, RJ: Indicadores Biológicos de Variação do Nível Relativo do Mar Durante o Holoceno”, escrito por Aline Meneguci da Cunha, Fábio Ferreira Dias, Vera Maria Medina da Fonseca e João Wagner de Alencar Castro, analisa outro conglomerado paleontológico na Bacia do Una. Este se localiza no Pântano do Ramalho, envolvido pelo condomínio Portal de Búzios, que, por sua vez, ocupa terras da Fazenda Campos Novos, outrora pertencente aos Jesuítas.
Trata-se de uma acumulação de conchas de moluscos associada ao último máximo transgressivo marinho, cujo pico foi datado em 5.100 anos AP. Estima-se que o depósito tenha cerca de 5.430 anos AP, com variação de 100 anos.

Biodiversidade: algas

Estudando a ocorrência de algas marinhas na Região dos Lagos, Poliana S. Brasileiro, Yocie Yoneshigue-Valentin, Ricardo da G. Bahia, Renata P. Reis e Gilberto Menezes Amado Filho apresentaram o resultado de suas pesquisas no artigo “Algas marinhas bentônicas da Região de Cabo Frio e arredores: síntese do conhecimento”. Foram identificadas 27 ordens, 57 famílias e 154 gêneros. Distribuídas por municípios, critério que considero não-científico, pois os limites político-administrativos são, quase todos, artificiais, obtiveram-se os seguintes maiores números em termos de espécies: Armação de Búzios (212), Arraial do Cabo (207) e Cabo Frio (155). Não menciono outros municípios da Região dos Lagos porque o tema dos dois artigos da série refere-se à Enseada de Búzios. Neste sentido, é pertinente observar que o campeão em ocorrência de espécies de algas é Armação de Búzios, com 212 espécies registradas, das quais 171 foram encontradas na Praia Rasa, integrante da Enseada de Búzios.

Destas 171 espécies, 104 foram identificadas na Ponta do Pai Vitório, também no domínio costeiro que estamos estudando. Segundo os cientistas, a quantidade está associada ao fenômeno oceanográfico da ressurgência, já visto no primeiro artigo da série.

Biodiversidade: aves

tie sangueTiê-sangue (“Ramphocelus bresilius”), espécie endêmica da Mata Atlântica. Foto: Rafael Bessa. chocaChoca-de-sooretama (“Thamnophilus ambiguus”), espécie endêmica da Mata Atlântica.

Não conheço a história em detalhes. Pelo que entendi, houve uma tentativa de ampliação da marina Porto Búzios, que se instalou originalmente na Bacia do Trapiche, a poucos quilômetros ao sul da foz do Rio Una. A instalação da marina aproveitou o trecho final do Rio Trapiche, retilinizando e aprofundando sua foz para permitir a entrada e a ancoragem de iates. A estrada ao fundo do canal da marina segmentou o rio. Agora, as águas de montante fluem por manilhas subdimensionadas. Os vestígios do passado mostram que a pequenina bacia deveria ser extremamente rica em termos de vestígios paleontológicos e de biodiversidade atual.

A empresa que pretendia ampliar a marina contratou a consultoria de uma das muitas firmas disponíveis no marcado para elaborar estudos de impacto ambiental de acordo com os interesses do freguês. A contratada, no caso, foi a firma Servec Ecologia, que, examinando um brejo restante do Rio Trapiche, identificou 22 espécies de aves em relatório de 2009, que desconheço. Também não sei como a questão foi encaminhada ao Ministério Público Estadual, embora conheça muito bem o caminho. Aos pesquisadores Luciano Moreira Lima, Bruno Carlos Rennó Ribeiro Soares e Rafael Bessa, o Ministério Público solicitou um parecer, que recebeu o título de “Aves da Laguna da Rasa, Armação dos Búzios, Estado do Rio de Janeiro: área prioritária para conservação da avifauna fluminense” (Abril de 2011).

O brejo está tomado por taboa (“Typha domingensis”), mas apresenta espelho d’água livre em certos pontos, ambiente bastante atraente para aves. Em vez de 22, em poucas visitas ao brejo, os três pesquisadores identificaram 132 espécies de aves distribuídas em 40 famílias. Quatro espécies das identificadas são endêmicas da Mata Atlântica: 1- choca-de-sooretama (“Thamnophilus ambiguus”), 2- tachurim-campainha (“Hemitriccus nidipendulus”), 3- tiê-sangue (“Ramphocelus bresilius”) e 4- saíra-sapucaia (“Tangara peruviana”).

laguna da rasaLaguna da Rasa observada a partir da estrada que corta a porção sudeste da área de estudo. Foto: Luciano Lima.

 Importância ecológica

Em 2002, o Ministério do Meio Ambiente divulgou o relatório técnico “Avaliação e ações prioritárias para a conservação da biodiversidade das zonas costeira e marinha”. Nele, a Bacia do Una figura como extremamente alta para fins de proteção. Os autores do documento propõem a criação de Unidade de Conservação para preservá-la.

Ampliando o foco para a Enseada de Búzios, entendo que os ecossistemas a serem protegidos ao longo desta costa são o Manguezal da Ponta da Sapata e o Mangue de Pedra, a vegetação arbórea de restinga que ainda resta ao norte do Rio Una e a totalidade desta bacia, não só por sua importância biológica e ecológica, como salienta o citado relatório técnico, mas também pelo seu valor geológico e paleontológico. Tal proteção deve incluir os remanescentes do Rio Trapiche e parte das águas marinhas costeiras, em virtude da diversidade de algas.

Para tanto, ou se amplia o Parque Estadual da Costa do Sol de maneira que ele possa abarcar todos os sítios mencionados, inclusive a Falha do Pai Vitório, ou são criadas unidades de conservação para cada um. Já existe o geoparque dos Costões Rochosos e Lagunas do Estado do Rio de Janeiro. Agora, creio serem necessários instrumentos mais rigorosos para a proteção dos ecossistemas da Enseada de Búzios.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

{loadposition facebook}

 

COMPARTILHAR